Diário![]() 03/04/2009 19h28
PC
Partidos
Publicado por Rubens Jardim em 03/04/2009 às 19h28
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ANGÉLICA : PRECISO DO VERSO PARA NÃO MORRER SECA
No alto de uma escada, estreita e imensa, sem corrimão --eu mergulho nos versos da poeta Angélica Torres. Estou na praia de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, muito próximo do local onde foi realizada a primeira missa no Brasil. O céu está limpo e a minha alma completamente desperta. Resta-me seguir os versos da poeta e buscar o grão e o graal do céu solar. Mas sem esquecer que a manhã sempre chega acendendo luzes no quintal e que a vida se ajeita livre das dores, dos receios sombrios e da insônia teimosa --ainda que por poucas horas. E que a poesia pode ser aquilo que já foi preconizado pelo poeta Jorge de Lima: invenção, revolução e salvação. Aliás, o que me fez lembrar disso foram estes versos da Angélica, incluídos no seu último livro, O Poema Quer Ser Útil, publicado em Brasília em 2006: preciso do verso para não morrer seca.
Fazendo essa referência, humilde e solene ao mesmo tempo, a poeta Angélica nos remete, de imediato, aos processos que fazem circular os nutrientes da língua e da linguagem. Acho que todos nós, poetas e não poetas, sentimos que a palavra poética inaugura, instala e dissemina uma comunhão afetiva e sensorial que se situa além ou aquém de qualquer compreensão racional. E isto porque, como bem disse o poeta Affonso Romano, na abertura do livro de Angélica, a poesia é um gênero de primeira necessidade para a alma humana. E ao contrário da prosa –que é totalmente analítica, dedutiva e subordinada ao encadeamento lógico do inicío-meio-e-fim –a poesia é síntese irreversível, atalho, curto-circuito, relâmpago. É uma espécie de alquimia e torna visível o invisível, dizível o indizível e essencial o contigente. E aqui vai um exemplo breve, rápido dessa inquestionável presentificação da beleza que habita as coisas e o mundo. Tomara que caia Um haikai Na tua saia Angélica Torres Lima nasceu em Ipameri (GO), em 1952. Cursou Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Brasília (UnB) e Direção e Cenografia em Artes Cênicas, na Fefieg (atual Unirio). Formou-se em Comunicação pela UnB e especializou-se em edição de livros e periódicos pela Universidade de Wisconsin (EUA). Trabalhou em diversos jornais, geralmente em editorias de cultura. Publicou os seguintes livros de poemas:Sindicato de Estudantes (1986), pelo qual recebeu o Prêmio Mário Quintana de Poesia, do Sindicato dos Escritores de Brasília, Solares (1988), Paleolírica (1999) e O Poema quer ser Útil (2006). Já se ocuparam do trabalho da poeta Angélica Torres autores expressivos como Affonso Romano de Santana, Reynaldo Jardim, Ziraldo, José Carlos Capinam, Oswaldino Marques, Nicolas Behr e muitos outros. Mas vamos conferir a sua palavra poética: A pena Entre o hábito falho da lembrança da morte e a nudez da ausência flagrada de golpe o corte o soco a queda o choque. O vazio habitado, agora sabendo, de fato, do nada valendo a pena (do livro Paleolírica) O mago Da alma do velho pássaro falecido ouvi teu canto rouco, manso Sol ardente dor incendiante. Resisti Num haicai de três asas sem som de palavras bem-te-vi (do livro Paleolírica) SOLARES DE YPAMERI Vôo volátil, o vento tocou-me o pensamento em um jardim suspenso entre telhas de barro: olhos cerâmicos sombrearam o mundo * Desembrulhados ao humor dos feitos do céu os telhados guardam em meu olhar desabitado a alma da cidade vermelha, de barro, pairando no azul solar. (do livro Solares) GOYAZ NÃO HÁ MAIS Cortaram o meu Goyaz ao meio E não me pediram licença. Meu papagaio de infância degolado. Eu não tinha autorizado. Com o Norte, assim de mim apartado perdi o rumo no mapa. Levaram embora minha crença meu estado de nascença o contorno da minh’alma meu Brasil por excelência meu sentimento geográfico meu sentido de existência. Só deixaram o Sul, disforme, e a metade da minha ausência (do livro O POEMA QUER SER UTIL) POESIA SALVA Se a paisagem é inútil, se o que é bom para o lixo é bom para a poesia, por que o poema quer ser útil? – pergunta o poeta meu amigo. Ora, então não é ele sobretudo solidário e abrigo? (do livro O POEMA QUER SER UTIL) O poema quer ser útil ao mobiliário da noite solitária nesta casa. Pergunto à Musa, respeitosamente: -Compaixão? Ou inveja desta acre-doce amarga solidão? (do livro O POEMA QUER SER UTIL) Publicado por Rubens Jardim em 05/03/2009 às 12h04
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A POESIA E O MARKETING, ENTRELAÇADOS EM RONALD ZOMIGNAN CARVALHO
Antes de ser um homem de marketing, muito respeitado pelos seus pares, Ronald Zomignan Carvalho foi-- e é poeta. Publicou Ao Compasso de Marcha (1965) e Olhar Girassol (1992). E me surpreendeu, muito, quando publicou em 1998 o livro Marketing por Ronald Zomignan Carvalho. E essa surpresa foi causada pelo modo absolutamente diferenciado –e poético – que o Ronald atribui a essa atividade. Segundo suas próprias palavras, dois pontos fundamentais definem a profissão de marketing: entender o outro e respeitar o outro. Assim você vende. Assim você encanta o cliente. Assim você é feliz e faz seu cliente feliz. Isto é marketing. Marketing é ser feliz. E em outro momento ele arremata: Sem ética não existe Marketing. Aliás, sem ética não existe nada.
Não é muito difícil perceber, nessas palavras, o impacto que a poesia teve em sua linguagem --e em seu invejável desempenho profissional. Aliás, é bom destacar aqui um fato: Ronald Zomignan Carvalho foi nosso companheiro no movimento Catequese Poética, iniciado por Lindolf Bell em 1964. Naquela época, participou de diversas reuniões do grupo --e foi presença marcante em uma incontável quantidade de recitais. Lembro-me que um de seus poemas encantava nosso grupo e, quando era lido em nossas apresentações públicas, provocava reações muito positivas. Chamava-se Lar e começava assim: essa rua é minha rua/essa casa e minha casa./ esse é o povo que eu amo/e que traí tanto tempo... Pois bem: esse velho amigo e companheiro preparou-me nova surpresa. Enviou poema, escrito há uns dois anos atrás, lembrando desses tempos em que nos encontrávamos nos bares da Praça Dom José Gaspar e escrevíamos, escrevíamos. Éramos todos novíssimos. Vamos conferir: Novíssimos Eu preciso encontrar, Meu velho amigo Rubens Jardim, O caminho do rio, Por entre as árvores, Meandros e becos dos bairros E das vontades estranhas, Poetas, burocratas, nós todos De mãos dadas. Calados. Sonhadores. Precisamos também buscar as lembranças De Mario, Oswald, Bell, Piva, Carlos Felipe, Enfim, os malucos todos, Os reservados, os preteridos, os boquirrotos, Os esquecidos e os populares. Por onde correm estes rios? Quando, de novo, nos encontraremos Nas escadarias da Biblioteca Municipal, Ou nos bares da Praça Dom José Gaspar? Eu me sinto mal, Rubens, o coração aperta, Taquicárdico, e me sinto bem, escrevendo, Como se fosse o único, inviolável, mentiroso, Os rios correndo, os cavalões comendo, Todos os poemas, todas as citações, Todas as vontades e segredos, Nossas mulheres, nossas vozes amassadas, Nossos paletós, sandálias, jeans e camisetas. Ah! E as galerias, as galerias, que saudades! ( O Bell usava umas malhas hering, que ironia! Grossas, de mangas compridas, ele era tão bonito!) A rua nos pertencia, então. A gente gritava na Líbero, Em frente à livraria do Carlos Felipe, Andando pela Rua São Luís, chorando, cantando. Éramos muitos, trinta, quarenta, todos tão jovens, Todos tão bons poetas, todos limpos e arrumados, Chorando ou sorrindo quando necessário, Mas escrevendo sempre, escrevendo sempre. É preciso que nos encontremos, Principalmente os que não morreram, E que nos banhemos novamente Nas águas deste rio, apesar de toda a poluição. Precisamos chorar, Precisamos, Sei lá o que precisamos. Acho que, no fundo, Não precisamos mais nada. Publicado por Rubens Jardim em 11/02/2009 às 21h10
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JORGE DE LIMA, O CASO MAIS APAIXONANTE DA POESIA BRASILEIRA
O NOME DA MUSA DO LIVRO DE SONETOS Essa pavana é para uma defunta Publicado por Rubens Jardim em 05/02/2009 às 12h39
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COLOCANDO OS PONTOS NOS IS NO CASO JORGE DE LIMA
Há 36 anos , quando publicamos Jorge,80 anos e organizamos o Ano Jorge de Lima, (que teve a colaboração de Luiz Carlos Mattos e Malu de Alencar) nosso objetivo era um só: trazer à tona a obra daquele que foi considerado por Mário de Andrade como um dos casos mais apaixonantes da poesia brasileira. Sem apoios oficiais ou oficiosos, tivemos a sorte de sensibilizar grande parte da mídia e contar com a boa vontade --e até mesmo a colaboração de poetas, críticos e escritores do porte de Drummond, Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, Raduan Nassar, Álvaro Alves de Faria, Stella Leonardos,entre outros. O INL também aliou-se ao movimento e algumas editoras sentiram-se motivadas em reeditar seus livros. Para se ter uma idéia das dimensões do Ano Jorge de Lima, das suas repercussões e dos seus resultados, basta registrar que Jorge de Lima foi o tema do samba-enredo da Mangueira no desfile de carnaval de 1975. Anos depois, outra escola de samba carioca, a Mocidade Independente, também resolveu homenagear o poeta Jorge de Lima e levou para o sambódromo O Grande Circo Místico. Mais ou menos na mesma época, Chico Buarque e Edu Lobo debruçaram-se sobre esse poema de Jorge de Lima e conceberam o espetáculo de dança mais famoso apresentado no Brasil--além da trilha sonora tão clássica e tão celebrada, comercializada em disco pela Som Livre em 1983. Não bastassem as grandes canções do álbum, seus intérpretes também não poderiam ser mais adequados, indo de Milton Nascimento a Tim Maia, passando por Gilberto Gil, Gal Costa, Zizi Possi, Simone, Jane Duboc --além é claro de Chico e Edu.
A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, informou que o nome do poeta passava a figurar na lista para denominação de uma biblioteca. A editora José Aguilar lançou, também em 75, e em convenio com o MEC/INL, as Poesias Completas de Jorge de Lima-- e a preços populares. Outro fato importante : o interesse que a obra do poeta despertou em um grupo de professores norte-americanos. John M.Tolman, da Universidade do Novo México, em Albuquerque, veio ao Brasil em 77 com o objetivo de coletar informações para um ensaio publicado na coleção Twaine World Authors. Dá para se perceber que não haveria espaço suficiente para transcrever ou citar todos os desdobramentos de mais essa iniciativa da Catequese Poética. Ainda assim, é preciso lembrar que o centenário de Jorge de Lima, ocorrido em 1993, não teve a mesma repercussão, nem o mesmo sortilégio. Pouco se fez em favor de sua poesia ou de sua memória. E o pior de tudo: nós, da Catequese, que fomos responsáveis por seu ressurgimento, sequer fomos lembrados ou citados. Mas estamos com a consciência tranquila. Achamos já ter cumprido com o nosso dever. Diante do poeta. Diante da literatura. Diante dos editores e defronte de seus possíveis e impossíveis leitores. E embora ninguém se lembre disso--e talvez ninguém tenha nada a ver com isso-- gastamos dinheiro do nosso bolso, escrevemos dezenas de cartas (naquela época não havia e-mail), mendigamos junto à mídia, fizemos dezenas de releases e telefonemas, viajamos algumas vezes, ficamos angustiados, chateados e felizes outras tantas. Mas tudo isso valeu a pena. A causa era nobre e o poeta-- um dos melhores da nossa língua. Esperamos que com isso Jorge de Lima também possa abrir, para você, as portas da poesia que estão situadas tanto no tempo quanto na eternidade. Publicado por Rubens Jardim em 05/02/2009 às 12h32
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