Diário![]() 08/10/2009 13h11
JORGE DE LIMA: O MAIOR, O MAIS ALTO, O MAIS VASTO, O MAIS IMPORTANTE, O MAIS ORIGINAL POETA BRASILEIRO
![]() É um caso estranho na vida cultural brasileira, o desconhecimento de Invenção de Orfeu nos meios universitários, assim como em outras áreas --até as especializadas, pois sua publicação, daqueles tempos até nossos dias, fez, de repente, de todos os outros poetas mais ou menos oficiais - como Drummond, Bandeira, Vinicius, Cabral --poetas de grandeza menor." Raduan Nassar (Jornal do Bairro,18/04/1973) Desde 21 de junho de 2006, o livro Jorge, 80 Anos está disponível no meu site, item e-books. Publicado em 1973, em homenagem aos 20 anos de sua morte e aos 80 de sua vida, Jorge ,80 Anos foi o estopim de um movimento maior: o Ano Jorge de Lima. Tanto o livro quanto o ano foram uma iniciativa minha com o objetivo de recuperar a memória e a trajetória de” um dos casos mais apaixonantes da poesia brasileira” conforme afirmação de Mário de Andrade. Mas não foi só o poeta da Paulicéia Desvairada que entoou loas à Jorge de Lima. Raduan Nassar. autor de um livro absolutamente impecável e imperdível chamado Lavoura Arcaica, disse o seguinte: "É um caso estranho na vida cultural brasileira, o desconhecimento de Invenção de Orfeu nos meios universitários, assim como em outras áreas --até as especializadas, pois sua publicação, daqueles tempos até nossos dias, fez, de repente, de todos os outros poetas mais ou menos oficiais - como Drummond, Bandeira, Vinicius, Cabral --poetas de grandeza menor." E o badalado poeta Mario Faustino, morto prematuramente, chegou a afirmar isso: "Para nós, todavia, pelo menos neste momento de nossa própria evolução, é Jorge de Lima o maior, o mais alto, o mais vasto, o mais importante, o mais original dos poetas brasileiros de todos os tempos." E foi graças ao apoio de um time da pesada, incluídos aí Drummond, Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia, Raduan Nassar, Stella Leonardos, Povina Cavalcanti, Álvaro Alves de Faria, Walmyr Ayala e muitos outros, que o Ano Jorge de Lima conquistou dimensões nacionais e expressiva cobertura da mídia. Motivadas por essa reviravolta na trajetória do poeta Jorge de Lima, várias editoras republicaram suas obras. Até a Aguilar relançou, em 75,as Poesias Completas de Jorge de Lima, em convênio com o MEC/INL, a preços populares. Para se ter uma idéia das dimensões do Ano Jorge de Lima, das suas repercussões e dos seus resultados, basta registrar o seguinte: Jorge de Lima foi tema de samba enredo da Mangueira no carnaval de 1975. Mas as repercussões não ficaram restritas à maior festa do povo brasileiro. Edu Lobo e Chico Buarque debruçaram-se sobre o poema O Grande Circo Místico, compuseram músicas e um disco foi lançado com grande sucesso.Um espetáculo de balé também foi montado, em cima do poema, e obteve grande êxito. Fracasso mesmo foi a baixíssima procura que o livro Jorge,80 Anos obteve, em meu espaço, aqui, na Internet. Em pouco mais de três anos, ele só foi “baixado” por cinqüenta e oito visitantes. Ou seja: uma média anual de 19 raríssimos e escassos leitores. Apesar disso, não estou convencido que esse fracasso não possa ser revertido. E passo para vocês, trecho inicial do livro. E escolhi a melhor pessoa para falar do poeta: o próprio poeta. Aí embaixo está um trabalho de montagem de textos, espécie de introdução à vida e à obra de um dos mais importantes poetas deste país. Nasci em União, no Estado de Alagoas, a 23 de abril de 1893. (Lembrança da casa grande tenho muita. Mas forte mesmo, lembrança que eu possa escrever, registrada nos olhos abertos, nos ouvidos indignados foi o grito do Joca, a sua cara rompante: -- Guia de cego! Guia de cego ! Sim, eu estava guia de cego. Puríssimo. Completíssimo, segurando a mão dela, tomando conta da menina cega- eu de seis anos,angelicamente besta, irresponsável, anódino, transparente como uma infância). Criança cambembe eu tive dons que perdi. Dons de apreensão da verdade, de Deus me tocando, dons além das medidas da razão humana. (Faz de conta que os sabugos são bois...Faz de conta...e os sabugos de milho mugem como bois de verdade...e os tacos que deveriam ser soldadinhos de chumbo são cangaceiros de chapéus de couro...É boquinha de noite no mundo que o menino impossível povoou sozinho! Em certa noite éramos seis em torno de uma esfera armilar povoada de insetos. (O candeeiro familiar, grande, belga,a querosene em que havíamos estudado carta de ABC, tabuada, fora deixado de lado. Prá que belga onde havia luz elétrica ? Porém o jeito de estudar residia na presença do candeeiro. A luz, em cima, da lâmpada elétrica, era fria e distante. Minha mãe compreendeu o efeito montessórico do candeeiro. Mandou buscá-lo. Apenas modernizou-o, substituindo o pavio por lâmpadas elétricas. Então o estudo vinha. E vinham meninos da vizinhança atraídos pelo que se passava à luz do candeeiro.) Por volta de 1903 a mudança de nossa família prá capital do Estado. (Caminhos inventados por quem não tem pressa de ir-se embora. Pelos que vão à escola. Pelos que vão à vila trabalhar. Pelos que vão ao eito. Pelos que se despedem da vida que é tão bela... Caminhos de minha terra onde perdi os olhos e os passos da meditação... Mundaú! --rio torto -caminho de curvas por onde eu vim para a cidade onde ninguém sabe o que é caminho.) Em Maceió, meu pai adquiriu uma casa térrea na rua do Rosário. (Vi-me fascinado pela Igreja do Rosário adiante de minha casa. Na torre desse templo o galo metálico sotoposto atravessa meus livros e perdura em Livro de Sonetos e Invenção de Orfeu e toma o colorido de Orpington azul que meu tio Argemiro Barroso importava para o seu aviário à margem da Lagoa Mundaú.) Antes de maio findar li Inês copiada por meu pai. Ele amava aqueles versos de Camões. (Eu era os meus sete anos, vendo-a vejo a própria poesia que surgiu intemporal, poesia que antevejo, poesia que me vê, verá, me viu. Musa aparecida de cem faces, Inês mirante, chamada Inês de muitos nomes, antes, depois, como agora, hoje distantes. Eterna, linda Inês, paz, desapego, porta recriada para os sem sossego.) Rimando infantilidades, porém muito analfabeto, minhas bestagens agradavam mãe orgulhosa de seu filho. (Meu pai me bote na escola/ de meu velho amigo Lau/ quero aprender com ele/ versos e não b, a, bá !!! ( 7 anos ). Tenho pena dos pobres, dos aleijados, dos velhos./ Tenho pena do louco Neco Vicente/ e da lua sozinha no céu.( 9 anos ).Vi um menino cego/ chorei por este menino. Minha tristeza não nego/ Vi um menino cego/ Choro por este menino ( 10 anos ). Moro em frente da Igreja/ Vivo feliz com meus pais./ Menino que mais desejas/ Quando entras, quando sais? ( 11 anos ). De mãos frias e trementes, apresentei ao prof. Moreno Brandão, poeta e escritor, as folhas rabiscadas. - De quem são? - Meus. - Quem lhe ensinou isso? - Aprendi por mim. - Menino, na sua idade não se deve pensar nessas coisas. O tempo não chega para o estudo. Esse negócio de verso atrasa um bocado. Mesmo porque isso não é verso. Tudo pé quebrado, errado. Prá se fazer versos é preciso estudar métrica.) Fui à livraria comprar um livro de métrica. Não tinha. Ninguém tinha. (Mais tarde, meu primo explicou mais ou menos como era. Nos dedos. Oh! que saudades que eu tenho. Queu. Compreende, uma só. Da aurora, dau. Compreende? da-au, duas. Dau: uma só sílaba. Compreende? Oh como é fácil! Facílimo!) Comecei a fazer versos segundo as formas consideradas parnasianas, e um desses sonetos entrou para as antologias. ( Lá vem o acendedor de lampiões da rua!/ Este mesmo que vem infatigavelmente// Parodiar o sol e associar-se à lua/ Quando a sombra da noite enegrece o poente!// Um, dois, três lampiões acende e continua/Outros mais a acender imperturbavelmente/ À medida que a noite aos poucos se acentua/E a palidez da lua apenas se pressente.// Triste ironia atroz que o senso humano irrita:/--Ele que doira a noite e ilumina a cidade,/ Talvez não tenha luz na choupana em que habita.// Tanta gente também nos outros insinua/Crenças, religiões, amor, felicidade,/ Como este acendedor de lampiões da rua! ) Ainda com a cabeça inchada por diminutos sucessos, chego ao Rio. (Onde está a calma deste mundo? Onde está o sossego? Onde está o sono? Onde está a infância sem crime? Onde está a namorada de velocípede? Onde está o pátio com as andorinhas e a fonte? E o rio de tua meninice? E as tardes de maio? E as primeiras estrelas surgindo lá em cima da serra? E os sonhos que penetravam pelas pálpebras? E as sombras na parede? E o velho candeeiro familiar? Isso tudo onde está ?) Arranjei velocidade. Virei homem de cimento armado. ( Libertei-me do ar, libertei-me do fogo, libertei-me da água, libertei-me da terra. Sou escravo da máquina. Transformo lobo em cão doméstico, transformo raposa em lulu, transformo, venço, faço tudo, tudo, pois eu mesmo sou lulu, lobo e sou raposa. E sou escravo da máquina. E sou escravo da máquina.) Cadê você meu país do Nordeste que eu não vi nessa Usina Central Leão de minha terra? (Ah! Usina, você engoliu os banguezinhos do país das Alagoas! Você é forte, Usina Leão! As suas turbinas tem o diabo no corpo! Você geme! Você grita! Você está dizendo que USA é grande! Você está dizendo que USA é forte! Você está dizendo que USA é única! Mas eu estou dizendo que você é triste como uma igreja sem sino...) Prá donde você me leva poesia-uma-só ? (Ó irmã, agora que as noites vem cedo e paira por tudo uma tristeza enorme e o silencio é tão grande que os cães enlouqueceram nas ruas, irmã, vem me relembrar que crescemos juntos quando os dias eram compridos e diferentes. Irmã, se tu sabes signos para mudar o tempo, vem. Vem que eu quero fugir para outras paragens onde as gaivotas sejam menos inúteis e haja um coração em cada porto.) Cadê a luz trêmula da vela para alumiar o meu poema antigo? (O lirismo perdeu a sua liturgia. As lâmpadas Osram velam funebremente a poesia.) É muito tarde! E tudo é uma inutilidade! ( A noite não tem berços embalando, nem borboletas noturnas, nem as saudosas assombrações. A poesia não consegue encontrar o amor nem os lábios sensuais. Mas de repente um clamor acabou de se ouvir. Será a ária dos meninos mortos? É muito tarde! A noite não tem flores, nem nuvens, nem cabras-cabriolas. A poesia não consegue ouvir as fontes nem os acalantos nem os pássaros escuros. Meninos mortos, a noite que veio é sem fim? ) Prá donde que você me leva poesia-uma-só? (Há ainda muita coisa a recalcar: ó linda mucama negra, carne perdida, noite estancada, rosa trigueira, maga primeira. Há muita coisa a recalcar e esquecer: o dia em que te afogaste, sem me avisar que ias morrer, negra fugida na morte, contadeira de histórias do teu reino, anjo negro degredado para sempre, Celidônia, Celidônia, Celidônia! ) Porém falo de meu ser todo poros, todo antenas. (É preciso se falar das criaturas, verdadeiras criaturas animadas, das vivências totais, arbítrio e tudo, alma, corpo funesto e essa imortal perpetuidade além, Deus nas alturas, nomes de terra e nomes eternados. Celidônia, Floreal, Inês, Lenora, Violante e outras criaturas exumadas. Depois a minha vila. Depois os meus tontos passos noutras vidas, em Mira-Celi, muito longe, longe sumidamente longe, e aquém.) E aqui estão nossas musas dos sete anos, inda invisíveis, todavia perto. (Eu não sei se é minha musa, meu silêncio ou minha irmã, ilha, gaivota ou maleita, ou quase tudo, ou menina enteada e foragida, criada dentro dos becos, tempo ou data ou nome ou algo em salinos ventos idos. Seu nome? Quero varrê-lo deste navio deserto, quero mesmo recalcá-la, desmontá-la e libidá-la: inesá-la, lenorá-la.) Nesse instante tudo parecia em pauta dupla, contraponto, eclipse, coisa obscura, difícil de contar. (Um transe de magia havia no mundo exaurido a ponto de espantar: Mira-Celi descera entre o ar e o mar.) Eis o vago tropel dos seres todos nascendo amortalhados sem querer. (Não sei se era memória o que eu falava, se era palavra muda o que eu ouvia, sei de imensas presenças que giravam, enxame numeroso me seguia.) E há seres, seres nunca vistos, ó esposa fria, rosa da morte, rosa do que for. (Chamo as coisas com os versos que eu quiser. O nome afinal o que importa à essência de um poema?) Celidônia, Floreal, Inês, Lenora, Roselis, Violante, Abigail, Beatriz, Isadora, Albertina. (As pessoas que eu nomeio são pessoas que existem.) Quem me vê, vê janelas de infância num sobrado. (Candelabro ou veleiro me persigo.) O rio de minha terra é o ABC da minha meninice. (O meu passado correndo para o mar.) Ouço o meu nome. (Chamaram-me me chamei ou o tempo me chamou?) Publicado por Rubens Jardim em 08/10/2009 às 13h11
![]() 25/09/2009 23h23
LULA: O ANTIGO LÍDER SINDICAL QUE MUDOU A CARA DO BRASIL
Essas imagens são emblemáticas e mostram a nova posição que o Brasil ocupa no cenário internacional. Segundo o jornalista Ricardo Kotscho, Lula não precisa ler os jornais brasileiros para saber o que pensam os homens que decidem os destinos da economia mundial. Fala diretamente com eles e por eles é ouvido como jamais aconteceu antes com qualquer outro presidente brasileiro.
Ao tornar pública a canção Brasil! Mostra a tua Cara em 1988, o cantor e compositor Cazuza jamais poderia imaginar as mudanças que estariam prestes a acontecer no Brasil, através da histórica eleição de Lula, o operário metalúrgico que veio do Nordeste em pau de arara e se tornou presidente em 2002. Graças a constante peregrinação por vários países do mundo, sempre com objetivos de atrair investimentos e negócios, Lula já mostrou a sua cara e a cara nova do Brasil em lugares inimagináveis aos presidentes anteriores. Só em 2005, ele visitou 25 países e viajou o equivalente a mais de cinco voltas ao redor da Terra. Muitos ficaram inconformados com essas viagens presidenciais. Mas o fato concreto é que o Brasil precisava mesmo lutar para ter seu lugar ao sol no cenário internacional. E essas viagens de Lula, inclusive a parceiros não-tradicionais, gerou resultados na ampliação do comércio brasileiro com diversos países e na conseqüente diminuição da dependência dos EUA e da União Européia. Um amigo que acabou de regressar da Europa me disse que o prestígio de Lula está nas alturas. Pelo menos é o que ele sentiu, até com uma ponta de orgulho, ao constatar que poucos líderes mundiais mantém uma presença tão expressiva na mídia. Parece que também para a velha Europa, cansada das antigas lideranças, Lula é o cara. Mas vamos aos fatos--ou melhor dizendo, à interpretação dos fatos. Antes do advento da era Lula, todos os nossos presidentes – chamem-se eles FHC ou Garrastazu Médici, Sarney ou Collor – jamais tiveram a cara do Brasil. No layout, na aparência e no comportamento, qualquer um deles poderia presidir o México, o Canadá ou a Espanha. Eram tão comedidos, semelhantes e protocolares como essas redes de hotéis que são absolutamente iguais no mundo inteiro. Com o surgimento de Lula, tudo isso acabou. Possuidor de uma espontaneidade fora do comum e de uma simpatia irradiante, --traços tão característicos do nosso povo --Lula foi mostrando a nova cara do Brasil – aquela que envergonhava a todos – e, num passe de mágica, essa cara foi sendo conhecida, aceita, admirada, aplaudida. Essa nova cara do Brasil conquistou tanto espaço, e se impôs ao mundo de tal forma, que até o presidente Obama disse, brincando: “Esse é o cara." E é mesmo. Nunca nenhum presidente teve tanta aprovação do povo brasileiro e tanto destaque nas reuniões mais importantes dos dirigentes mundiais. Mesmo Getúlio Vargas, “o pai dos pobres”, considerado hoje um dos mais importantes dirigentes que o nosso país já teve, conseguiu tamanha aprovação popular. Tenho a impressão de que Lula reúne atributos e competências raras de se encontrar em qualquer líder político. E suspeito que essas características estavam entranhadas em sua personalidade forjada no enfrentamento das dificuldades mais absurdas que cercam a vida das camadas mais pobres da nossa população. E todos nós sabemos que, se as nossas elites são conservadoras, arrogantes, irresponsáveis e só enxergam o próprio umbigo, a maior parte do nosso povo é o contrário disso. O nosso povo é responsável, criativo, trabalhador, generoso e solidário. E confirmando de algum modo o que está dito aqui, a revista Newsweek fala hoje, que Lula é o político mais popular da Terra. A revista afirma, ainda, que Lula fez um trabalho espetacular em seus sete anos de governo. E descreve sua história, da infância à presidência, passando por suas atividades como líder sindical. E é bom lembrar : só neste ano a Newsweek dedicou duas capas ao Brasil e ao seu governo. Publicado por Rubens Jardim em 25/09/2009 às 23h23
![]() 10/08/2009 11h13
LEMBRANÇAS DE LINDOLF BELL, O POETA QUE RECONDUZIU O POEMA AOS LIMITES AMPLOS DA PRAÇA, DA RUA, DA COMUNIDADE
Publico aqui texto da conversa que tivemos no último sábado, dia 8 de agosto, no Lugar Pantemporâneo, ocasião em que foi lançado mais um livro da coleção Melhores Poemas, dirigida por Edla Van Steen. Desta vez, o homenageado foi Lindolf Bell, poeta que se tornou celebridade nos anos 60 graças ao movimento que criou: a Catequese Poética. Para quem não sabe, a finalidade da Catequese Poética era levar a poesia ao conhecimento do grande público em lugares imprevisíveis como boates, clubes, escolas, praças, teatros, faculdades, sindicatos, livrarias, bares,etc.
“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa, todos os dias são meus”. Achei que este texto do Fernando Pessoa, um dos poetas mais amados pela nossa geração, ajustava-se como uma luva às mãos para abrir essa nossa conversa em torno de Lindolf Bell. E digo isso porque ambos buscaram restabelecer a importância do pensamento poético e aproximá-lo, outra vez, das palpitações do mundo. Lindolf Bell (1938-1998) nasceu, cresceu e viveu em Timbó, Santa Catarina. Durante sua trajetória de 60 anos entre nós, foi lavrador, escriturário, contador, poeta, professor, crítico de artes, dramaturgo, membro do conselho estadual da cultura do Estado de Santa Catarina e marchand. Mas o que norteava todos os seus fazeres e afazeres era a sua postura de poeta. E até o seu não fazer --o seu ócio –era criativo e irrigado e inundado pela presença da poesia. Aliás, quando ele crava estas palavras “POESIA É TERRÍVEL SOERGUIMENTO” isto não é apenas mais um verso. Ou mais uma imagem. Essa declaração parece resumir o núcleo da sua personalidade e a sua crença de que a verdadeira poesia não é adorno, distração, ornamento interior. Bell acreditava que a verdadeira poesia é luta com a palavra, com o caos primordial do Verbo. É luta contra a tirania da falsa linguagem, das palavras batidas e amassadas e contra a mesmice enganadora e as falas burocráticas. E é bom lembrar aqui que foram essas falas que rechearam o modelo importado da educação brasileira, que apresentava fórmulas e receitas já prontas, desconectadas da nossa realidade. Naquela altura –estamos falando dos anos 60 onde o Bell vinha se afirmando como poeta –é que foi firmado o acordo MEC-USAID(66) que deu ênfase ao ensino profissionalizante, desde os níveis mais baixos até a especialização. Quer dizer: as raízes desse modelo eram puramente econômicas, voltadas para o treinamento e adestramento do estudante, tornando-o um dócil e cordato servidor do sistema. É claro que o pensamento de Bell não estava alinhado com essas vertentes trazidas pelos especialistas norte-americanos. Muito pelo contrário. Ele rebelava-se sempre contra o nivelamento das diferenças individuais e sociais. E se sentia comprometido em fazer o caminho contrário. Ou seja: como poeta situado no seu tempo, sua missão era participar da elaboração de um pensamento nacional e da formação de uma inteligência crítica e criativa. Talvez por isso, sua poesia dos anos 60 seja uma poesia engajada, participativa--mas sempre de alta voltagem lírica. Nos seus poemas daquela época, desfilam temas e palavras vinculadas a solidão, ao destino, ao amor, ao desalento, a amada, ao amigo, a perda de laços de fraternidade e a urgência de protestar, denunciar e convocar. E o título do seu terceiro livro, CONVOCAÇÃO, não surgiu à toa. É um grito explosivo de luta. Pois Bell sempre foi uma pessoa muito rebelde e que fazia questão absoluta de dizer o seu não às coisas como são. Humaníssimo, ele queria transformar tudo o que existia à sua volta. Era um subversivo naquele belo sentido de sofrer pelo novo e lutar para transformar aquilo que é naquilo que ainda não é-- e é só pura imaginação, desejo, vontade enraizada. Bell nunca deixou um instante sequer de ser poeta. Claro que eu não estou falando que ele vivia apenas para o ato criativo, trabalhando alucinadamente seus poemas. Fechado em um quarto. Ou numa mansarda. Nada disso. Embora tivesse uma vida modestíssima aqui em São Paulo, ----chegou a morar em uma garagem na Rua Aurélia-- nos divertíamos muito em festas, bares, boates e em um número infindável de viagens que fazíamos com a Catequese Poética, para o Interior de São Paulo e para outros Estados. Nessas ocasiões, lembro que o pessoal brincava dizendo que ele parecia ser o chefe dos escoteiros. Mas logo após o grupo ter cumprido com as obrigações assumidas, que iam de entrevistas a jornais e emissoras de rádio e tv até recitais de poesia e palestras, o Bell era o primeiro a buscar descontração e relaxamento. Mas não posso deixar de registrar que era uma característica belliana não chegar atrasado e nem dar “cano” em qualquer pessoa. Seja para assistir um filme, ou para fazer uma visita. Ele era extremamente responsável e o primeiro a chegar em qualquer compromisso. Outro aspecto marcante da sua personalidade era o olhar penetrante que parecia refletir e buscar as paisagens mais profundas da alma. Dora Ferreira da Silva, excelente poeta e saudosa criatura disse na apresentação de OS CICLOS ( segundo livro) que Bell era um lírico e buscava o contacto dos seres e coisas numa exasperação de alma e sentidos. Ele era assim mesmo: intenso em todas as relações com o mundo. E que ouvido, senão o ouvido mais fino do poeta poderia ouvir a fome das pedras e a dor que se sobrepõe à dor? Hoje mais do que nunca a velha embira conhece o meu coração. É isso aí: ser poeta é, de algum jeito, preservar a inocência e a rebeldia –seja diante do branco do papel ou diante da solitária tela do micro. É estar desarmado, desamparado, mas indignado e cheio de energia para enfrentar o vazio e o nada e a partir daí criar o jardim que não existe, a flor que não existe, o mundo que não existe. Ser poeta é, inquestionavelmente, negar o existente. É propor aquilo que ainda não existe. Mas é também não refugiar-se em mero jogo de palavras ou em malabarismos verbais, cujo único fim é reduzir o mistério poético ao nível do racional e do prosaico. Pois bem: acho que no âmago mesmo de sua vocação poética, como afirmou o crítico Nogueira Moutinho, está a tensão de traduzir em linguagem os acontecimentos e os fatos que o envolvem e dos quais ele é testemunha, comparsa ou agente: nunca, porém, um espectador indiferente. A poesia de Bell é incisiva e convocatória. É uma poesia que atua, publicamente, procurando mobilizar as pessoas e as consciências. Por exemplo: eu quero um plano de vida para conviver. Eu ostentarei minha loucura erudita, eu manterei meu ódio a todos os cetros, cifras, tiranos e exércitos. Eu manterei meu ódio à toda arrogante mediocridade dos covardes. Eu direi coisas sem nexo em cada crepúsculo de lua nova. Eu denunciarei todas as fraudes da nossa sobrevivência. Eu estarei na vanguarda para conferir esplendores. Eu me abastardarei da espécie humana. Eu farei exceções a todos aqueles que souberem amar. Amo na poesia de Bell essa fome de comunhão. Aliás, como já disse --precisa e preciosamente-- Octávio Paz, o poema é um produto social. E sem a história –sem os homens que são a origem, a substância e o fim da história –o poema não poderia nascer nem encarnar. Ou seja: ele não poderia existir. Mas voltemos ao Bell: “ Deixem-me calado na dor e no amor, deixem em paz minha desordem, meu canto rouco, meu viver interior, meu delírio, meu submundo, as águas da minha incerteza constante. Deixem em paz a ferrugem de meus planos abandonados, o quadro negro de meu existir traçado a gis, não me ensinem códigos, não me ponham sininhos no pescoço, eu quero ter a certeza de ser livre.” Aqui, neste trecho de poema, Bell mostra, com extrema transparência, esses sinais de seu modo de ser e estar-- e viver e conviver. Lembro-me da importância que ele sempre atribuiu à independência, à autonomia e à liberdade. Nunca quis se submeter à qualquer coisa que pudesse ameaçar esses princípios. E isso podia ser atestado por qualquer um de nós, que mantivemos, durante anos, uma cotidiana proximidade afetiva e de trabalho. Dentro da própria Catequese Poética, movimento que ele iniciou, sozinho, em 1964, e que aos poucos foi recebendo adesões e incorporando outros poetas jovens e absolutamente desconhecidos –como eu e muitos outros— Bell jamais impôs regras ou usufruiu de privilégios. Tudo era conversado e discutido em grupo. Desde os poemas recém criados até os compromissos com a imprensa e com a agenda de apresentações e viagens pelo Brasil. E embora o Bell já fosse muito conhecido e respeitado, (em 1963 ganhou o Prêmio Governador do Estado como revelação) nunca impôs sua maior experiência e jamais manifestou o mínimo de arrogância ou prepotência. E em se tratando dessa questão, me considero um verdadeiro expert. Pois não suporto gente de nariz em pé e que se acha superior aos demais. Tenho alergia física a isso. Portanto, posso testemunhar com absoluta isenção o seguinte: jamais vi, vivi ou convivi com uma pessoa que respeitasse tanto o ser humano e a vida em todas as suas manifestações. Lembro-me de uma passagem acontecida na casa de minha família. Vovó que morava conosco e também já adorava aquele menino poeta, resolveu presenteá-lo. E sabendo que Bell gostava muito das romãs plantadas no quintal, cortou um galho, fez uma muda e plantou em uma latinha de azeite. Não é preciso dizer o que isso provocou nesse meu amigo e irmão. Mas dias depois, o Bell aparece em casa com uma crônica publicada em um jornal de São Paulo relatando esse episódio. Aí foi outra comoção familiar. Eis o trecho desta crônica: Nunca esquecerei. Começar a falar assim, deixa a impressão de uma declaração de amor. E talvez seja. A verdade é que nunca esquecerei mesmo. Nem me cansarei de lembrar...Ela olhou-me (minha avó de eleição) e com um gesto manso convidou-me para segui-la. Olhei seus olhos mansos (quase pássaros),os cabelos brancos, as mãos frágeis, frágeis como porcelanas, o andar de quem não passou em branco todo esse tempo...Em seguida, vi o seu sorriso, cheio de ternura, sem limites, ternura de contemplar formiga, folhas caídas, insetos dentro da tarde. Senti um nó na garganta. Um nó de comoção. Um nó de olhar estrelas, descobrir a amplidão dos firmamentos. Vovó Elisa, de muitos anos, transformou-se, de repente, na imagem da humanidade, esta flor tão rápida, tão múltipla, tão estranha. Será que vai crescer?...” Hoje, essa romanzeira que foi plantada por ele na casa de seus pais, Teodoro e Amália,--e onde ele foi morar sozinho depois da separação com a Elk Hering, está lá dando muitos frutos e sombra a todos àqueles que visitam A CASA DO POETA LINDOLF BELL, em Timbó. Que é hoje um centro cultural, museu, centro de memória, biblioteca e tem ainda a praça do poeta—uma galeria de arte a céu aberto.que pode ser visitada a qualquer hora do dia e da noite. Nessa praça encontram-se placas com os fragmentos poéticos mais conhecidos de Bell, aqueles inquietantes, que levam você a pensar nas questões mais simples e complexas da vida. Mas voltando ao que estávamos falando, Bell era uma pessoa assim mesmo: muito intensa, generosa e desprendida . Estava sempre disposto a ajudar os outros. Fossem eles jovens poetas, ou pessoas completamente fora do circuito das artes. Era capaz de tirar a roupa do próprio corpo para cobrir o do próximo. Não escolhia o momento para auxiliar quem o procurasse. Daí o aparecimento de outro traço virtuoso: a solidariedade que tem origem na bondade. como testemunhou Péricles Prade, poeta e amigo de infância. Eu também presenciei a inúmeras atitudes desse tipo. Com as crianças, por exemplo, seu comportamento era singular. Ao contrário do que é mais comum, ele não se infantilizava para cumprimentar ou conversar com uma criança. Não usava os diminutivos corriqueiros nem o tatibitate. Do mesmo jeito que ele não se travestia de mendigo para conversar com um mendigo. Diante de qualquer pessoa ele mantinha sempre um comportamento fraterno, solidário e de respeito. Não ligava para as aparências--embora soubesse que as coisas, todas as coisas, vivem no universo simbólico vestidas de linguagem. Também nunca vi o Bell ajustar alguma máscara, seja de que tipo fosse, para estabelecer relação com outro ser humano. O Bell era sempre, vinte e quatro horas por dia, o Bell. Ou seja: um poeta. E como escreveu Cecília Meireles em seu Recitativo a um Poeta Morto, dedicado a Jorge de Lima: o que é o poeta senão essa criatura sem equivalência, a transbordar de seus limites humanos, em vício ou virtude, a exceder a multidão que o contempla ou não contempla, entende ou não entende, combate ou glorifica ——mas não pode deixar de saber que está presente. Que é o poeta senão o ouvido que melhor ouve o apagado e esquecido e recolhe a sua informulada queixa e seu cântico longínquo? O olho que mais longe avista, até onde as formas são simples esquemas, onde tudo que parece o mais simples se desdobra e entrelaça em trama profunda. Sem ser Deus, nem profeta, nem sábio, mas tudo isso, imperfeita e amargamente, porque é apenas um poeta. E poeta é mesmo assim : múltiplo, complexo, contraditório, solitário e plural, humilde megalômano, desgraçado feliz, audaz e tímido, antinômico, poliedro de cristal com uma luz diferente em cada aresta. E Bell era um poeta que sabia que a verdadeira poesia é uma viagem ao desconhecido. É caos e criação. Vida e morte. Verbo e substantivo. Espanto e descoberta. E mesmo que seja entendida como arma ou alma carregada de futuro, a poesia é a mais imponderável das criações do espírito humano. É fogo e fumaça. Grito e silêncio. Passatempo e sacramento. Solidão e intercambio. Caminho solitário que cruza com o caminho de todos. E todos nós percebemos, intuímos e sabemos --seja aqui no Brasil, ou seja lá no Iraque ou na Venezuela, na Bolívia ou em Cuba --que a poesia é um desafio à razão. Talvez porque ela, poesia, seja efetivamente a única razão possível. É um paradoxo, é claro. Mas quando se trata de poesia é necessário estar aberto a um infindável número de questões complexas e absurdas. Afinal, como é que uma coisa que não serve para nada, ninguém paga aluguel com palavras e nem faz crediário com poemas, pode ser tão necessária e indispensável à vida humana? Como o próprio Bell já disse, em várias oportunidades: não reis, cientistas, chefes, presidentes, deuses: ninguém vive sem a flor e sem o amor. E nós acrescentamos : existe algum amor prosaico? Existe algum amor que não caminha de mãos dadas com a poesia? Claro que todos nós somos poetas de algum jeito. Ou em algum período de nossas vidas. Seja como simples leitores –recriando o poema. Seja até mesmo como fazedores de versos, em geral, confessionais e amorosos que iluminam uma determinada época de nossas vidas. Faz parte do meu repertório de crenças achar que nenhum ser humano vive sem poesia. Ela é uma necessidade concreta de todos nós. Ela é a mais antiga e primitiva formulação de qualquer experiência vivida. Acho que a poesia serve para expressar o espanto diante do fato novo ou da experiência nova que rompe ou irrompe subitamente o tecido da realidade. Ela serve para quebrar o pote e revirar a ponte. O poeta não quer dizer: ele diz. E o poema não explica e nem representa coisa alguma: ele apenas apresenta. Ou, como afirma, certeira e poeticamente Octávio Paz: a poesia coloca o homem fora de si e, simultaneamente, o faz regressar ao seu ser original: volta-o para si. E foi voltado para si mesmo que Bell resolveu sair de Timbó, ir para o Rio de Janeiro servir o Exército(1958-1959) e ingressar no curso de Ciências Sociais da UFR. Desistiu da faculdade e voltou para Timbó(1960) onde escreveu para jornais e revistas catarinenses. Logo depois deixou de novo a casa dos pais em Timbó e veio para São Paulo (62). Aqui, aos 24 anos, publicou Os Postumos e as Profecias e dois anos depois (1964), criou a Catequese Poética, movimento de divulgação da poesia junto aos mais variados públicos. Nesse sentido, a Catequese Poética é considerada um marco importante. Pois foi a partir dela que a poesia finalmente saiu das gavetas , tornando-se mais acessível através de apresentações públicas, declamações, conferências e debates. Quem não se lembra de uma canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, NOS BAILES DA VIDA? Em determinado trecho Milton cantava Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão Todo artista tem de ir aonde o povo está. Essa canção fez enorme sucesso nos anos 80. Só que quase vinte anos antes, o Bell já percebia que esse seria o melhor caminho para reconduzir o poema e o poeta aos limites mais amplos e democráticos da praça, da rua e da comunidade. E é preciso ressaltar que antes da Catequese Poética inexistia a idéia da arte em espaço público. E foi por influência desse movimento que o espaço público passou a ser utilizado para leitura de poemas, para concertos, exposições, feiras de criatividade e outras manifestações similares. Até mesmo o Teatro de Rua surgiu depois. (segundo afirmação de Pola Vartuck no Estadão) Outros poetas--caso de Alvaro Alves de Faria que publicou e lançou o livro Sermão do Viaduto com recital em pleno viaduto do Chá em 64--Eduardo Alves da Costa, Cláudio Willer, Roberto Piva, Carlos Soulié do Amaral, etc -- também buscaram uma maior aproximação com o povo, utilizando-se de leituras públicas. Na verdade, esse traço uniu a todos os poetas da geração 60. E Lindolf Bell , que dedicou sua vida inteira à Catequese Poética, tanto no Brasil como no exterior, é um dos mais legítimos representantes dessa geração inquieta, incentivadora da poesia oralizada e lida em praças,ruas,viadutos,teatros, escolas, livrarias,boates, clubes, bares e outros espaços públicos. A propósito, surrupiei um registro do poeta Paulo Leminski a respeito do Bell e de suas leituras poéticas. Ele diz textualmente o seguinte:“Nunca vi ninguém dizer poemas tão bem, com tanta intensidade, tanta garra, tanto domínio de voz, do gesto e do sentido.” Comigo aconteceu a mesma coisa. Lembro da primeira vez que assisti ao Bell. Foi no Teatro de Arena, provavelmente em 62--e me marcou profundamente. Nunca havia presenciado nada semelhante. Aquilo era algo ainda inusitado, singular, único. Aquele jovem poeta(que mais tarde se tornaria meu irmão e me ensinaria que ser amigo é a linguagem extrema) parecia um Evtuchenko brasileiro. Tinha uma figura impressionante. Era alto, olhos azuis, cabelos loiros e lisos e se projetava com uma força e uma originalidade fora do comum. Essas apresentações do Bell foram um marco na minha vida pessoal. E na história do poema sendo reconduzido aos espaços mais amplos e respiráveis da oralidade. Eu disse reconduzido porque como todos sabem a cultura oral antecede sempre a cultura escrita. Os textos do Antigo Testamento, por exemplo, foram primeiro ditos e só depois escritos. O mesmo aconteceu com Sócrates,--não o excelente jogador do timão--mas o filósofo grego, que nunca escreveu nada e falava muito—sobre questões impertinentes que desenvolviam o sentido crítico e criativo. E por não abrir mão de seus princípios e convicções, foi acusado de corromper a juventude e condenado à morte. Claro que ninguém aqui está a fim de beber cicuta. Mas todos nós ainda alimentamos a idéia de que o escrito é superior ao oral. E de que o trabalho manual é inferior ao trabalho intelectual. Por isso a disparidade de salários e a absurda desigualdade social. Mas isso faz parte da nossa herança colonial. Portugal via no Brasil uma espécie de despensa onde o único interesse era a retirada de riquezas e matérias-primas. A criação de uma cultura genuinamente brasileira, era perigosa aos interesses portugueses. Daí o fato de as elites brasileiras ainda possuírem horror ao mundo real, imediato, próximo. E, para finalizar, lanço este enigma proposto pelo educador e escritor Rubem Alves: As palavras são sempre expressões de uma ausência. Se as palavras significassem apenas o presente não seria necessário falar—bastaria usar o dedo e apontar. Pequena seleção de textos de Linfolf Bell. “Sem atestados de existência ou distinção de classe, vou à deriva; não faço restrições à Vida.” Meu coração é um prisma. Eu sou o que constrói porque é mais difícil. Eu sou o que não é contra mas o que se impõe. Eu sou o que quando destrói, destrói com ternura e quando arranca, arranca até a raiz e põe a semente no lugar.” “Convirá tantas vezes morrer, tantas vezes fluir, tantas vezes amar, tantas vezes viver com a vida entre os dentes como um sabre? Convirá crescer para a possibilidade de sermos podados? Convirá a pungência das horas amargas, das horas comuns? Assim nos conviremos, cheios de arestas e dilemas. Nunca mais o fingir para caber no porto.” “Ser amigo é conferir um mundo interior de possibilidades. Ser amigo é a linguagem extrema.” “Vamos inventar-nos, sim, como nunca havíamos sido inventados, em nenhuma raça, em nenhum orgasmo, em nenhum amor.” “Tua solidão é a solidão do mundo: alegra-te. Sagra o coração com folhas de louro e cinzas claras da infância.” “Sem saber, tudo te pertence sem saber: o favo solitário cuja doçura se funde à resina do galho que o suporta; os dias fincados como estacas um ao lado do outro.” “Oh como dar mãos a quem não tem mãos de dar.” “Não reis, cientistas, chefes, presidentes, deuses: ninguém vive sem a flor e sem o amor.” “ E nós, os de calças-curtas, sequer fazemos a ciranda do protesto. Parecemos velhas atrás de vidraças olhando tempestades. E quando tudo passa como num parto sem criança caímos de bruços -- nós os machos, nós os puros, nós os anjos, nós os do reino dos céus que apenas sabemos dizer: graças a Deus, graças a Deus.” “Nada se converte fora de si, apesar dos deuses. E não existe exoneração, existe vocação.” “Sempre há duas solidões que se aguardam. Por isso quero estar junto como raiz e tronco.” “Oh mãe, arca primeira do corpo, primeiro chão, primeira lasca do tronco abatido a machado.” “Viver é campo de passagem. Tenho sempre um tempo de transição.” “Ainda nesta noite ainda cometeremos o milagre.” “Oh Pai, núcleo de ternura. Quando voltarás à casa de onde nos legaste para teu legado?” “Não é a palavra fácil que procuro. Nem a difícil sentença. Procuro a palavra fóssil. A palavra antes da palavra.” “Amada, que tempo nos teve, que tempo nos houve, que tempo deteve aquelas águas que nos alagaram no largo amado de nosso tempo amado...” “Eu te aguardo com a lenha de meu sangue e o sangue de meus dias para sempre --para sempre sangue de meus dias.” “Deixarei por herança não o poema, mas o corpo repartido na viagem inconclusa.” “Porque o minifundio se faz na terra da palavra. Enterrem-me na palavra.” VEJA O DOCUMENTÁRIO QUE FOI AO AR NA RBS TV Disponibilizo ao leitor, o link do documentário feito sobre o poeta catarinense Lindolf Bell. Criador do movimento Catequese Poética, logo após o golpe de 64, Bell conseguiu levar a poesia ao grande público por meio de leitura de poemas em lugares previsíveis e imprevisíveis, como boates, colégios, livrarias, praças, teatros, faculdades, clubes,etc. Péricles Prade, poeta e amigo de infância, dá depoimento e fala coisas definitivas sobre a poesia e contextualiza bem o poeta e a criatura. A Rafaela, filha e herdeira de tantos traços profundos do pai, diz coisas incríveis. E fala um poema que arranca lágrimas. Dê uma espiada. É só clicar no link http://lindolfbell.blogspot.com/ ALCIDES BUSS TAMBÉM HOMENAGEIA LINDOLF BELL O poeta catarinense Alcides Buss foi muito amigo de Lindolf Bell. E como o próprio Bell, Buss desempenhou papel importante, na década de 70, dentro da cultura barriga verde: foi diretor de cultura da prefeitura de Joinville. Nessa época, promoveu um trabalho de resgate da cultura popular e de popularização das artes em geral, que ficou conhecido em todo o Brasil. Concertos, recitais eruditos e espetáculos de dança passaram a ser levados a lugares como praças públicas, escolas e igrejas. Exposições artísticas circulavam, de forma itinerante, nos bairros da cidade. E a literatura, especialmente a poesia, foi às ruas através de varais literários. São marcas da sua gestão: a criação da hoje tradicional Feira de Arte e Artesanato, a implantação do Museu de Arte, a realização de concursos de jardins nas residências e fábricas, e a instalação da Escola de Dança, semente do que se transformou no maior festival de dança da América Latina. Alcides Buss já presidiu a União Brasileira de Escritores de Santa Catarina no período 1997-1999. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2000 com o livro Cinza de Fênix e três elegias (Editora Insular, 1999). Em 2002, publicou pela Editora da UFSC, o livro Contemplação do amor – 30 anos de poesia escolhida. Seu livro mais recente é Olhar a vida (Editora Insular, 2007). Atualmente, Alcides Buss é diretor de difusão editorial da Associação Brasileira de Editoras Universitárias e coordena o Círculo de Leitura de Florianópolis. Buss enviou-me este poema e autorizou-me a publicá-lo aqui.O que faço com a maior alegria e prazer. IRMÃOS, OU MAIS Para Lindolf Bell Me chamavas de irmão e eu te dizia: amigo velho! Trazias o vale à flor-da-pele como se fosse, ele, o lugar das palavras e das urgências da vida. Eu te dizia: essa linguagem, essa sintaxe de rios e de pedras entorta o coração! Tu me vinhas com a dicção cortante, um poder de esculpir no ar verdades momentâneas. Às vezes, em lugares diversos, trocavam nossos nomes. Nossa! Troçávamos disso como se fosse um sintoma, não mais, de arqueologias banais. Alcides Buss Publicado por Rubens Jardim em 10/08/2009 às 11h13
![]() 29/07/2009 18h35
POESIA GANHA DESTAQUE NA PROGRAMAÇÃO DE AGOSTO DO LUGAR PANTEMPORÂNEO
Dando prosseguimento a uma série de ENCONTROS com destacadas personalidades da vida cultural brasileira, o Lugar Pantemporâneo (Avenida 9 de julho, 3.653 - Jardins - São Paulo - SP). realizará no próximo sábado, dia 1 de agosto de 2009, às 14h30, encontro com o poeta e escritor João de Jesus Paes Loureiro. O tema a ser abordado: Os Processos Atuais da Produção Poética. Paes Loureiro é mestre em teoria literária e semiologia, pela PUC de Campinas e doutor em sociologia da cultura pela Sorbonne, Paris. A partir de 1983 exerceu as funções de Secretário Municipal de Educação e Cultura de Belém, Superintendente da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, Secretário de Cultura do Pará, Secretário de Educação do Pará e, atualmente, Presidente ( e criador ) do Instituto de Artes do Pará. De 1964 até 1976, em decorrência de sua poesia, militância política e idéias democráticas, foi perseguido e várias vezes preso pela ditadura militar, sofrendo torturas, graves perseguições e privações de oportunidades profissionais. A cada Encontro, um convidado homenageado discorrerá sobre assunto previamente anunciado e, na seqüência, será iniciada uma "conversa organizada", quando responderá a perguntas feitas pelos presentes, seja sobre o tema de abertura, seja sobre o conjunto de sua obra. Quando se tratar de um poeta ou escritor, serão lidos alguns de seus textos e, sempre que possível, serão dados depoimentos sobre a produção do convidado. Os outros encontros marcados para o mês de agosto: 8 de agosto de 2009 - Rubens Jardim (poeta e jornalista) - Lembrança de Lindolf Bell - e Péricles Prade (poeta, contista e organizador do livro "Melhores Poemas de Lindolf Bell") - Um Depoimento sobre Lindolf Bell. Na ocasião, diversos poetas lerão poemas de Lindolf Bell e acontecerá o lançamento do livro com seus Melhores Poemas, editado pela Global Editora; 15 de agosto de 2009 - Antonio Dias Neto (arquiteto e professor) - Arquitetura versus Espaços Expositivos; 22 de agosto de 2009 - Claudio Willer (poeta, ensaísta e tradutor) - Geração Beat e Mística da Transgressão; 29 de agosto de 2009 - Oscar D'Ambrosio (crítico de arte e de literatura) - Conexões Imagéticas Vocabulares (Inquietações Fundamentais na Arte de todas as Épocas, por meio da Pintura e da Narrativa, a partir de doze Quadros e de doze Aberturas de Romances livremente Entrelaçados); 12 de setembro de 2009 - Glauco Mattoso (poeta) - A Poesia como Sina. Compareça, prestigie e ajude a divulgar. A propósito, já está ativado o site do Lugar Pantemporâneo: www.pantemporaneo.com.br onde se encontram informações diversas, inclusive imagens das exposições atuais. Visite-o e, tendo sugestões ou reparos a fazer, colabore conosco, indicando-os. O Lugar Pantemporâneo conta com estacionamento terceirizado, no subsolo (1ª hora - R$6,00; demais, por hora - R$ 1,00) Publicado por Rubens Jardim em 29/07/2009 às 18h35
![]() 17/07/2009 16h47
DUVIDAR DA MORTE.COMO QUEM A VISSE.BEIJAR TEU ROSTO.COMO SE EU NÃO EXISTISSE.
“A imagem poética ilumina com tal luz a consciência, que é vão procurar-lhe antecedentes inconscientes. Pelo menos, a fenomenologia tem boas razões para tomar a imagem poética em seu próprio ser, em ruptura com um ser antecedente, como uma conquista positiva da palavra. A poesia é um dos destinos da palavra. De uma palavra que não se limita a exprimir idéias ou sensações, mas que tenta ter um futuro. Dir-se-ia que a imagem poética, em sua novidade, abre um porvir da linguagem.” É com esta preciosidade escrita por Bachelard, filósofo da ciência e da poesia, que inicio a apresentação deste jovem e promissor poeta: Rodrigo Petronio. Com apenas 34 anos, ele já publicou História Natural (São Paulo,2000), Assinatura do Sol(Lisboa,2005), Pedra de Luz (São Paulo,2005), e este excelente e premiado Venho de um País Selvagem (2009) –um país definitivamente poético e certamente não contaminado pela prosa, como assinala Alfredo Fressia, poeta e tradudor uruguaio na apresentação do livro. A poesia de Rodrigo é a poesia de um poeta inspirado e visionário. Seus poemas estão filiados à vertente órfica aprofundada e renovada por Rainer Maria Rilke. Mas como ele mesmo diz, falando de suas predileções, existem três famílias de poetas admiráveis: os da Iniciação, Rilke acima de tudo. Depois os poetas da Terra: Saint-John Perse, Rimbaud. Em seguida, os poetas do Negativo: Pessoa, Celan, Trakl. A minha impressão é de que toda poesia é uma viagem ao desconhecido. Por isso, suponho que o sentido poético está, quase sempre, muito próximo do sentido místico. Acho que, através das palavras, o poeta procura expressar uma relação direta e íntima com tudo aquilo que é pessoal, desconhecido e misterioso. E isso mostra forte semelhança ao procedimento de um místico, que busca a comunhão — com a verdade ou com a divindade — de um modo também direto, concreto e íntimo. Aliás, para clarear um pouco mais a expressão desse pensamento, convoco as palavras do poeta alemão Novalis. Ele dizia que a poesia é a representação da alma, representação do mundo interior em sua totalidade. O sentido poético representa o irrepresentável. Ele vê o invisível, sente o insensível. O poeta é, ao pé da letra, sujeito e objeto ao mesmo tempo, alma e universo. Ou seja: a poesia é um imenso paradoxo. Mas antes de adentrarmos aos poemas de Rodrigo, gostaria de relacionar alguns versos que me impressionaram bastante. Eu sou o Homem. E agora me ajoelho contrito ante o sol negro em minha prece; Não encontramos o milagre no poço; A perfeição suja toda a beleza com seus pés gelados; Duvidar da morte.Como quem a visse. Beijar teu rosto. Como se eu não existisse; A morte me inaugura na semente; Fora do teatro um deus me espera; O que colho pode vir de uma água mais antiga; Morro. Eterno desconhecido.Eternamente Outro; O lírio desposa o besouro e o renega; Sou pobre.Nada tenho além da alma; Estou além do que penso e aquém do que sinto; Deus só nasce quando perde o centro;Hoje tenho sua face: fonte viva retirada de uma taça; Só os erros inscrevem um rosto humano no espelho; Anoitecer a foice que só quer mostrar seu brilho; Isto é o poema, silêncio rasgado pelo murmúrio das vozes mais antigas; A poesia: morte na luz; Tudo expira em nós: instante e estrela. Império e hera; Poderíamos ter sido apenas duas crianças em uma esquina. ANTÍTESE O poema me espera, fora de mim, Para que eu me realize nele. A sua falta de essência me completa, E o que nele sobra me extravasa. Transbordo em seu sinal de menos: Sua ausência de ser é minha casa. Sustenho seu corpo, sem mistério. Adentro seu espaço, sem pegadas. Encontro-o quando perco o centro. Menor que a parte, ele não me abarca. Maior que o todo, ele é meu avesso. Não é o mundo o que ele me revela. Não é a mim mesmo que nele procuro. Não é a poesia o que ele desperta. Mas o hiato que vai da idéia à fala Onde o coração bate mais livre. Mergulhado na matéria mais precária, Pulsa em nós ao ritmo da estrela Tanto mais imortal em quanto vive, Eternidade da luz que se apaga. Isento da palavra que o aprisiona, Alheio ao conceito que o mutila, Imerso em cada coisa que o transcende, Mergulhado no mundo sem limite. Vou ao poema, retorno ao nada: A voz me liberta de minha alma E assim eu sou o Outro que me habita. ASTARTE Para Dora Ferreira da Silva In memoriam O fio se rompe um deus corta os laços Que te prendiam às limalhas da terra E ancoravam a noite em sua imobilidade Sabes flutuar porque já cantas Pelos dias do cristal a voz dos galhos O frio sentido agora seus estalos frescos O canto molhado das notas desce do telhado E se levanta com tuas asas O voo certo da ave migradora Que retorna feliz à eternidade Pode vir a luz Com suas setas delgadas e o orvalho incontinenti Rosas sobre as omoplatas da deusa sonhadora Pantomima sem máscara que nos abençoa Pode vir a noite dos tempos Suave intrusa de nosso cansaço Porque já não tens lastro com a sombra E o vaso agora repousa poroso solitário Se mistura impregna é todo espaço Passos de água no interior da água Gestos de ar no interior do vento Tecidos cujos nós são nossos passos Imagens que nos sonham por dentro Pura transformação Da alma exterior que o coração prepara E nada mais te ampara sopro nuvem nenhum elemento Compõe o corpo de baile jaz sem centro E nada mais explica a matéria de sonho De que somos feitos Patmos Cnossos Delfos Epidauro Tocas traduz e te confundes com uma alma etrusca E te são alheios todos monumentos Não há limite certo vês tudo pleno Desde a manhã do mundo que tua voz prepara Se nos encontramos retornamos a teu seio Se nos tocamos atravessamos tua pele Se nos afastamos vamos ao teu encontro Se nos ignoramos és o nosso espelho Nada mais separa porque tudo adere Mas não somos lúcidos como os animais que cantam Porque antes de nós já exististe Foste o espírito que cai dentro da matéria O primeiro sopro do primeiro poeta O poema escrito na primeira pedra O primeiro respiro da flauta emancipada O que para traduzir a luz recorre à vértebra O poço que se atravessa é a palavra poço E somos esta floresta quando passamos por ela Música da qual somos meros mensageiros Espírito de magma talhado em ágata Água primordial que todo rio espera E todo corpo encontra quando se liberta Aqui ali alhures sempre o tempo queima O combustível de seus dias e seus mortos O mundo inaugura suas leis casas celeiros Mas nos contentamos com nossa luz difusa Clareira em meio à névoa e infensa à sombra coletiva Abismo do mundo: o dia leve eclipsa Tebas Alexandria Creta Chipre Metamorfose de rosas sob os pés de um anjo Porção que sobra ao ser e a seu contrário Conjunção de nuvens rosto vascular alheio ao espetáculo Olhas: inscreves tua sombra nestas heras Recolhes a água mais antiga em tua hídria Habitas essas terras com tua vida Obra maior que nascer não foi criada A maior de todas obras se respira Teus olhos grandes e redondos Abrem-se atrás de arbustos ervas cinamomos Deusa das transformações simples Águas vestidas de crisântemos A fonte rouca canta a tradução da lua em arte Não foste porque a aurora vacila E todas as formas esperam ser por ti reformuladas Não partiste Porque a rosa persiste alvorecente E nenhuma carta foi aberta E nenhuma palavra foi dita E nenhum livro foi lido E nenhuma tinta foi inventada E não escreveste nenhum poema Na superfície da terra com tuas asas Aqui nascemos para a eterna novidade Aqui celebramos a terra e a casa da lua Há de se recolher em teu jardim Alheia ao murmúrio soprado nos tijolos Terracota de Micenas onde os deuses dormem Doces muros de Tiro onde os santos se apoiam Janelas de Mitra por onde nossas almas olham Sêmele citarista desperta as fontes Cibele ática de pequena proporção Ártemis do bosque fecundidade e zelo Astarte que precede a terra Vida que mana de seus úberes e veios Pacto natural com tudo o que existe Selo que se rompe nascimento supremo Como o primeiro beijo Deméter te convoca para o seu reino Para que possamos ver o limite de nós mesmos Para que o trigo possa nascer em meio ao feno Para colher o mel o almíscar a mirra o ouro Não quebramos o azul do céu Não temos raiva nesta hora de exílio Não marchamos contra o muro Não manchamos o rosto do inimigo com o perdão Não acariciamos o filho de nossa malícia Não conspurcamos este fruto com o ressentimento O punho em riste contra o tempo que nos aniquila As aves é que são esculpidas pela brisa E por nossa razão mortal em seu consentimento Dorme hora morta Vocifera litania dos meus deuses provisórios Porque o desespero há de ser afirmativo E toda a chaga é em si a redenção de toda ferida Arde dorso vento música silêncio de suave musculatura Queima mesa cavalo crina azul do tempo esculpido entre urtigas Sopra mundo natural estrela anfíbia repasto de meu amargo pensamento Alquimia feliz de todos seres vivos em uma só forma de vida Brame constelação Pulsa contra os vivos que vegetam sem saída Sabes te visitei em uma tarde de maio A porta entreaberta as ervas cresciam Cabelos brotavam da lareira como saibros E eras uma palavra escrita em sangue: imortalidade Nesse dia Cena derradeira do mundo antes do fio de Átropos Onde a alma anteviu sua viagem Não interrompi o curso da semente Não interroguei o motivo do rio Não invoquei a razão para explicar a forma da Terra e a pedra senciente Porque sei que estás aqui para sempre ali agora além Entre a hipótese da nuvem e o segredo do ventre Publicado por Rubens Jardim em 17/07/2009 às 16h47
|