Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Diário
08/01/2010 13h24
A SINA & OS SINAIS
Dentro estão as ruas
os sinais da infância.
Dentro estão meus pais
Meus irmãos. Dentro 
está Isalina e a Vila 
 
E o Pai Nosso na beira
Da cama. Dentro estão
As palavras herdadas,
as visões e o imaginário 
guardado a sete chaves.
 
Dentro estão os poetas
Reinventando os sentidos
E os significados. Dentro
Está o silêncio e a espera
da definitiva colheita.

sp/janeiro 2010

Publicado por Rubens Jardim em 08/01/2010 às 13h24
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08/12/2009 12h52
O SERTANEJO FALANDO MOTIVOU ESTE SER URBANO FALANDO. OUTRO POEMA EM HOMENAGEM AO POETA JOÃO CABRAL
Escrevi este poema em homenagem ao poeta João Cabral de Melo Neto. Minha intenção foi apropriar-me de sua linguagem e dos seus ritmos. Mais precisamente: estabelecer um contraponto ao poema O Sertanejo Falando, publicado no livro Educação Pela Pedra, Editora do Autor, 1966.
Nesse poema, o autor, que se distinguiria da geração de 45 por ter aberto e trilhado caminhos próprios, tornando-se um caso muito particular na evolução da nossa poesia, aborda a questão do sertanejo, construindo palavra sobre palavra, como o engenheiro coloca pedra sobre pedra. Aliás, na página de rosto do livro Educação Pela Pedra pode-se ler a dedicatória esclarecedora: A Manuel Bandeira esta antiLira para seus oitenta anos.
Utilizando linguagem enxuta, concisa, elíptica, esse poeta-engenheiro constrói uma poesia racional, calculada, que enfatiza os dados objetivos da realidade através da contenção da subjetividade poética. Nunca resvalou no mau gosto nem se deixou atrair pelo panfletarismo ou pela facilidade, caindo no poema-piada (nada contra o humor ), no prosaísmo oco ou no desleixo estrutural. Quase sempre, ao invés de uma visão sentimental, o poeta preferiu a representação desses fatos, imitando a configuração que eles têm na realidade. E no poema O Sertanejo Falando, o poeta expressa principalmente isso: a dura realidade nordestina. 
Nesse poema, que publico agora, procurei adotar o mesmo procedimento. Mas o foco foi deslocado para o Ser Urbano Falando. Vamos deixar de blá-blá-blá e ler o poema:

O SER URBANO FALANDO

A fala a nível do ser urbano, engana:
as palavras dele vêm,como ulceradas
(palavras de efeito, mobília), na sintaxe
de uma expressão indecisa, de almofadada.
Enquanto que sob ela, madura e apodrece
o arcabouço do sonho, a pessoa projeto,
perspectiva inglória do ser urbano,
incapaz de afirmar suas paixões.

Daí porque o ser urbano fala muito:
as palavras sem paixão adulteram a boca
e no idioma cidade não se fala o essencial;
nesse idioma o usual é a ausência do singular.
Daí também porque ele fala depressa:
tem de cortar as palavras de suas raízes,
aliená-las de sua vida, reconfeitá-las;
e esse trabalho não deve tomar seu tempo.


Publicado por Rubens Jardim em 08/12/2009 às 12h52
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07/12/2009 13h37
SONETO EM HOMENAGEM AO POETA JOÃO CABRAL
Ainda hei de estar dentro de você
como aquele menino esteve dentro
do canavial: sem bússola e roteiro
e sem este mar imitando as ondas
 
do derramar da cana. É estranho mas 
o canavial ensina ao mar um amar seco.
Este é o verdadeiro milagre do canavial. 
E o poeta João Cabral de Melo Neto
 
que sabia disso, nunca deixou de escutar
as vozes miúdas que vinham do canavial.
E eu que não sei nada, nem da terra,
 
nem do céu, vou beber caldo de cana
pra trazer de volta a veemência passional
que é a minha cachaça e a minha gana.

Publicado por Rubens Jardim em 07/12/2009 às 13h37
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03/12/2009 13h19
NA POLEMICA CRIADA POR CAETANO, QUEM SE DEU BEM FOI O ZÉ CELSO COM ESTE PRIMOROSO TEXTO. E O POVO BRASILEIRO
 
Republico aqui a resposta de Zé Celso, uma das figuras mais importantes do teatro brasileiro, ao compositor e cantor Caetano Veloso, que declarou seu voto para Marina Silva --e aproveitou para fustigar o presidente Lula dizendo que ele é analfabeto e tem fala cafajeste. Nesse texto --primorosa reflexão sobre as questões mais controvertidas da atual realidade brasileira--Zé Celso, que sempre foi irreverente e inovador, (é bom não esquecer que ele encenou O Rei da Vela em 67, espetáculo emblemático do movimento Tropicalista) mergulha de cabeça nas águas novas que estão circulando nos rincões mais distantes da democracia brasileira.Boa leitura

No mesmo dia em que Caetano fazia sua entrevista de capa, muito bela como sempre, no Caderno 2 do Estadão, o Ministro Ecologista Juca Ferreira publicava uma matéria na Folha na seção Debates. Um texto extraordinariamente bem escrito em torno da cultura, como estratégia, iniciada no 1º Governo de Lula ao nomear corajosa e muito sabiamente Gilberto Gil como Ministro da Cultura e hoje consolidada na gestão atual do Ministro Juca. Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencialização da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto. Por outro lado, meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo seu voto para Marina Silva. Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira, que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália. Percebi isso ao prefaciar a tradução em português crioulo = brazyleiro do melhor livro, na minha perspectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: Brutality Garden, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira, na Tulane University de New Orleans. Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetés, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar. Lula começou por surpreender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das Relações Exteriores, Marina Silva para o Meio Ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano. Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a "res pública". Tudo dentro de um futebol democrático admirável de cintura. Lula não pára de carnavalizar, de antropofagiar, pro País não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho. Por exemplo, quando convoca os jornalistas da Folha de S. Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A interpretação da editoria é a do jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí , quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano. Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num teatro grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, lula é um intérprete dela: a vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômenos da escrita viva do mundo diante de seus olhos? Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação. Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalização do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarte grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na Estrela Brasyleira a Vagar - Cacilda!! para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendendo este programa tétrico.Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. "Amor Ordem e Progresso." O amor guilhotinado de nossa bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta categoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos, como a sagração da natureza, a liberdade e a paixão pelo amor energia, santíssima eletricidade. Sinto que nessas duas pessoas de que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do governo Lula, ainda não caíram. A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai dedicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega à hierarquia máxima do teatro, a que corresponde ao papa no catolicismo: o palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é à toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Essa "estasia", Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que exista! Lula faz política culta e com arte. Sabe que a cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é super, é infra estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazyleiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um país de poesia de exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:"Vício na fala
Pra dizerem milho dizem mio
Pra melhor, dizem mió
Para telha, dizem teia
Para telhado, dizem teiado
E vão fazendo telhado"

SamPã, 6 de novembro, sob o signo de escorpião, sexo da cabeça aos pés, minha Lua de Ariano, evoéros!


José Celso Martinez Corrêa é ator, diretor e dramaturgo da Cia. Uzyna Uzona, sediada no Teatro Oficina, em São Paulo.

Publicado por Rubens Jardim em 03/12/2009 às 13h19
 
24/11/2009 13h04
A BELA HOMENAGEM DE NEUZA PINHEIRO AO POETA RUBENS JARDIM

http://www.youtube.com/watch?v=R8CoSSmGJtA

Mensalmente a Casa das Rosas abre suas portas para a Quinta Poética, um grande encontro dos amantes da boa poesia, com a presença de poetas convidados e de um jovem poeta, que tem a oportunidade de apresentar seu trabalho.
Grandes nomes da poesia contemporânea, como Álvaro Alves de Faria, Carlos Felipe Moisés, Celso de Alencar, Eunice Arruda, Helena Armond, Raimundo Gadelha, Raquel Naveira, Renata Pallottini, entre outros, já estiveram presentes nesses encontros, que são promovidos pela Escrituras Editora e contam com o apoio da Casa das Rosas.
Na Quinta Poética do dia 27 de agosto, eu fui o anfitrião e convidei  as poetas Raquel Naveira, Zuleika dos Reis e a jovem escritora Deborah Goldemberg para uma apresentação, que acabou sendo uma das mais intimistas de todas. 
Imediatamente lembrei-me da Bossa Nova, de um cantinho um violão e do Juão Sebastião Bar, do inesquecível Paulo Cotrim. E daquela época em que vivíamos na "escala humana", com pleno emprego, baixa criminalidade, população beirando os 4 milhões, poucos automóveis nas ruas e, consequentemente boa qualidade de vida.
Mas como tudo nessa vida de moedas e moendas tem os dois lados, veio o golpe de 64, a deposição de Jango e de nossas esperanças e o AI 5 com aquela dose absurda de repressão política.
Outra convidada que esteve na Casa das Rosas foi a poeta, compositora e cantora Neuza Pinheiro. Neuza foi a primeira intérprete de Arrigo Barnabé. Cantou Diversões Eletrônicas, vencedora do festival TV Cultura-MPB (1979) e classificou Infortúnio em quinto lugar. Ganhou o prêmio nacional de melhor intérprete cantando Sabor de Veneno, de Arrigo no Festival MPB TV Tupi (1979).
O link acima é de um vídeo de sua apresentação na Quinta Poética, cantando 
composição inédita em cima de meus poemas. Um privilégio para mim e para os meus poemas.

Publicado por Rubens Jardim em 24/11/2009 às 13h04
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