Diário![]() 28/04/2010 11h34
O CAPITALISMO É A SEPULTURA DA HUMANIDADE!
A FAMÍLIA IDEAL É HOJE COMPOSTA DE UM SOLITÁRIO, UM ANIMAL DE ESTIMAÇÃO E UM COMPUTADOR PLUGADO NA INTERNET !
Sou bastante cético em relação ao chamado progresso. Podem me chamar de saudosista, retrógado –e até mesmo jurássico. Mas não consigo abrir mão da minha experiência de vivente. Por isso, como simples testemunha dessas últimas décadas, acho que nós caminhamos indeclinavelmente ladeira abaixo. Tenho pena das gerações que nos sucederam e estão aí, enfrentando dificuldades inimagináveis para quem nasceu logo após o fim de guerra. Claro que existiram avanços em quase todos os setores do conhecimento, com destaque maior para a ciência e a tecnologia. Na medicina, por exemplo, fazem-se próteses e retiram-se cataratas num piscar de olhos. O e-mail simplificou e acelerou a remessa e o recebimento de mensagens. A meteorologia consegue prever com exatidão algumas alterações climáticas. O celular nos coloca em sintonia com o mundo. Os jornais alteraram suas feições e tornaram-se coloridos. O feminismo “libertou” a mulher dos afazeres domésticos. Os idosos conquistaram alguns direitos e até uma nomeclatura esdrúxula: (melhoridade). O sexo não é mais tabu e as relações amorosas parecem ser mais livres. As vacinas nos protegem contra uma porção de doenças. Conquistamos maior longevidade. No entanto, a vida –a nossa vida única, pessoal e intransferível-- tornou-se mais despovoada de marcas significativas. E tenho opinião muito clara a respeito dessas questões. Acho que o desenvolvimento do capitalismo é que nos jogou nesse presente perpétuo, vazio e cheio de exigências ,respostas rápidas e estímulos contínuos. Vejamos, por exemplo, as circunstâncias históricas que cercaram minha infância e adolescência. Papai era jornalista e funcionário público-- e mamãe nunca trabalhou fora. Meu tio Nicanor era professor e sua mulher nunca trabalhou fora. Mas as duas famílias viviam bem. Assim como outras tantas –de tios e primos muito próximos. Tínhamos boas escolas –públicas ou privadas—e tínhamos acesso a elas. Minha irmã e minha prima estudaram tanto no Sacre-Couer du Marie como em escola pública. Eu estudei no grupo escolar, e depois no Externato Meira, colégio frequentado pela elite da época. Todos os anos saíamos de férias –em julho – e em janeiro e fevereiro. E hoje, quem pode fazer isso? Homem trabalha, mulher trabalha, filho trabalha e são raras as férias familiares. Mais ainda: tínhamos uma convivência muito intensa entre a família nuclear e a grande família. Convivíamos com tios e tias, avós e primos e primas. Tudo isso também acabou. Como acabaram as visitas inesperadas, essas surpresas tão comuns exercitadas naquele tempo. E não estou falando do pós-guerra. Refiro-me aos estertores dos anos 50 e ao célebre decênio seguinte: os anos 60. Pois bem: como a televisão ainda estava pouco desenvolvida e não ocupava o centro de atenção das pessoas, as visitas tinham outra conotação. Elas possibilitavam trocas de informações, conversas mais pessoais e um certo enriquecimento afetivo e humano. Jamais as pessoas eram pautadas pela TV ou pela mídia impressa. As novelas – que até podem ter seu mérito—e os programas de baixaria e violência sequer existiam. Ou, se existiam, não ocupavam o imaginário e nem eram assuntos a ocupar a mente das pessoas. Outra questão importante: ninguém estava preocupado em manter o emprego. Essa inquietação não ocupava a vida de ninguém. Quer dizer: ninguém se sentia pressionado ou ameaçado. E não era mesmo preciso matar um leão por dia. Mais ainda: ao deixar o local de trabalho ninguém era importunado pelo chefe ou pelo patrão. Eu mesmo comecei a trabalhar com 19 anos, isto é, em 1965, e só passei a ser perturbado após o aparecimento do celular. A partir daí estamos, todos, sempre plugados e acessíveis. Enfim, vulneráveis e ligados. Não conseguimos mais desligar --nem o celular, nem a consciência. E carregamos isso em todas as nossas relações –até mesmo as amorosas e as sexuais. Aliás,a solidão, especialmente a sexual, está deixando de ser um problema, conforme excelente artigo da minha amiga Silvia Mendonça. Ao contrário, está sendo valorizada. Segundo a Silvia, pesquisa feita nos Estados Unidos mostra que a família ideal é hoje composta de um solitário, um animal de estimação e um computador multimídia, plugado na Internet. Mais ainda--e segundo seu artigo--em torno desse núcleo gravita toda uma constelação de parentes-entre-parênteses: microondas e congelados, TV a cabo e DVD, celular, fax, livros (poucos), revistas (muitas), som, sauna doméstica, armas, aparelhos de ginástica, móveis inteligentes (há uma cama programada para colocar a pessoa de pé, suavemente, de manhã) e tudo o mais ao alcance de um sólido cartão de crédito. O sexo interativo-não-virtual (leia-se a boa e velha relação sexual) vai se tornando uma curiosidade do passado. Só hippies embalsamados, índios e parte do proletariado ainda se entusiasmam com a idéia de praticar sexo. Entre os adolescentes também se nota algum interesse sexual, mas nada que um bom par de patins on-line não resolva com facilidade. ![]() É por essas e outras que já demonizei o capitalismo, como é possível ver na crítica visual acima. Publicado por Rubens Jardim em 28/04/2010 às 11h34
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FAZENDO JUSTIÇA AO POETA LUIZ CARLOS MATTOS
O poeta Luiz Carlos Mattos (1945-2000 ), integrante da Catequese Poética, só publicou dois livros: Ex-Exercícios(1966) e Lapidário Geral (1978), embora tenha contribuído de forma significativa para a divulgação de poemas e poetas. Ele foi responsável nos anos 70 por um projeto –os cadernos de poesia –que a partir das conquistas obtidas pela imprensa nanica, procurou alternativas para o livro. Os cadernos eram impressos em papel jornal, fartamente ilustrados e traziam encartados um pôster-poema duplo e um caderno extra, dedicados a ensaios, pesquisa e outros temas.
Infelizmente, os cadernos, que foram uma espécie de retomada do trabalho típico da Catequese Poética, movimento iniciado pelo poeta Lindolf Bell, logo após o golpe militar de 64, teve curta duração. Mas nem por isso deixou de ser uma iniciativa importante ao trazer à tona, depois de mais de 10 anos de silêncio, alguns poetas que se firmaram e ainda estão por aí, produzindo. Não é o caso dele mesmo, Luiz Carlos Mattos, morto em 2000, vítima de câncer pulmonar. Mas seu livro, Lapidário Geral, publicado como um dos cadernos, apresenta-nos um poeta que soube distinguir e construir a sua palavra diante das outras palavras empregadas nas conversações e comunicações cotidianas. E o que caracteriza de forma relevante a linguagem poética é exatamente essa apropriação --e essa invenção. Na verdade, ao contrário de todas as manifestações artísticas--caso do pintor, do músico, do escultor-- o poeta vive, como todos nós, emaranhado e imbricado em palavras. Só que é ela, palavra, a sua matéria prima. E a palavra é volátil, frágil e está permanentemente sendo utilizada --e ,o que é pior, sujeitando-nos a todo tipo de mal-entendido. Por essa razão, e para fazer justiça ao trabalho poético de Luiz Carlos Mattos, resolvemos abrir esse espaço para dar a conhecer alguns poemas de sua lavra. Creio ser essa a melhor maneira de dar continuidade ao trabalho de divulgação de poemas iniciado com minha participação na Catequese Poética. Escolhi alguns poemas circunstanciais, extremamente vinculados aos acontecimentos posteriores ao golpe militar-- e que fizeram enorme sucesso em nossas leituras públicas nos anos 60. Mas os leitores também poderão apreciar poemas mais distanciados do palanque e dos salões. Sublinhamos aqui a dimensão lírica do poeta Luiz Carlos Mattos. A PASSEATA Uma bandeira nova passava pela rua (pensamos: muito importante era o dia) Julgarás: renovado Saía a passeata Depois veio o cansaço Aço aço Construíam a nosso lado Pensarás: arquiteturas Passava a passeata Ata ata A ata na mesa do congresso Esso Esso Pensarás: progresso protesto Petróleo Óleo óleo Olhamos tudo e não pudemos dizer nada. VAMOS BRINCAR DE HERÓIS? Vamos brincar de heróis? Atamos verdades verdes pelas veredas, Falamos das falhas e das mortalhas. A canalha rompe, range e age Na medida de ação da reação: CASSAÇÃO CALADA (não convoca-ação) RUGE Corre-se risco. Mas nós não corremos rápido Talvez pelo hábito de enfrentar, De tentar e de estar na terra e não no ar NOSSOS HÁBITOS. Mas nos habituaremos ( um dia) Com uma cidade casual que procura Um álibi para explicar o abismo? Um ISMO? Uma solução decrépita ou demente? Ou dissolvida pela mente? Não se sabe ao certo. Aliás, não se sabe nada ao certo. Ou mais aliás ainda, não está nada certo. Nem há nada perto, E há que se nadar muito Para alcançar qualquer ilha. Com nosso barco sem quilha Neste mar acidental, No acidente entre o ocidente e o oriente. Mas não há quem nos oriente Nesse mapa emocional. Será que vale a pena ser herói (nacional)? TEMPO AO TEMPO O que aqui se chama tempo É um espaço reservado Às maresias. (Um trabalho feito pelo avesso) --O inverso do verso: O medo das coisas simples. Vivemos de matéria De memória vaga, Sombras espalhadas Nos cenários. A vida vivida no viveiro Antigo: o cheiro das praias Distantes. O que aqui se chama tempo É um crescimento sem controle Pensamentos, rastros, retratos, Flutuam num cáis parado Onde não se registram os dias. O que aqui se chama tempo, É um exercício de tato. Um trabalho de cerzir a vida, De colocar o vazio dentro Do oco, de fazer o nada Cercado: Espaço domado. LAPIDÁRIO DE MARÍLIA (lira reinventada) Lira I mar Ilhada em mim Que me desprendo menos terra Mais maré montante Monte pleno Antiarenito contraído Em minhas dunas contráridas Salágua: Meno sal, me represo líquido. Marvilha, gratistela que alvora luz Tempo contido, marca inexpressa Fechada face: meu espelho irreflexo, Desvendável apenas em meus retratos. -no entanto, sou voz plena, antessoada: Profecia do eco (som que não propaga, mas inventa e elege) Marvilha, gratistela que alvora luz Orar o ouro, D’ouro, menos que brilho, Mais pela febre, Pela febriluz. -marília é luz contida, Pós reflexa. Marvilha, gratistela que alvora luz Sol luz olhos, Os teus de visionária, Do limite amplo, plano pleno de tua face Que d(t)esliza à linha d’água, À linha longa, à linha curva,à linha langue... Linhas que se alinham em teus cabelos E remontam teu corpo em/balsa/amado. Mas te afastas, pastora que se muralha Tês oiro escondido(a) e procurado(a). Marvilha, gratistela que alvora luz. Que o rio retido retarde a safra E não amadureça estas sementes. As peste lenta, lentamente abaterá o gado -mas tanto guarda a alvorada Alvoramada, Marília bela, Que ao teu riso renascerá o dia Marvilha, gratistela que alvora luz Antipássaro, Observo teu pouso entre flores, Reconheço tuas vestes e te aceno... Mas, restas ao longe das esplanadas E apenas insinuas suas formas em luz. Cego, me basto no tato de teu nome. Marvilha, gratiestela que alvora luz Giram tuas consteladas letras E já se grifam lápides. -entre a campa e os ciprestes, Nos enterremos mortos. -as mesmas palavras que nos circundam Serão exemplos. Lira IV Marília é vedada Transplende apenas nos olhos Acusa no que reflete Transparente do seu sou mente no fundo Marília, escuta --escutas? Nem descoberta, nem achada a tua face Visível Como a tua projeção sobre meu rosto Face (a) em mim Lábio precursora Chegas chaga em mim aberta E em mim Mas funda e maior Marília escuta -escutas? Meandro pastos por teus rebanhos Amplos braços meus vargem prados Fonte Melhor relva Se vinhas, Em que vinhas te alia? Aves te avistaram plumba Planipluma Ante Ao resumo dos pássaros Antevôo e pouso Marília escuta -escutas? Passos seguidos de tuas Coisas despidas a tantos olhos Te diviso entre as copas do campo Rearquiteta face reinventada Guaradamada em mim Defesa Marília escuta -escutas? Transbordamento pleno Refletido Face miha em tua face Pelos planos Amploviários teus E à tua semelhança Laura, Marília, Quem, face qual Fotogravada Fotograve Ida e vinda Em todos os rostos Marília escuta -escutas? Movida Marília Ternamente, estandarte alto Penhor de meu tacto Fusão dos corpos Fuso primeiro Eterno ressoante Reencontro(te)(me) Marília escuta -escutas? Tua voz transfigura Eco proferido antes Teu rosto é tantos E sempre estás e nunca vens Marílias, estás? Mutável sopro Que grifa as lápides O que fazer destes ditos Sons e semi-sons de tuas falas Se tuas palavras não têm letras? Profecia. Marília escuta -escutas? Mar E ilha móvel que busco Tua face se consome longe Istmo interminável Não te alcanço Não vejo: Creio e guardo. Lira VI Oh! A vária estrela. Que diversos. Maralta vela volante Ante (ant)és Ave ferida a pleno vôo Antipássaro O espaço à dança de um compasso A dança do esquecer-se no papel A descoberta De como fomos ao dia -mas, Como hei de, Se Marília é mais E se há mais ainda? Lira 7 Marília não tem retratos Reflete Ou retrata-se Retrato que reflete aos poucos Nestes líquidos Qualquer pergunta Qualquer movimento Romperia Limpidez e claridade. PARA O POETA LUIZ CARLOS MATTOS (poema de Rubens Jardim) Estou aqui em tua casa como se estivesse diante de um espelho. Não penso. Não peso. Não peço. Apareço e desapareço como simples reflexo imagem que o tempo não devolve e poderá estar gravada --perdida ou registrada-- em corações olhos e álbuns que desconheço. É noite na tua casa e eu procuro em gavetas o bairro que se foi, a praia que desapareceu, a alma que está mais sozinha, e até o lampião que ficou aceso e ainda ilumina este momento de inexistência da casa de praia do vô Bento. Solemar, você sabe, não é uma varanda aberta aos horizontes do mar. Também não é uma rede rasgada nem o remo estilhaçado. Solemar é um queixume de sal nas ondas, um uivo de bóias trazendo nossos medos ao alcance de nós mesmos. Solemar é mais ainda: um mar torto, um viés de enxergar sempre e de não chegar nunca. Mas que infância não foi assim? Todos nós não nascemos para os heróicos brados retumbantes? Não fomos feitos para avançar por um itinerário qualquer, a qualquer hora e em qualquer direção? Ou será que alguns de nós --os atrasados e os desajeitados-- escolheram o caminho das pedras só para provar que o caminho é infindo e que chegar é adiar uma despedida. Não, não quero repetir a velha cantilena que nem mesmo habitou a velha Helena. Mando Homero às favas. Mas onde está a minha família que ficou minguada e as casas que se precipitaram em precipícios preservando cristaleiras conversas de cozinha cômodos escuros paredes velhas frestas no rodapé e baratas que nos causavam medo. Lembrar, é claro, é função humana. Mas nós que éramos mais frágeis que a pena na penumbra já insistíamos em guardar: papagaios de papel, caramujos que traziam os barulhos do mar, meninas que despertavam as comunhões mais plenas e mais impossíveis, e emoções que ficaram presas em conchas, em barulhos de gaveta, em revistas que já se foram, em ruas que desapareceram e nunca retornaram. Tudo isso que estava ali, à nossa frente, era apenas um horizonte? Uma possibilidade? E o que fizemos com essas pertencenças, com essa sensação de estar presente no móvel profundo das águas e das areias? No fundo do poço nós cavávamos a nossa sede. Algum dia, dos lábios impronunciáveis, surgiria a palavra companheira, imã e irmã, talvez romã rebentando nossa ancestralidade em um muro. E tudo isso não dividia nada. Nem separava nosso destino do destino daqueles que significavam tudo pra nós. Não demos murro em ponta de faca. Antes atávamos a vida com barbante. Mas, de algum jeito, sabíamos: nossa boca encontraria a boca imaginada, nosso corpo ganharia a dimensão do outro corpo. Mas ignorávamos as resultantes: as águas misturando-se as águas, as ondas nascendo das ondas, e aquela areia, apagando pra sempre, o desenho de nossos pés. Rilke diria: tudo isso era missão. Acaso a cumpriste? Publicado por Rubens Jardim em 16/04/2010 às 13h43
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TV Cultura: Entrelinhas destaca a obra de Rilke
Neste domingo, às 21:30, o Entrelinhas destaca a obra de um dos maiores poetas da língua alemã: Rainer Maria Rilke. Um dos grandes nomes da literatura universal, assim como Kafka, ele nasceu em Praga, na atual República Tcheca, mas escrevia em alemão. Apresentado por Paula Picarelli, o programa vai ao ar na TV Cultura.
Rilke tem uma extensa obra poética que capturou a imaginação de músicos, filósofos, artistas, escritores e amantes da poesia. E estendeu o alcance da poesia a pessoas raramente interessadas nisso. Marlene Dietrich, Martin Heidegger e Warren Zevon , por exemplo, recitavam de cor poemas de Rilke. Essa capacidade de tocar pessoas tão diferentes como se cada palavra tivesse sido escrita só para elas, confere à sua poesia a força que ela tem ao permanecer e ao entrelaçar o cotidiano e o transcendente. Aos 20 anos Rilke já tinha publicado dois livros de poesia, editado um jornal literário e se apaixonado perdidamente por Paul Valéry. Aos 22 anos conheceu Lou Andreas-Salomé, escritora e amiga de Nietzsche e Freud, e com ela viajou pela Rússia, época em que conheceu Tolstoi. Lou e Rilke tiveram um relação amorosa belíssima e inacreditável.E ela o ajudou muito, inclusive a mudar seu nome de René para Rainer. Mantiveram uma correspondência fantástica que só terminou com a morte do poeta e está no livro Correspondência Amorosa com Lou Andreas Salomé. Rilke publicou poemas nos livros Vidas e Canções(1894), Histórias do Bom Deus(1900), O Livro das Horas(1905), Novos Poemas(1908), Sonetos a Orfeu(1923) e Elegias de Duino(1923). Os dois últimos são considerados os melhores trabalhos do poeta. E as Elegias, traduzidas para o português pela inesquecível poeta Dora Ferreira da Silva, é um marco na tradução --ou na transcriação. Em prosa, suas obras mais conhecidas são Os cadernos de Malte Laurids Brigge e Cartas a um Jovem Poeta --livros também imperdíveis. Mas ele foi prodigioso, também, como epistológrafo, e em sua correspondência, espantosamente vasta, Rilke produz reflexões contundentes e acessíveis sobre um amplo espectro de tópicos. Casou-se com a escultora alemã Clara Westhoff, tiveram uma filha, Ruth, e viveram um ano com pouquíssimo dinheiro numa casa rústica de fazenda. Inquieto e sempre insatisfeito, abandonou a jovem família e mudou-se para Paris, onde arranjou uma posição como secretário particular do célebre escultor Auguste Rodin. A obra de Rilke vem sendo relançada no Brasil. Uma das mais conhecidas é Cartas a um Jovem Poeta – uma meditação sobre o ofício do escritor--encontradas até em bancas de jornal. O programa Entrelinhas, que vai ao ar este domingo, conversou com o tradutor e professor de literatura Tércio Redondo e com o ator Ivo Müller, que está em cartaz em São Paulo com a peça que leva o mesmo nome da obra do poeta. O que vocês vão ler aqui são alguns textos retirados de diferentes poemas e de escritos em prosa, que já sinalizam para uma rara dimensão poética. Que, por essa exclusiva razão, exerceu expressiva influência em escritores e poetas .Vamos lá: “É possível que, apesar do progresso, da cultura, da religião e da sabedoria universais, tenhamos permanecido na superfície da vida? E que mesmo essa superfície esteja recoberta de um tecido tão incrivelmente monótono que nos pareça móveis de sala numas férias de verão? Sim, é possível. É possível que toda a história da humanidade tenha sido um mal entendido?” “Depois da primeira pátria,como parece a segunda incerta e sem abrigo!” “Quem nos desviou assim, para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?” “Oh não porque a felicidade exista, essa prematura dádiva de uma perda iminente.” “Estamos aqui para dizer as coisas como elas mesmas jamais pensaram em ser intimamente.” “Oh! estar morto um dia e conhecer infinitamente todas as estrelas! Pois como esquecê-las, como?” “Não acredites que o destino seja mais do que a infância e o que ela contém.” “Ai, quem nos poderia valer? Nem anjos, nem homens e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo neste mundo definido.” “Quem desconhece a angustiosa espera diante do palco sombrio do próprio coração?” “E em torno desse centro, a rosa do contemplar floresce e desfolha.” “Não amamos como as flores, depois de uma estação; circula em nossos braços, quando amamos, a seiva imemorial.” “Não é tempo daqueles que amam libertar-se do objeto amado e superá-lo frementes? Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.” “Sim, as primaverasprecisavam de ti. Muitas estrelas queriam ser percebidas. Do passado profundo afluía uma vaga, ou quando passavas sob uma janela aberta, uma viola d’amore se abandonava.” “Faz-se cada vez mais raro o desejo de ter uma morte particular. Mais um pouco, e será tão raro quanto ter uma vida particular. Meu Deus: tudo isso está aí. A gente chega, encontra a vida pronta, basta vesti-la.” “Também não quero mais escrever cartas. Para que diria a outra pessoa que estou me modificando? Se me modifico, já não sou aquele que fui, sou algo diferente do que até agora era, então é evidente que não tenho conhecidos. E é impossível escrever cartas para gente desconhecida.” “Versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos --são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer.” “Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente.” “Não quero visitar países que os teus sonhos não tenham percorrido, nem habitar cabanas, que não tenham abrigado o teu repouso.” “Se uma só vez tivesses visto como o destino entra nos versos e não regressa.” “Guarda-te melhor, guarda-te caminhante do caminho que também caminha.” “Lembrar aqui não é o bastante, o puro existir daqueles momentos tem de estar no fundo de mim.” “De quem estamos próximos? Da morte ou daquilo que ainda não é ?” Se você gostou destes trechos da escrita rilkeana e quer conhecer mais de perto o poeta das Elegias de Duino, vá até o Youtube e assista a leitura de uma das Elegias. O vídeo foi feito nas proximidades do Castelo de Duino. E quem faz a leitura é o poeta Rubens Jardim. Eis o endereço: http://br.youtube.com/watch?v=nFqH1r3F57c Publicado por Rubens Jardim em 09/04/2010 às 11h54
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PARA VIVER A MODERNIDADE É PRECISO UMA CONSTITUIÇÃO HERÓICA
Utilizo essa frase do filósofo e crítico alemão Walter Benjamin (1892-1940) em Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo para iniciar esse comentário-desabafo sobre a torrencial cobertura que a mídia impressa, radiofônica, televisiva e internética dedicou ao julgamento do caso Nardoni- Jatobá. Durante toda a semana passada –e até bem antes disso –esse foi o assunto principal em todos os veículos de comunicação. Claro que a partir daí a repercussão do caso mobilizou a atenção e a sensibilidade das pessoas –e acabou arrastando multidões fascinadas por esse trágico acontecimento. É óbvio que qualquer outro evento, tratado da mesma maneira, repercutiria de forma bem semelhante. Aliás, é bom não esquecer de outras questões que já foram tema da onipresente indústria do espetáculo. Para citar apenas alguns: o capítulo das diretas-já, a morte do não empossado Tancredo Neves e do piloto Airton Senna. Em todos esses episódios verificou-se uma coisa só: o poder da mídia em mobilizar a vida social, em pautar os assuntos das famílias e dos trabalhadores.. Sem dúvida, hoje a vida é a soma de instantes fugazes que passam sem deixar marcas significativas. A aceleração do tempo, a impaciência e a produção desenfreada de novidades nos joga em um presente perpétuo cheio de exigências, respostas rápidas e estímulos contínuos. E como já disse Benjamin, a equivalência entre todas as coisas –a tragédia recebe o mesmo tratamento da comédia -- torna os indivíduos disponíveis para aceitar qualquer coisa que lhes seja apresentada sob a forma de novidade. É o que Guy Debord (1931-1994) também denuncia em seu livro A sociedade do Espetáculo. Simplificando, ele diz que tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação. Isso quer dizer que pela mediação das imagens e mensagens dos meios de comunicação de massa, os indivíduos abdicam da realidade dos acontecimentos da vida--da sua vida pessoal, única e intransferível-- e passam a viver no mundo da vida dos outros. Claro que movido pelas aparências –e há outro jeito de perceber a vida dos outros? --e pelo consumo permanente de fatos, notícias, produtos e mercadorias. E o que foi o julgamento do caso Nardoni-Jatobá? Mais um espetáculo midiático onde o grande protagonista foi o público que ficou do lado de fora, acompanhando o julgamento como se estivesse participando de um BBB ou de uma novela. Mas isso não é novidade. O sensacionalismo é prática freqüente da imprensa –e não só do Brasil. É bom não esquecer dos tablóides ingleses. De qualquer jeito, fica aqui a minha sugestão: porque a mídia não faz a mesma coisa que fez no caso Nardoni-Jatobá com os nossos vereadores da Câmara e com os nossos deputados da Assembléia? Acho que a audiência seria grande, mobilizaria o público e apresentaria um diferencial: nós poderíamos inibir às ações corruptas e os verdadeiros trens da alegria que colocam os nossos parlamentares--com polpudos salários e mordomias -- em situação de privilégio absurdo. COMENTÁRIO DO RABE QUE FAÇO QUESTÃO DE PUBLICAR, POIS ASSINO EMBAIXO Pois é, meu caro Rubens, se próximo estivéssemos, abraçar-te-ia, tua concisa crônica é precisa! Ah! Se a mídia fosse tão agressiva em explorar a beleza e a cultura humana, quanto explora a estupidez! Ah se a mídia desse destaque em horário nobre ao trabalho beneficente de parteiras nordestinas! Se desse destaque as dores atrozes das mães das periferias que vêem seus filhos e filhas cerceados de diversão, estudo e capacitação profissional! Ah, se a mídia enfatizasse, que o trafico de drogas só existe porque os consumidores destes produtos que destroem, tem o poder aquisitivo necessário para pagar por sua própria destruição, portanto o maior problema não esta na favela e eu o sei; fui morador de favela!... Ah se a mídia, não fosse cultora do ócio mental e da mercantilização da noticia, se não fosse doadora e manipuladora da pseudo-informação de interesse das massas ignaras!... Ah como seria bom que a mídia salientasse nos seus informativos que só com educação, família, compaixão, distribuição de renda, teríamos um mundo melhor de se viver. Ah! Os Nardonis... Que sei eu para dizer deles!... Eu que já estive na sala de uma casa onde a esposa doméstica esfaqueou até a morte o marido Jardineiro e o sepultou no quintal, Ah a mídia! Não, nada informou... Afinal é só uma briga conjugal de favelados mas que normal... JULGAMENTO DE ASSASSINOS NÃO É FINAL DE CAMPEONATO "Mais uma vez viu-se a montagem de um circo bizarro: famílias "popstar" (vítimas e criminosos), algazarras, fogos de artifício, camisetas "comemorativas"... Tudo como se estivessem vivendo dentro de uma novela de grande audiência, mas se servindo de tragédias reais públicas, todos almejam algum "papel" na trama. Pode ser que o pai de Isabella tenha mesmo atirado covardemente sua filha pela janela, mas a sociedade em geral, na era do Big Brother", certamente jogou a sua memória no lixo" (Jorge João Burunzuzian, carta ao painel do leitor da Folha) OUTRA SUGESTÃO DE PAUTA "Por que não se dirigem também ao presídio de Presidente Venceslau para protestar contra Marcola, Andinho, Champinha? Elementos que praticaram crimes tão lesivos quanto este --ou mais. É mais fácil se voltar contra esse casal, que há tempos estava popularmente condenado e não oferece ameaça à sociedade" (Plínio José Barbosa, idem) NEM OS JORNALISTAS NOTICIAM "Passou quase despercebido o julgamento do assassinato do jornalista Luiz Carlos Barbon Filho, em Porto Ferreira (SP), cometido por 4 pessoas entre as quais três PMs. Ojornalista foi morto por denunciar esquema de corrupção naPM, que envolvia aliciamento de menores para prostituição, entre outras coisas. E seus próprios colegas de profissão quase não noticiam" (Márcio Antonio Augelli, idem) Publicado por Rubens Jardim em 28/03/2010 às 15h00
![]() 15/03/2010 13h00
NÃO IMAGINO MINHA VIDA SEM CHOPIN
Também subscreveria essa afirmação recente de Nelson Freire, sem titubear. Afinal, convivo com a música de Chopin desde a infância. Mas o propósito desse comentário não é mostrar minha familiaridade com os grandes ou pequenos compositores. O objetivo desse artigo é outro: tentar desconstruir os preconceitos que cercam boa parte dos criadores que conseguem a preferência do público.
E Chopin, compositor romântico cujo bicentenário de morte é comemorado neste ano, é um deles. Tchaikovsky é outro. Mas vamos nos ater ao autor das célebres polonaises, das baladas, dos scherzos, dos estudos, dos prelúdios e noturnos. Pois bem: contrariando significativa parcela da crítica e de estudiosos, o pianista Nelson Freire, considerado um dos melhores da atualidade, disse o seguinte: “O fato é que com sua música tudo soa muito natural, espontâneo, os sons vão direto ao coração das pessoas. Mas para o pianista, as obras exigem um trabalho sem igual, entrega completa e muito tempo de dedicação.” Outra artista, amiga de Freire, a pianista argentina Martha Argerich, corrobora com as afirmações do brasileiro. E vai mais longe ainda: “Chopin é o compositor mais difícil” Claro que essas afirmações, vindo de quem vem, estabelecem um novo marco no entendimento do compositor. Eu mesmo fiquei muito feliz com isso, pois já andava saturado das opiniões que buscavam classificar a música de Chopin como música menor, música fácil-- música de salão. Tudo isso sem esquecer das preconceituosas referências ao seu “sentimentalismo melancólico”, “sua veemência passional” ou seu “romantismo exagerado”. É bom lembrar que, de modo geral, o mesmo fenômeno ocorre em outros áreas culturais. Na literatura, por exemplo, são inúmeros os casos. Jorge Amado, escritor que obteve grande sucesso no Brasil e em outros países, acabou sendo fustigado por esse preconceito. Outra vítima das elites acadêmicas foi José Mauro de Vasconcelos, autor de um livro que fez enorme sucesso nos anos 70: Meu Pé de Laranja Lima. Érico Veríssimo também foi inteiramente desprezado pela universidade e pelos intelectuais acadêmicos. E a mais recente vítima é Paulo Coelho, que ocupa vaga na estante dos autores menores e populares. Segundo alguns observadores, no Brasil, é a universidade que canoniza, que diz o que "é" e o que "não é" literatura. Mas esses processos de canonização são, na verdade, muito discutíveis. Até porque essas tentativas de invalidação coincidem sempre com autores ou obras que escapam à esfera do gosto e do poder dessas elites complicadas. E ganham, apesar delas e dos contumazes preconceitos, o gosto e a preferência popular. E isso parece ser imperdoável! COMEMORAÇÕES DOS 200 ANOS DE CHOPIN A celebração pelos 200 anos de nascimento do poeta do piano parece não ter limite e envolve todo o globo. Um festival atrás do outro, concertos, missas, mostras artísticas, literatura, uma onda frenética de comemorações que fará de 2010 um ano especial e inesquecível para a música. Já foram anunciadas duas mil celebrações artísticas, mil e duzentas das quais no seu país natal, a Polônia. Muitos outros países também se juntaram a este aniversário, entre os quais Portugal, Brasil, China, Itália, Reino Unido, França, Áustria e Noruega. Mas foi no primeiro dia de março, em Varsóvia, que a celebração oficial se iniciou com um Concerto de Gala no Stanislaw Moniuszko Auditorium (Teatro Nacional). Até o dia 7 de março, o pianista e maestro Daniel Barenboim, realizou recitais de Chopin em várias cidades da Europa. Também em março, do outro lado do mundo, no coração dos Emirados Árabes, ocorre o “2010 Abu Dhabi Festival”, que este ano celebrará o bicentenário do compositor, numa festa monumental com a participação de nomes como o maestro Krzysztof Penderecki, o pianista Yundi Li, o trompetista Wynton Marsalis, e até a London Symphony Orchestra conduzida por Sir Colin Davis. Em maio estreia mundialmente o “Ballet Chopin,” coreografado por Patrice Bart para o Polish National Ballet. Em agosto é a vez do “65th Chopin Festival”, a ser realizado na localidade polaca de Duszniki-Zdrój, onde o compositor residiu a maior parte de sua vida criativa. Em outubro ocorre a final da 16ª. edição do “Frederyk Chopin International Piano Competition”. Também em março será reaberto oficialmente em Varsóvia o Fryderyk Chopin Museum, e no mesmo mês ocorrerá em Ontário o “Canadian Chopin Festival” dez dias de festa, música e até um concurso para piano (Third Canadian Chopin Competition). Publicado por Rubens Jardim em 15/03/2010 às 13h00
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