Diário![]() 02/02/2009 12h30
A POESIA PRECISA E PRECIOSA DE JORGE DE LIMA
Personalidade artística complexa e diversificada, Jorge de Lima nasceu na cidade de União, Alagoas, em 23 de abril de 1893 e morreu no Rio de Janeiro,em 15 de novembro de 1953. Sua carreira de artista está marcada por uma busca incessante de meios de expressão. Foi poeta, romancista, ensaísta, pintor, escultor. E como poeta, seu princípio unificador, situou-se nas cumeeiras da literatura brasileira. Seu roteiro poético inclui transformações constantes. Fez poesia metrificada, poesia livre, livro de fotomontagem e poema em prosa. Passou pela temática folclórica, religiosa. E publicou desde os XIV Alexandrinos (1914), passando pelo antológico Essa Negra Fulô (1928), até os originalíssimos versos de Anunciação e Encontro de Mira-Celi (1950), Livro de Sonetos (1949) e Invenção de Orfeu (1952), poema épico em 10 cantos.
A um tempo regional e cósmico,clássico e modernista, profano e místico, Jorge de Lima foi, talvez, o poeta mais versátil do Brasil e suas metamorfoses chegaram até a irritar alguns críticos. Mas é necessário reconhecer: em todas as fases Jorge de Lima nunca deixou de ser poeta --e dos melhores. E o seu itinerário é coincidente com as principais etapas percorridas pela poesia brasileira no século passado. Outro aspecto curioso foi relatado por José Fernando Carneiro, médico e amigo de Jorge. Segundo Carneiro "os 77 sonetos que formam o Livro de Sonetos e mais 25 que não foram publicados, ao todo mais de 100, foram escritos em estado hipnogógico, no espaço de 10 dias apenas, levantando-se Jorge de Lima, às vezes de madrugada, e compondo de uma vez três, quatro, cinco sonetos. Limitar-me-ei a referir que foram escritos em momento de grande angústia, quando seu autor começou a sonhar acordado, e a ver, diante de si, entre outras coisas, o galo da igreja do Rosário, a draga da praia de Pajuçara bem defronte de sua casa, e a pretinha Celidônia, que morreu afogada no rio Mundaú". “Não te chamo Eva, não te dou nenhum nome de mulher nascida, nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de sibila, nem de terras, nem de astros, nem de flores. O teu nome deve estar nos lábios dos meninos que nasceram mudos, nos areais movediços e silenciosos que já foram o fundo do mar, no ar lavado que sucede às grandes borrascas, na palavra dos anacoretas que te viram sonhando e morreram quando despertaram, no traço que os raios descrevem e que ninguém jamais leu." “O rio da minha terra é o ABC da minha meninice, o meu passado correndo para o mar.” “Mundaú, rio torto, caminho de curvas por onde eu vim para a cidade onde ninguém sabe o que é caminho.” “Tu eras uma inocência silenciosa que chorava por tudo. Eu era um menino de olhos extasiados que tinham saudade mas não choravam nunca.” “A ave era antropomorfa como um anjo e solitária como qualquer poeta.” “As palavras envelheceram dentro dos homens separadas em ilhas, as palavras se mumificaram na boca dos legisladores; as palavras apodreceram na promessa dos tiranos; as palavras nada significam nos discursos dos homens públicos.” “Os grandes poemas permanecem inéditos, e as grandes palavras dormem nas línguas secas. Foram ouvidas apenas algumas lamentações.” “Todos os séculos e dentro de todos os séculos -- todos os poetas foram cristãos pela esperança que continham.” “Os grandes poemas começam com a nossa visão desdobrada. Aqui já não sofremos a contingência de escrevê-los.” “No momento mais desprendido de tua amada, sob certo signo que talvez nunca se reproduza, reconhecerás um momento de Mira-Celi, se teus gestos forem simples e naturais.” “Mira-Celi nunca se eclipsa toda, nunca está submersa, mas flutua como flutua a música ou a nuvem que paira sobre as cordilheiras.” “Nunca fui senão uma coisa híbrida: metade céu, metade terra, com a luz de Mira-Celi dentro das duas órbitas.” “Não procureis qualquer nexo naquilo que os poetas pronunciam acordados, pois eles vivem no âmbito intranquilo em que se agitam seres ignorados.” “Vereis que o poema cresce independente e tirânico, ó irmãos, banhistas, brisas.” “E esta angústia de te recompor, traço a traço, tua boca dolorosa (fonte que se exauriu), teu rosto escasso, ó musa angelical e airosa rosa!” “Há muita coisa a recalcar e esquecer: o dia em que te afogaste, sem me avisar que ias morrer, negra fugida na morte, contadeira de estórias do teu reino, anjo negro degredado para sempre, Celidônia, Celidônia!” “Aceito as grandes palavras eficazes e os caminhos que Deus pôs diante de mim. Aceito o sangue derramado se é necessário para levantar o pobre.” “Inesperadamente chega um dia de transcendentes mágicas, e há surpresas: num pedaço de tempo reencontrado, a possível menina nos fitando, nossa terra natal, seu rio torto, geografia existida, continuada,” “Escrevo para me encontrar no tempo, no quarto que entra pela treva adentro, na alga que lembra a nuvem esgarçada, nas pernas que caminham sem sinal, nas mãos em fileira longa e horizontal.” “Essa pavana é para uma defunta infanta, bem amada, ungida e santa, e que foi encerrada num profundo sepulcro recoberto pelos ramos de salgueiros.” Publicado por Rubens Jardim em 02/02/2009 às 12h30
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DARWÍCH: O POETA NACIONAL DA PALESTINA
Mahmoud Darwish (1941-2008) - Poeta palestino, testemunhou a destruição de sua aldeia, Al Birweh, durante a implantação do Estado de Israel em 1948.
Ele era assim. Essa voz poderosa chamando para a revolução. Queria ver seu povo livre, soberano, feliz. Queria de volta a sua Palestina, não como concessão de algum político bonzinho, mas porque esse é o direito do povo, usurpado em 1948 pela criação do Estado de Israel. Mahmoud Darwish, poeta, guerreiro, anjo, criança, renitente, insistente. Encantou em agosto de2008 quando seu coração, pesado de tanta dor, deixou de bater. Mas, enganam-se aqueles que pensam que Mahmoud vivia por conta de seu coração. Não. Ele vivia pelas palavras que criava, pelas construções poéticas que erguia e, estas, nunca haverão de morrer. Segundo José Saramago, prêmio Nobel, Darwish era o maior poeta vivo do mundo. Laureado com o prêmio Lenin da extinta-URSS, era cavaleiro das Artes e das Letras pela França, e recebeu em Haia o famoso prêmio Príncipe Claus pelo "conjunto de sua obra". Colocamos aqui um texto de tirar o fôlego de um judeu de 85 anos, Uri Avnery,que vale a pena ler. E dois poemas de Darwish. Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset (parlamento israelense), soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. Uma das frases mais sábias que jamais ouvi em minha vida ouvi-a de um general egípcio, poucos dias depois da visita histórica de Anuar Sadat – a visita da vitória –, a Jerusalém. Fomos os primeiros israelenses a chegar ao Cairo, e, dentre outras curiosidades, queríamos muito saber: como os egípcios haviam conseguido nos surpreender, no início da guerra de outubro de 1973? O general respondeu: “Em vez de ler relatórios dos serviços de inteligência, vocês deveriam ler nossos poetas.” Pensei nestas palavras na quarta-feira passada, no funeral de Máhmoud Darwísh. Durante a cerimônia em Ramállah, vários se referiram a ele como “o Poeta Nacional da Palestina”. Aquele morto foi muito mais do que isto. Foi a encarnação do destino dos palestinos. Seu destino pessoal coincidiu com o destino de seu povo da Palestina. Darwísh nasceu em al-Birwa, vila na estrada Acra-Safad. Há 900 anos, um viajante persa contou que visitou esta vila e ajoelhou-se nos túmulos de “Esaú e Simeão, que descansem em paz.” Em 1931, dez anos antes de Mahmoud nascer, viviam na mesma vila 996 habitantes, dos quais 92 cristãos; os demais, muçulmanos sunitas. Dia 11 de junho de 1948, a cidade foi ocupada pelo exército de Israel. Suas 224 casas foram derrubadas logo depois da guerra, exatamente como em outras 650 vilas da Palestina. Só alguns cactos e poucas ruínas ainda testemunham que aquelas vilas um dia existiram. A família Darwísh fugira pouco antes da chegada das tropas; e o pequeno Mahmoud, de sete anos, partiu com os parentes. Não se sabe como, a família conseguiu voltar – para onde então já era território israelense. Receberam documentos de "ausentados presentes [1]" – espantosíssima invenção israelense. Significava que eles seriam residentes legais em Israel, mas que suas terras lhes haviam sido roubadas, nos termos de uma lei que dizia que qualquer árabe perderia a propriedade de suas terras se não estivesse fisicamente presente na vila quando fosse ocupada. Nas terras da família Darwísh foi construído o kibbutz Yasur (do movimento de esquerda israelense) e implantou-se a vila-cooperativa Ahihud. O pai de Mahmoud instalou-se na vila árabe mais próxima, Jadeidi, de onde podia ver de longe as suas terras. Aí Mahmoud cresceu e sua família ainda vive, até hoje. Durante os 15 primeiros anos do Estado de Israel, os cidadãos árabes viveram sob um “regime militar” – sistema de repressão severa que controlava todos os aspectos da vida, inclusive todos os movimentos. Nenhum árabe podia viajar para fora de sua vila sem permissão especial. O jovem Mahmoud várias vezes violou esta proibição; e sempre que foi apanhado foi encarcerado. Quando começou a escrever poesia, foi acusado de incitar a sublevação e posto sob “detenção administrativa”, sem julgamento. Na prisão, então, escreveu um de seus poemas mais conhecidos, “Carteira de Identidade”, poema em que se manifesta a ira de um jovem que cresceu em condições de humilhação. O primeiro verso troveja para o mundo: “Lembrem: sou árabe!” Neste período encontrei Darwísh pela primeira vez. Procurou-me e trouxe outro jovem árabe, nascido em outra vila árabe, e com forte compromisso político nacional, o poeta Rachid Hussein. Lembro do que Hussein disse-me, naquele dia: “Os alemães mataram seis milhões de judeus, e apenas seis anos depois os judeus fizeram a paz com a Alemanha. Conosco, os judeus não querem a paz.” Darwísh alistou-se no Partido Comunista, o único partido, político, então, em que um nacionalista árabe poderia atuar politicamente. Editou jornais. O partido mandou-o estudar em Moscou, mas o expulsou quando ele decidiu não voltar a Israel. Em vez de voltar, alistou-se na OLP e foi para os quartéis de Yásser Arafat em Beirute. Lá o reencontrei outra vez, num dos eventos mais emocionantes de minha vida, quando cruzei a fronteira em julho de 1982, no auge do sítio de Beirute, e tive uma reunião com Árafat. O líder palestino insistiu em que Máhmud Darwísh assistisse àquele encontro simbólico: era a primeira vez que Árafat encontrava-se com um israelense. Mandou chamar Darwish. A descrição do sítio de Beirute é um dos trabalhos mais impressionantes de Darwísh. Naqueles dias, converteu-se em poeta nacional da Palestina. Acompanhou a luta dos palestinos; nas sessões do Conselho Nacional Palestino – instituição que uniu todo o povo da Palestina, eletrizava multidões com seus versos, que ele mesmo declamava. Naqueles anos, Darwísh viveu muito próximo de Arafat. Arafat foi o líder político do movimento nacional na Palestina; Darwích foi seu líder espiritual. Darwísh escreveu a Declaração de Independência da Palestina, adotada na sessão de 1988 do Conselho Nacional por iniciativa de Arafat. É muito semelhante à Declaração de Independência de Israel, que Darwísh aprendera na escola primária. Ele claramente entendeu a significação de seu discurso: ao adotar este documento, o parlamento palestino no exílio aceitava, na prática, a idéia de estabelecer-se um Estado palestino lado a lado com o Estado israelense, apenas numa parte da Palestina, como Arafat propusera. A aliança entre os dois rompeu-se quando foram assinados os acordos de Oslo. Para Árafat, tratava-se de “o melhor acordo possível, na pior situação possível”. Darwísh entendeu que Arafat concedera demais. O coração nacional impôs-se à mentalidade nacional. (Este debate histórico ainda não está concluído hoje, embora os dois já estejam mortos.) Desde aquela época, Darwích viveu em Paris, Aman e Ramállah – o palestino errante, que substituiu o judeu errante. Nunca quis ser o poeta nacional. Não queria fazer poesia política; queria ser lírico, poeta do amor. Mas para qualquer lado para o qual se virasse, o longo braço do destino dos palestinos o alcançava e o arrastava de volta. Não tenho capacidade para avaliar seus poemas ou a grandeza artística de Darwích. Reconhecidos especialistas em língua árabe ainda discutem furiosamente entre eles o significado de seus versos, nuances, camadas, imagens e metáforas. Foi mestre em árabe clássico, e também vivia à vontade entre poetas ocidentais e israelenses. Para muitos, Darwích foi o maior poeta da língua árabe e dos maiores de nosso tempo. Pela poesia, conseguiu o que não conseguira fazer por outros meios: unificar todas as fraturas e fragmentos que dividem ainda o povo palestino – na Cisjordânia, na Faixa de Gaza, em Israel, nos campos de refugiados e em toda a Diáspora. Pertenceu a todos os palestinos. Os refugiados identificavam-se com Daruích porque era um deles; os cidadãos palestinos-israelenses também, porque também era um deles; e os que vivem nos territórios palestinos ocupados, porque foi um guerreiro incansável contra a ocupação. Esta semana, alguns cabeças da Autoridade Palestina tentaram explorá-lo, na luta contra o Hamas. Duvido muito que Darwích concordasse com isto. Embora fosse palestino absolutamente secular e muito distante do mundo religioso do Hamás, ele manifestava os sentimentos de todos os palestinos. Também falava à alma dos membros do Hamás em Gaza. Darwích foi o poeta da ira, da saudade, da esperança e da paz. Estas foram as cordas de seu violino. Ira, pela injustiça cometida contra o povo palestino e contra cada filho da Palestina, individualmente. Saudade, do “café de minha mãe”, das oliveiras de sua aldeia, da terra dos antepassados. Esperança de que a guerra chegue ao fim. Apoio à paz entre israelenses e palestinos, baseada em justiça e respeito mútuo. No documentário da francesa-israelense Simone Bitton, Darwísh apontou o burrico como símbolo do povo palestino; o burrico é inteligente, paciente e sempre encontra meios para sobreviver. Entendia a natureza do conflito mais claramente que a maioria dos israelenses e dos palestinos. Dizia que aquele conflito era “uma luta entre duas memórias”. A memória histórica da Palestina colide contra a memória histórica dos judeus. Só haverá paz quando um lado entender a memória do outro lado – seus mitos, suas saudades secretas, as esperanças, os medos. Este o significado do que disse o general egípcio: a poesia manifesta os sentimentos mais profundos dos povos. E só onde se compreendam estes sentimentos pode haver verdadeira paz. A paz costurada pelos políticos não vale grande coisa, se não houver alguma paz entre os poetas e a emoção dos muitos que a poesia manifesta. Por isto Oslo foi um fracasso. Por isto também o “acordo de prateleira” que está sendo negociado será também completamente inútil: nada tem a ver com as emoções e os sentimentos de palestinos e israelenses, os povos. Há oito anos, o então ministro da Educação de Israel, Yossi Sarid tentou incluir dois poemas de Darwích no currículo das escolas em Israel. Houve escândalo, e o primeiro-ministro, Ehud Barak, decidiu que “o público israelense não está preparado para isto”. É o mesmo que Barak ter decidido que o público israelense não está preparado para a paz. Talvez ainda seja verdade. A verdadeira paz entre dois povos, paz entre as crianças que nasceram na semana corrente, no dia do funeral de Darwích, em Telaviv e em Ramállah, só será viável quando os alunos árabes puderem ler os versos imortais de Chaim Nachman Bialik “O vale da morte”, sobre o pogrom de Kishinev, e quando os alunos israelenses puderem ler os versos de Darwích sobre a Naqba [a Catástrofe]. E, sim, também os poemas da ira, inclusive o verso “Vão! E levem daqui a morte de vocês!" Sem entender e encarar com coragem a ira flamejante contra a Catástrofe e suas conseqüências, jamais entenderemos as raízes da guerra e não saberemos construir a paz. Como escreveu outro grande intelectual da Palestina, Edward Said: sem entender o impacto do Holocausto na alma dos judeus, os palestinos nunca entenderão os israelenses. Poetas são os generais na luta entre duas memórias, entre os mitos, entre os traumas. Precisamos muito de poetas na estrada que levará à paz entre israelenses e palestinos, entre dois Estados, para construirmos um futuro comum. Não estive presente às cerimônias funerais organizadas pela Autoridade Palestina na Mukata, tão organizadas, tão encenadas. Cheguei duas horas depois, quando o corpo de Darwích foi enterrado numa bela colina, pairando sobre o cenário. Impressionou-me o povo, reunido sob sol escaldante à volta do túmulo, ouvindo uma gravação da voz de Darwích declamando seus versos. Gente simples, gente menos simples, unidos com o homem morto, numa comunhão privada. Apesar de serem milhares, abriram alas para nos deixar passar; nós, israelenses, que ali estávamos para reverenciar Máhmoud Daruísh. Nos despedimos silenciosamente de um grande filho da Palestina, um grande poeta, um grande ser humano. Confissão de um terrorista! Mahmoud Darwich Ocuparam minha pátria Expulsaram meu povo Anularam minha identidade E me chamaram de terrorista Confiscaram minha propriedade Arrancaram meu pomar Demoliram minha casa E me chamaram de terrorista Legislaram leis fascistas Praticaram odiada apartheid Destruíram, dividiram, humilharam E me chamaram de terrorista Assassinaram minhas alegrias, Seqüestraram minhas esperanças, Algemaram meus sonhos, Quando recusei todas as barbáries Eles... mataram um terrorista! Carteira de identidade Mahmoud Darwich Registra-me! sou árabe número de minha identidade é cinqüenta mil tenho oito filhos e o nono... virá logo depois do verão! vais te irritar por acaso? Registra-me! sou árabe trabalho com meus companheiros de luta em uma pedreira tenho oito filhos arranco pedras o pão, as roupas, os cadernos e não venho mendigar em tua porta e não me dobro diante das lajes de teu umbral vais te irritar por acaso? Registra-me! sou árabe meu nome é muito comum e sou paciente em um país que ferve de cólera minhas raízes... fixadas antes do nascimento dos tempos antes da eclosão dos séculos antes dos ciprestes e oliveiras antes do crescimento vegetal meu pai... da família do arado e não dos senhores do Nujub¹ e meu avô era camponês sem árvore genealógica minha casa uma cabana de guarda de canas e ramagens satisfeito com minha condição meu nome é muito comum Registra-me sou árabe sou árabe cabelos... negros olhos... castanhos sinais particulares um kuffiah² as palmas ásperas como rochas arranharam as mãos que estreitam e amo acima de tudo o azeite de oliva e o tomilho meu endereço sou de um povoado perdido... esquecido de ruas sem nome e todos os seus homens... no campo e na pedreira amam o comunismo vais te irritar por acaso? Registra-me sou árabe tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados e da terra que cultivava com meus filhos e não os deixastes nem a nossos descendentes mais que estes seixos que nosso governo tomará também como se diz vamos! escreve bem no alto da primeira página que não odeio os homens que eu não agrido ninguém mas... se me esfomeiam como a carne de quem me despoja e cuidado... cuida-te de minha fome e minha cólera. Para quem quiser v er e ouvir o poeta Darwích fazendo leitura de poemas aí vai o link. http://br.youtube.com/watch?v=q3XzZ-s4cjc E para quem tiver interesse em assistir o seu funeral, o link é este: http://br.youtube.com/watch?v=y6Yd5qBR_8Y Publicado por Rubens Jardim em 13/01/2009 às 13h49
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GOVERNO TURCO "DEVOLVE" NACIONALIDADE AO POETA NAZIM HIKMET
O governo turco aboliu nesta segunda-feira, dia 5 de janeiro, por decreto a decisão que, em 1951, retirou a nacionalidade turca ao poeta Nazim Hikmet, falecido em Moscou em 1963. A iniciativa equivale na prática a "devolver" a nacionalidade ao poeta depois de morto. NOSTALGIA Faz 100 anos que em uma cidade Estávamos na mesma rama, na mesma rama. Faz cem anos que na penumbra Publicado por Rubens Jardim em 08/01/2009 às 22h01
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HOMENAGEM AOS 50 ANOS DA REVOLUÇÃO CUBANA
Coloco hoje aqui, matéria que a minha amiga Angélica Torres, poeta e jornalista, publicou em 1999, logo após sua visita a Cuba. O texto é muito expressivo e revelador, pois consegue romper com a visão estereotipada da mídia em geral. Além disso, oferece-nos significativas informações sobre a revolução --sem deixar de lado revelações importantes sobre a literatura cubana. Com vocês a bela reportagem da Angélica.
Cuba Vive! Sob o esfacelamento do apoio econômico dado pela Rússia e a aparente decadência de um dos conjuntos arquitetônicos mais belos do mundo, a vida em Havana palpita ao som da salsa, do bolero e do tango; dos movimentos literários, debates e críticas; dos festivais de teatro, cinema e dança, demonstrando o vigor intelectual de um povo que, mesmo ilhado, humilhado perante o mundo, não se dá por vencido e continua a lutar pela sua soberania cultural ANGÉLICA TORRES O papa e sua comitiva, que se despedem hoje de Cuba, têm know how de sobra e podem não ter se sentido como o brasileiro e o visitante em geral que têm chegado à Ilha pelo vão da abertura do regime, com o coração aos sobressaltos, a preparação da ida pontuada por uma ansiedade mais esquisita do que os de outras viagens ao desconhecido. Já no avião da Cubana de Aviación, no entanto, ocorre a primeira, e necessária, sintonia: singeleza, despojamento, artesania nas instalações, nas refeições, no atendimento de bordo, sintetizam a medida e o padrão que esperam pelo visitante em terra firme. À chegada no Aeroporto José Martí, o recado estampado no alto do prédio reafirma e justifica o estado sui generis em que se encontra o país: Créemos en la Revolución. É, na verdade, a primeira das muitas frases e palavras de ordem que se vai ler nos muros, monumentos e outdoors espalhados por toda a Ilha. A impressão é a de estar pisando em terreno universitário, rebelde, destemido, entre cenários e histórias de sonhos e revoltas e, sobretudo, de resistência. Um mundo muito novo aos olhos do forasteiro e já muito velho (foi a segunda terra avistada por Colombo) sai detrás de uma cortina, no máximo, de fumaça, e não de ferro – a não ser pelos antigos cadilacs ainda inteiros e pelos nervos do cubano – e se mostra muito próximo do brasileiro. Há quem diga que “o cubano é o baiano que deu certo”: um misto de exotismo e calor humano, serenidade e hospitalidade, gosto pela vida, tenacidade, latinidade e, principalmente, bom nível de educação e dignidade pairam no ar daquela ilha do Caribe. É o resultado do socialismo caliente do comandante Fidel Castro, sobrevivendo a duras penas de suas paixões e conquistas, equívocos e descaminhos, fazendo de Cuba um gueto mas, ao mesmo tempo, um país que insiste em se construir sem a exploração imperialista desde o final do século passado – quando ainda era uma colônia espanhola –, a partir da revolta que teve como slogan o famoso Cuba Libre e, entre seus líderes, o poeta e herói José Julian Martí, morto cedo na batalha. (Leia matéria na pág. ao lado). El Período Especial Hoje, Cuba Vive! é o slogan que melhor traduz el período especial, expressão com que os cubanos apelidaram a fase de resistência pós queda do muro. Está estampado num outdoor à saída do Aeroporto de La Habana, originado da manifestação de apoio maciço dos habaneros ao governo de Fidel, realizada em julho passado no Malecón, a longa avenida à beira-mar. Há poucos metros dali, três anos antes, quando os balseros povoavam as manchetes dos jornais, um grupo de contra-revolucionários atirava pedras nos fidelistas, atiçando o povo a se colocar contra a situação de penúria do país. Ao saber da baderna, Fidel foi ao Centro de Habana Vieja dizendo que queria receber a sua cota de pedradas, pois se Cuba estava naquele estado o primeiro responsável era ele. Com ajuda dos trabalhadores e do povo, sem usar de força, ele conseguiu controlar a situação. “Não considero Fidel um ditador e sim um governante que consegue o que quer com seu poder de persuasão, seu carisma e sua inteligência”, diz o cubano Pablo José Sainz, 33 anos, doutorando da Universidade de Brasília, ao relembrar o fato também registrado numa das Salas del Período Especial, no Museu da Revolução. Reconhecido como um dos homens mais importantes da História mundial, Fidel Alejandro Castro Ruz, 72 anos – filho de um latifundiário espanhol com a empregada da família – sustenta há 39 anos o título de herói revolucionário e líder máximo da maior ilha caribenha, um território pouco maior do que Pernambuco, com 11 milhões de habitantes – 66% brancos, 12% negros e 22% mestiços –, distante a 190 km de Miami. Sua economia, limitada à indústria açucareira, tabaco e rum, a partir de 1993 encontrou no turismo a tábua de salvação para enfrentar o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos desde 1962 e agravado pela lei Helms-Burton, de 1996, e impedir o colapso da Revolução com o fim do apoio soviético em 1989. Entre o dólar e o peso cubano Hoje, Cuba mantém convênios de colaboração com mais de 114 países do mundo. A competente rede espanhola de hotéis Meliá, instalada na praias de Varadero, Havana e outras localidades, atrai divisas de turistas italianos, canadenses, espanhóis, alemães, franceses, mexicanos, argentinos, ingleses, nesta ordem de freqüência. O período especial levou o estado cubano a adotar cerca de 15 reformas econômicas entre 1993 e 96, entre elas o decreto-lei (de 93) que fixou as regras para o exercício do emprego por conta própria e o número de atividades que podem ser efetuadas nessa modalidade. Por essa via surgiram os paladares, restaurantes em casas de família, que podem atender no máximo 12 clientes. O nome foi tirado da novela brasileira em que a personagem de Regina Duarte tinha uma pensão chamada Paladar. Os supermercados também já são realidade cubana. Ali são vendidos os produtos extra-libreta, que é a lista das produtos da cesta básica distribuídos à população a preços desprezíveis. No Cubalse, próximo à embaixada da Rússia e tido por eles como o melhor, as mercadorias são vendidas em dólar (“divisa” para o cubano), a preços que competem com os de Brasília (azeite Carbonell 500mg. a US$ 6,10; whisky Grant’s 1 litro a US$ 10,80; miojo Maggi a US$ 0,80; biscoitos Triunfo água e sal a US$ 1,40, por exemplo). A entrada sorrateira das manhas capitalistas no único reduto socialista do Ocidente cria disparates surpreendentes para o cidadão que se vê entre as duas moedas correntes, o dólar e o peso cubano. Ainda assim, não tem sentido dizer que o salário médio do cubano é de US$ 15,00 (considerando o valor do dólar no câmbio negro), já que não dá para representar em dólares o custo de vida da população. Alimentos básicos, produtos de higiene, gastos com transporte e consumo de cultura, por exemplo, custariam milésimos de dólares. A casa própria, nessa perspectiva, sairia a US$ 1,5 por mês, porque segundo norma do governo, o máximo a ser pago pela família é 10% do valor do salário ao longo de 30 anos. Educação – obrigatória até a conclusão do segundo grau – e saúde médica e odontológica custam zero dólares para todos, sem exceção. David contra Golias O que o papa viu na Ilha, entretanto, não foi apenas a abertura econômica permitida pelo comandante e alardeada com euforia e ironia pela imprensa capitalista. João Paulo II pôde ver de perto as conquistas sociais obtidas por um governo que, mesmo em luta titânica contra o poderio absoluto do vizinho adversário, apresenta estatísticas de Primeiro Mundo (veja quadro). Relatório final de 1997 (Unicef) Adultos alfabetizados (%) Cuba: 96 EUA: 99 Brasil: 83 Mortalidade infantil (por 10 mil) Cuba: 10 EUA: 08 Brasil: 44 Expectativa de vida (idade) Cuba: 76 EUA: 76 Brasil: 67 Imunização vacina Tríplice (%) Cuba: 100 EUA: 94 Brasil: 75 A educação é um dos maiores patrimônios do Estado – sem contar com os avanços da medicina, outra fonte de divisas, reconhecida internacionalmente. Toda atenção e o melhor esforço são dirigidos à criança. Há um professor para cada 13,6 alunos; 280 professores ambulantes para atender domiciliarmente 500 crianças com problemas físicos-motores. São 11.115 universitários e 560 mil graduados universitários. Há 9.048 técnicos; 30.585 trabalhadores em unidades de Ciência e Tecnologia; 14.908 mulheres em pesquisa científica. No período crítico, entre 1991 e 96, foram concluídos nove centros de pesquisa, entre eles o de Plantas Produtoras de Vacinas, o de Imunologia Molecular e o de Ressonância Magnética Molecular. João Paulo II também pôde constatar que o criticado comunismo de Fidel Castro não corresponde ao que ele conhecia do praticado no Leste europeu. Segundo a pesquisadora política do Ministério das Relações Exteriores em Havana, Patrizia Herrera, 51anos, que estudou por cinco anos em Moscou, “não temos nada a ver com os russos. Eles se rivalizam desde entre dois colegas de faculdade até as mais altas instâncias políticas. Aqui, podemos não ser do partido mas apoiamos as medidas do governo. Somos um povo solidário, que reconhece os benefícios do socialismo e que não quer perdê-los”. Nas urnas - As eleições nacionais, realizadas há duas semanas, comprovam o que a pesquisadora diz. Lá, onde o voto não é obrigatório, 98, 35% dos eleitores legitimaram o governo revolucionário do comandante. Votos nulos, em branco e ausentes representaram apenas 6,56% - para gana da comunidade cubana de Miami e, com certeza, perplexidade da Casa Branca. Assim, mostrando como se dá a volta por cima, essa semana a Ilha cedeu lugar a um missionário cristão em seus pedestais reservados a revolucionários ateus. Lá, conta-se a piada que, há alguns anos, os cubanos assistiram assustados uma procissão de fiéis levando no andor a Virgem da Caridade do Cobre, padroeira do país. Desacostumados com essas coisas, um cutucou o outro e perguntou apontando para a santa: “Quem é aquela companheira?”! O fato é que a visita do papa, mal ou bem, deu chance também ao mundo de poder ver mais da realidade do país e da obstinação assombrosa do líder Fidel Castro. Seu povo, por natureza, alegre, festeiro, sentimental, namorador, hospitaleiro, de nobreza guajira (caipira, campesina), luta para poder viver em paz – e a seu modo. Pois, que o Santo Papa e os santos guerreiros Che Guevara, protetor da América Latina, e José Martí, digam: ”Assim seja”. Poesia e rebeldia no prato do dia cubano A força de uma poética revolucionária centenária vincou a alma do povo cubano e inspirou a revolução comandada por Fidel Castro e seus seguidores. A poesia do líder José Martí ainda hoje é fonte de citação viva em livros de literatura e escolares, em museus, muros, monumentos. Seus escritos rebeldes podem ser encontrados nas feiras das praças à venda por US$ 8, em média (para o forasteiro). Seu retrato é visto em vários lugares. Está na galeria de célebres da Bodeguita Del Médio – o restaurante em Havana Velha onde Ernest Hemingway bebia seu mojito favorito – , mas também no cenário do filme Morango e Chocolate, sucesso do cineasta Tomáz Gutiérrez Alea. Martí permanece “em cartaz” como um pop star cubano, como el Che, rimando poesia com rebeldia, lado a lado com poetas do início do século, como Nicolás Guillén (1902-1989) e Dulce María Loynaz (1902-1997), e os cultuados das gerações da revolução fidelista, como César López Reina María Rodriguez. Dulce María Loynaz, recém-falecida aos 95 anos de idade, está entre os mais respeitados escritores da Ilha. Deixou uma obra de voz personalíssima na literatura cubana. Transitou com maestria pelo ensaio, romance e jornalismo, além da poesia. “Yo quería tus ojos claros para prenderlos en mi pelo negro con un alfiler de oro” / “Eu queria teus olhos claros para prendê-los em meus cabelos negros com um alfinete de ouro” (de Finas Redes). Seu estilo sóbrio, seu impecável manejo do idioma rendeu-lhe o Prêmio Cervantes, em 1992. César López, além de crítico literário e um dos estudiosos da obra de Loynaz, é contista e poeta várias vezes premiado. “El ser que mutilasteis, asasinos, era en resumen todo el possible!” / “O ser que mutilastes, assassinos, era, em resumo, todo o possível!” (de Consideraciones, Algunas Elegías). Formado na Espanha, serviu como diplomata na Inglaterra até a dissolução da União Sovética. “Voltei, então, para Havana, porque este é o meu país e entendo que é aqui que tenho que viver”, diz, com simplicidade, de sua solidariedade e seu patriotismo. Reina María Rodríguez, como César López, coleciona vários prêmios literários – Julián del Casal, Prêmio de la Crítica e da UNEAC (leia matéria) –, destacando-se pela estranha beleza de seu universo poético entre a nova geração de poetas cubanos. “Hay ruido e minha oreja es un girasol recién cortado” / “Há ruído, e minha orelha é um girassol recém-cortado” (de Para un Cordero Blanco, prêmio Casa de las Américas, 1984). No último dia 15, Reina Maria, 45 anos, foi novamente premiada com o Casa de las Américas pelo livro La Foto del Invernadero. Em tempo: a poesia musicada da Ilha também tem raça. Silvio Rodriguez, tido como o melhor poeta da música cubana e Pablo Milanês, o amigo e parceiro de Chico Buarque, admirado entre o público brasileiro (Yolanda; Canción por la Unidad Latinoamericana), são referências de alta qualidade, onde a Revolução também encontra eco. Os dois compositores e intérpretes são os fundadores, em essencial, do grande movimento chamado Nueva Trova, originado da Trueva Tradicional que é de suma importância para a cultura cubana. União dos artistas Herdeiro da verve revolucionária de Martí, Nicolás Guillén é das vozes mais fortes do modernismo de língua espanhola e foi trincheira constante da Revolução, desde a vitória do exército rebelde de Fidel Castro, em 1959. “Un caballo de fuego sostiene tu escultura guerrillera entre el viento y las nubes de la Sierra”, escreveu em Che Comandante (veja boxe). Além dos 14 livros publicados, o poeta que nos anos 30 alçou o discriminado, humilhado negro cubano, à condição de protagonista, usando a sua própria ritmia, legou uma trincheira especial para o artista cubano ao fundar, em 1961, e presidir até 1981, a União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac), como conseqüência do I Congresso de Artistas da Revolução. Hoje, a Uneac, continua sendo um dos focos de resistência da produção cultural da Ilha, com atuação heróica, admirável, incansável mesmo no mais crítico período da Revolução: o fim da década de 80 e os primeiros anos 90. Se o cubano passou a pão e água – quando tinha pão, naquela fase –, a Uneac, instituição autônoma, amargou dieta não menos dura mas sobreviveu aochamado período especial “com entusiasmo”, afirma seu presidente – o compositor, musicólogo e flautista José Loyola Fernández, 56 anos, autor do livro En ritmo de Bolero. “De 1991 a 93 não publicávamos nada, só folders com três ou quatro poemas, porque não havia papel”, conta Francisco Sacha, 47 anos, presidente da União dos Escritores. “Mas, se não podíamos publicar livros”, continua Sacha, “fazíamos leituras, encontros, para as pessoas se conhecerem, trocarem suas produções. Não podíamos gravar discos, mas fazíamos concertos, shows, eventos. Fazíamos arte comunitária: se a comunidade não podia ir ao teatro, o teatro ia ao povo, ia ao campo”, enumera o escritor, que virá ao Brasil em março para lançar o livro de contos A Ilha Contada, pela Editora Página Viva, em São Paulo. Produções - Com a recuperação gradual da economia cubana, a Uneac voltou a documentar as produções e a dar prêmios para músicos e escritores (em oito gêneros literários). Os livros e as revistas (de música, Música Cubana, e literárias, Gaceta de Cuba e Unión) são editados com singeleza gráfica em papel de embrulhar pão, agora em tiragens de mil exemplares. Nos áureos anos 70 e 80, imprimiam 25 mil exemplares, tanto prosa quanto verso, “e esgotava sempre”, afirma Sacha, “porque o cubano é ávido por leitura”. Festivais de bolero, música contemporânea e cinema-rádio-TV, e colóquios internacionais, como os dois de novembro último, sobre poesia latino-americana e sobre a obra dos Beatles, são outras frentes de ação da Uneac. “Temos relações próximas com Paul McCartney e com George Martin, que sempre nos dizem que virão à Ilha; mas ainda não vieram”, revela o eterno beatlemaníaco Francisco Sacha, depois de cantarolar um trecho de Good Day Sunshine. Instalada num sobrado do lindo bairro de Vedado, com área externa ampla o suficente para, sob árvores, promover seus inúmeros eventos, como as Noites de Bolero aos sábados, a União dos Escritores e Artistas de Cuba, que é apenas uma das organizações culturais da Ilha, tem também o papel de mitigar os problemas pessoais de seus membros, acrescenta o crítico de artes plásticas, Roger Avila, 38 anos, que tem, com a poetisa Reina María Rodriguez, uma filha de oito anos chamada Elis, em homenagem à nossa Elis Regina. A palavra negra A comunidade afro-cubana tem um legítimo representante de sua voz: o poeta Eloy Machado, ou El Ambia no dialeto Efik. Operário de construção, El Ambia escrevia seus versos em pedaços de papel que, por meio do comandante Efigenio Amejeiras, companheiro de guerrilha de Fidel, foram parar nas mãos de Nicolás Guillén. “Onde trabalha esse homem?”, quis saber o poeta e então presidente da União dos Artistas (Uneac). “Esse homem de idade indefinida, andar ligeiro e vestimenta peculiar, ‘a Thiago de Mello’, mora em sua poesia. Seus textos são viagens de volta às origens. Transpiram rumba e tambor ‘para que a raiz não morra”, define o jornalista cubano Sahily Tabares. Nos anos 80, os seus poemas foram publicados pela Uneac. “Desde então, essa é minha casa”, conta El Ambia, que atualmente comanda um espaço reservado às artes afro-cubanas na programação de eventos da Uneac. No seu programa Peña del Ambia ele apresenta grupos e artistas de variadas tendências, dialetos e seitas religiosas africanas que, como no Brasil, convivem com o sincretismo (santeria) e, em menor escala, com o cristianismo que o papa foi abençoar. O culto Abakná e o dialeto Efik dão base poética à sua busca de identidade: “Tenho pouco estudo, mas uma longa trajetória. Passei muita fome nos tempos de (Fulgêncio) Batista, quando dormia com minha mãe pelas ruas, fugindo da polícia, para não irmos parar na Puríssima, lugar para onde eles levavam os indigentes”. Seu poema Soy Todo, em que diz “sou o poeta da rumba”, foi musicado em versão clássica pelo atual presidente da Uneac, José Loyola Fernández. Gravado por Los Van Van, uma das bandas mais populares do país, a canção atravessou a perigosa fronteira e virou hit entre a comunidade negra de Nova York. Outro poema seu está no CD Tu Querida Presencia, intitulado Maferefún Che, gravado por vários músicos e poetas cubanos em homenagem a Guevara, às vésperas do enterro, em outubro, de seus restos mortais em Santa Clara. Amigo de Pablo Milanês e da bailarina Alícia Alonso, El Ambia se orgulha, também, em falar de sua amizade com Glauber Rocha, ao tempo em que o cineasta brasileiro foi a Havana para montar Deus e o Diabo na Terra do Sol. Che Comandante Poema de Nicolas Guillén
Não porque tenhas caído tua luz é menos alta. Um cavalo de fogo sustenta tua escultura guerrilheira entre o vento e as nuvens da Sierra. Não porque calado és silêncio. E não porque te queimem, porque te ocultem sob a terra, porque te escondam em cemitérios, bosques, páramos, vão impedir que te encontremos, Che Comandante, amigo. Com seus dentes de júbilo a América do Norte ri. Mas logo revolve-se em seu leito de dólares. Coagula-se o riso em máscara, e teu grande corpo de metal sobe, se dissemina pelas guerrilhas como abelhas, e teu ancho nome ferido por soldados ilumina a noite americana como uma estrela súbita, caída em meio a uma orgia. Tu o sabias, Guevara, mas não o disseste por modéstia, por não falar de ti mesmo, Che Comandante, amigo. Estás em toda parte. No índio feito de sonho e cobre. No negro revolto em espumosa multidão, no ser petroleiro e salitroso, no terrível desamparo da banana, e na grande pampa dos couros, e no açúcar e no sal e nos cafezais, tu, móvel estátua de teu sangue como te derrubaram, vivo, como não te queriam, Che Comandante, amigo. Cuba te sabe de memória. Rosto de barbas que clareiam. Marfim e azeitona em pele de santo jovem. Firme a voz que ordena sem mandar, que manda companheira, ordena amiga, terna e dura de chefe camarada. Vemos-te cada dia ministro, cada dia soldado, cada dia gente franca e difícil cada dia. E puro como um menino ou como um homem puro, Che Comandante, amigo. Passas em teu desbotado, roto, esburacado traje de batalha. O da selva, como antes foi o da Sierra. Desnudo, o poderoso peito de fusil e palavra, de ardente vendaval e lenta rosa. Não há descanso. Saúde, Guevara!, ou melhor, daqui de nossa longínqua América, espera-nos. Partiremos contigo. Queremos morrer para viver como tu morreste, para viver como tu vives, Che Comandante, amigo. (Tradução: Angélica Torres e Glória Cardell) Clicando neste link http://www.youtube.com/watch?v=ArwR6Sok71Y você poderá ouvir a voz do poeta Nicolas Guillen dizendo o poema acima, enquanto as imagens mostram o traslado dos restos de Che. http://www.youtube.com/watch?v=po09lcDxXIA clicando neste link você poderá ouvir Hasta Siempre Comandante na interpretação do Buena Vista Social Cluib. Publicado por Rubens Jardim em 05/01/2009 às 01h23
![]() 01/01/2009 20h44
CAPITALISMO=CAPETALISMO
Qualquer texto seria redundante. Mas o programa me obriga a escrever algo. Pois bem: está escrito. Publicado por Rubens Jardim em 01/01/2009 às 20h44
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