Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Diário
19/06/2009 10h45
POESIA PARA MIM NUNCA FOI UNIVERSO PARALELO, O LADO DE LÁ; É SÓ A MANEIRA QUE ENCONTREI DE COMBATER A DISPERSÃO
Ele já se declarou místico por hereditariedade, humorista por ironia, sádico por desabafo e poeta por angústia constante. Sabe de cor o Poema em Linha Reta, do Álvaro de Campos e a Ode ao Burguês do Mário de Andrade. Escreveu A Poliflauta de Bartolo(1960), O Signo e a Aparição(1961), A Tarde e o Tempo(1964-prêmio Governador do Estado de São Paulo), Carta de Marear(1966 prêmio Governador do Estado de São Paulo), Poemas Reunidos(1974 - prêmio da APCA), Círculo Imperfeito(1978 - prêmio Gregório de Mattos Guerra), Subsolo(1989 - prêmio APCA), Lição de Casa & Poemas Anteriores (1998) e Noite Nula (2008). Estamos falando de Carlos Felipe Moisés, poeta da chamada Geração 60, professor universitário de literatura, crítico literário e tradutor de livros inesquecíveis como O Poder do Mito(de Joseph Campbell e Bill Moyers) e Tudo o que é sólido desmancha no ar (de Marshall Berman).
Conheço Carlos Felipe Moisés desde os anos 60. Mas nunca estivemos muito próximos. Só recentemente é que nos tornamos amigos. O que me honra e estimula muito. Pois Carlos é daquelas pessoas generosas e sérias que possuem um profundo interesse e entendimento do fenômeno poético—mas não abdica do senso de humor. Além disso, ocupa, com humildade e serenidade, um lugar de importância e destaque no quadro da poesia brasileira contemporânea.
Sobre o seu trabalho poético já se manifestaram escritores e poetas significativos como José Paulo Paes, Wilson Martins, Álvaro Alves de Faria, Moacir Amâncio, Cláudio Willer, Antonio D’Elia, Álvaro Cardoso Gomes, Anderson Braga Horta e outros. É considerado um expert em Fernando Pessoa. E escreveu um livro, Poesia não é difícil, que é simplesmente indispensável e magnífico: desmonta preconceitos e ilumina o fenômeno poético, falando dessa coisa viva, revolucionária e apaixonante que é a poesia. Com vocês, a palavra expressa e expressiva do belo poeta que é Carlos Felipe Moisés.

Cavalo alado

Foi como ervas e arrancaram-no.
Hoje pasta absorto em campo sombrio
(perdido vôo, exílio nefasto) e
lambe cicatrizes de ferida nenhuma.
 

Às vezes relincha, reclina
o dorso à procura de um rasto,
resto de fome clandestina,
mas não rasteja: ergue a fronte
e sopra dardos de fogo no horizonte.
 

O pouco do nada que lhe coube
é muito. O peito chora sem lágrimas
enquanto a cauda e a mansa crina
ondulam (brisa leve, pranto
alheio), rolando nas dunas
e nas ervas que foi, entre urzes.
 

Arrancaram-no mal raiou a madrugada.
Hoje pasta absorto entre sombras,
se alimenta da noite e sabe
que eterno dura. Mais nada.
 

(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
 
Mário de Andrade em San Francisco

para Roberto Piva & Cláudio Willer
 
1.

Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro
-- São Paulo, comoção da minha vida --
na voz de Mário, teu poeta,
subindo e descendo as ladeiras de angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.

Dez horas da noite.
Meus pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a medina de Marraquech,
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square, no coração de San Francisco,
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a rua Lopes Chaves em noite de crimes.

Dez horas da noite.
A culpa do insofrido, onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou -- e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate,
banhada em luar,
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.

Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente, onde a Primavera existe e se ergue do mar todo ano, ofertando presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à Voluntários da Pátria
ou às madrugadas arrepiadas de frio do largo de São Bento
mas aqui os bondes arrastam nossa aflição Powell St. acima, depois pelo
Embarcadero até o Fisherman’s Wharf e por fim nos despejam
na Ghirardelli Square,
de onde avistamos nossos sonhos,
catedrais ancoradas no cais impossível,
e a Primavera mais terrível
cobre de flores nossos ombros pensos --
arlequinal!
comoção de nossas vidas!

2.

A noite agora não é mais criança.
A cidade assolada em neblina acolhe os deuses da madrugada e nos vê
passar.
Não é nossa Londres das neblinas finas, onde as rolas da Normal esvoaçam
entre os dedos da garoa,
mas é a cidade que nos abrigou com sua Primavera incandescente e guiou
nossa vagabundagem por labirintos de espanto, numa noite iluminada pelo desespero de náufragos e rainhas exiladas.
Foi aqui,
naquele bar imundo da O’Farrell quase esquina com a Market, em meio ao
cheiro azedo e oleoso de tantas noites mal-dormidas, depois da
milésima cerveja, depois de esgotarmos todos os versos bem
amados, que sabíamos de cor,
foi aqui,
naquele canto escuro que Allen Ginsberg it’s too long that I have been alone, it’s too long foi-se chegando irritado e implorou come Poet, shut up & eat my word e você o embalou no colo e depois sonhou que tinha
vomitado a cidade de San Francisco no oceano azul.
Foi aqui
que Leadbelly, o negro desdentado, sentou-se à nossa mesa e nos ensinou a chorar em uníssono com seu banjo prodigioso e você lhe ensi-
nou os passos da dança que todos sabíamos e ele então, com
outro brilho nos olhos, voltou a nos chamar irmãos e nos desejou alegria e você o abençoou.

Depois,
arrancamos de cada rua os fantasmas que ali se abrigavam e derruba-mos todas as pedras que se acumularam no caminho
e as mãos sangradas e famintas finalmente descobrimos que San Francisco
(Alexandria, você sabe, a Tebas impossível que nunca pudemos
pisar) é uma cidade viúva de segredos e os fantas-mas que aí
avistamos são os nossos próprios fantasmas, para sempre per-
didos

-- como teu coração paulistano,
Mário,
que um dia você enterrou no Pátio do Colégio
e ali estava, quente e vivo,
entre as ruínas da O’Farrell quase esquina com a Market,
dedilhando um blues sem esperança
-- como tua língua,
que você um dia guardou no alto do Ipiranga,
para cantar a liberdade, saudade,
mas esta já não foi possível encontrar mais, não.
Por isso também nos perdemos e nos achamos,
comoção de nossas vidas!

3.

Depois
rolamos nosso sono em delírio, pelas ruas,
e em nossos olhos ardia
a lembrança daquilo que nenhum de nós sabia.
Depois,
diante do cais, em Lands End, os braços abertos em cruz,
você gritou para o abismo em frente,
ou sussurrou para as almas encolhidas de medo:
-- A noite vem do mar cheirando a cravo!
E por um instante
o baiano poeta Sosígenes bailou entre nós
naquela madrugada em San Francisco,
mas logo regressou a seus castelos em Belmonte.
No fundo das águas havia dragões e havia sereias
e ao longe, e-eh-ô!, Boi Paciência e o Irmão Pequeno.
Cada rua era um rio que o mar desenhara na terra
e a lua enorme
uma ânfora plantada na torre mais alta da Golden Gate.

-- Garoa do meu São Paulo,
garoa sai dos meus olhos!
E a garoa caía em San Francisco
ou em Londres das neblinas finas.
Depois
rolamos nosso sono em delírio pela Mission St., como um rio,
de leste a oeste cruzamos toda a cidade,
à procura do sol,
guiados pelo cheiro do mar,
mas o cheiro do mar nos levou para longe do mar.
-- Água do meu Tietê,
onde me queres levar?
Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar...
Nessas águas Boi Paciência se afogou,
que o peito das águas tudo soverteu.

Você queria um porto seguro na terra dos homens,
por isso perguntava pela culpa do insofrido
e suplicava:
-- Garoa, sai dos meus olhos!
Por isso
você desceu ao léu da corrente do rio
e entrou na terra dos homens ao coro das quatro estações
mas não me ensinou o caminho
ou não aprendi a lição.

Ao regressar,
teus olhos eram só preguiça e mágoa,
teus olhos bailavam no ar,
o ar de mansa maresia dos mares de San Francisco,
teus olhos bailavam no ar a grandeza de todas as glórias
e teu coração entoava:
-- Estou pequeno, inútil,
bicho da terra derrotado,
e já nem sei se vale a pena
cantar São Paulo na lida

Você recusou a Paciência (Boi morto) e a esperança
e em teus olhos as águas murmuravam hostis,
levando as auroras represadas
para o peito do sofrimento dos homens.
Nem eram tantas essas águas, nem tamanhas.
Era uma lágrima, apenas, uma lágrima
das águas turvas do nosso Tietê, límpida
lágrima em que brilhava um céu de chumbo,
arlequinal!
comoção de nossas vidas!

4.

Quatro horas da manhã.
Caminhamos em silêncio pelo longo e frio corredor infinito da Powell St.
à espera do primeiro carro do subway que nos levará de volta a Berkeley e à
Telegraph Avenue,
onde a Revolução é um estado de espírito permanente e, qual Oroboros, do
seu próprio tédio se alimenta,
onde até o breakfast cheira a conspiração e onde os filhos dos hippies ven-
dem penduricalhos & melancolia e aceitam credit card.
Mas você sabe, Mário,
São Paulo também sempre foi berço de revoluções.

Quatro horas da manhã.
Deixamos para trás o cais e a noite negra
e em nossos ouvidos ecoa o grito de Álvaro de Campos:
-- Ó coisas navais! Meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!

Caminhamos em silêncio pela Powell St.
e você começa a saltar pela calçada
como se estivesse na avenida São João.
De repente,
o riso debochado
que brota dos teus e dos meus lábios
se espraia pelas ruas solitárias
e divide a madrugada.

Antes você perguntava pela culpa do insofrido
e se queixava:
-- Miséria, dolo, ferida,
isso é vida?
Agora teu coração secreto nos leva de volta
ao dia claro de onde viemos.

Quatro horas da manhã.
A maresia vem do cais distante
e se espreme entre os prédios altos
e arde cheia de aroma
no céu pesado de chumbo
-- entre essas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas,
como você costumava dizer da rua de São Bento.
Jamais
madrugada tão sombria,
jamais minha alma tão serena e vazia.

Quatro horas da manhã.
Caminhamos em silêncio pela Powell St.
e em algum lugar a Primavera nos aguarda
com dez mil milhões de rosas paulistanas.

No ar,
daquele banjo desdentado
o som já desfeito em penumbra
nos guia os passos
e somos duas crianças
balbuciando o rondó das tardanças.
E como sabe que vai morrer
daqui a um segundo
daqui a um verso
a noite mergulha em treva mais densa
(vingança!)
e em nosso olhar o dia todo se ilumina
em milhares de brilhos vidrilhos,
arlequinal!
comoção de nossas vidas!

(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
 

Modelagem

papel maché
argila
barro
massa
        modelar o quê?

modelar o ar,
cavar em torno
o oco sobrante
ao quase nada
de dentro:
             o já-não-mais
             do ainda-não.
Modelar o grito,
a água que escorre,
o brilho da estátua.

(o que não tem modelo
modelado está.)

As formas do branco

Caminho pela neve
e o mundo principia neste branco.
Tenho a verdade, sonho breve,
branco retido no branco.
 

Girassol amanhecido longe,
a verdade apareceu-me nesse branco.
Tempo devorado como carne, corpo ferido,
vermelho sobre o branco.
 

Os pássaros nascem nas nuvens,
azul distante.
Tinha a verdade, perdi-a:
branco escondido no branco.

(Urna diurna, in Poemas Reunidos, São Paulo, Cultrix, 1974)
 
Charlie Parker
 
1
Como vão as coisas, Charlie?
Como é que é, my friend Charlie? Ô-o!
Não foi assim que o nosso Jorge
Cantou? E você nem aí...Quando
Alguém chama: Charlie Charlie
Charlie, todos os Charles do mundo
Encolhem os ombros: não é comigo
Deve ser outro Charles qualquer.
Vai ver você tentava soprar
Três notas de uma vez (duas
Já era fácil, não era?)
E nem ouviu.
                     Vai ver
Não era mesmo como você
E não adianta insistir. Jorge
Bem que insistiu: take it easy
                  My brother Charlie,
Take it easy meu irmão de cor ô-ô!
Mas dá uma vontade danada
De gritar: oba oba oba Charlie!
Como vão as coisas, Charlie?
Mas eu sei que você não está
Nem aí...nem aí...
2
Como daquela vez em Toronto
Mil novecentos e cinqüenta e três:
Você se lembra? Nunca ninguém ouviu
Nada igual, nem no primeiro dia da criação,
Nem durante o dilúvio, nem quando a alegria
Passarinheira um dia pousou em sua mão.
 
Naquela noite ô-ô foram cinco dilúvios:
Você, outro Charles, o Mingus, Max,
O domador de baratas, Powel, o Bud
& o velho Dizz.
                        Dá para acreditar?
Vocês tinham visto passarinho azul
Naquela noite?
 
Max The Roach rola pelo despenhadeiro
E arranca árvores como quem despetala
Uma rosa. Bud salta e rodopia,
Colhe um punhado de estrelas,
Joga tudo aos pés da loira nervosa
E sorri.
            Você?
Nem aí...Você nem aí...
Mingus estilhaça os vitrais
De todas as catedrais
Do continente perdido
E você
           você nem aí...
Dizzie afrouxa a gola da camisa
E faz bater em revoada
O enxame de abutres guardado
No estojo do trompete, só para curtir
O olhar deslumbrado da loira nervosa.
E você?
Você desata o seu sopro: manada
De búfalos levíssimos que partem
Agoniados mar afora
No encalço da aurora.
 
Você se lembra, Charlie? Nunca
Ninguém ouviu nada igual. Foi
O oitavo dia da criação, dilúvio
De todos os dilúvios, no Massey Hall,
Toronto, Canadá: mil novecentos
E cinqüenta e tal.
 
Dizem(não sei) que naquela noite muitos
Homens abandonaram suas mulheres.
Dizem também que muitos homens
Voltaram às suas mulheres
                                          naquela noite.
Claro que você não lembra! Isso lá é coisa
Pra lembrar? Só se lembra quem não esteve lá.
Mas você estava, naquela noite, você estava lá,
Naquela noite mais clara que o dia,
Em Toronto, Canadá.
3
Agora o que eu queria mesmo saber
É essa história de bird:
                                  Charlie “Bird” Parker.
Me conte aí, Charlie, me conte essa história
Toda: Bird of Paradise. Young Bird, YardBird
Suíte ô-ô! Ornithology: não é? E não me esqueci
Do Rare Bird, do Bird’s Nest ah! The Birdland!
Mas isso é tudo, tudo mesmo?
                                                Ouvi dizer
Que essa passarada toda é pista falsa, nada
A ver: o pássaro que mora entre Charlie
E Parker é só o bluebird que um dia pousou
Em sua mão
Alegre
Triste
Folgado
Meio perdido
E em vez de ser livre escolheu ficar
Do seu lado (Charlie) o resto da vida,
Para ser mais livre ainda, junto de quem
Lhe desse o amor mais criança.
 
Diga que não, Charlie,
Diga que não...
 
Ouvi dizer que ele bateu as asas assustado
Quando soube que você, todo beleza, tinha
Acabado de estrear um lindo casacão
De madeira.
                   Ouvi dizer que ele foi atrás,
Cortejo todo, bicou muitas vezes o casacão
Inviolável, acompanhou aflito cada punhado
De terra, cada braçada de lágrimas,
                                                        Pediu
A cada um que lhe explicasse o que estava
Acontecendo
                     e quando todos se foram
começou a cantar a cantar a cantar
o mesmo fiozinho de voz, tão tênue,
mais forte que o aço, a mesma manada
de búfalos levíssimos que ele lhe ensinara.
(Ou foi você que lhe ensinou?)
Cantou cantou cantou ô-ô
Tarde noite madrugada afora
                   para anunciar
a aurora de todas as auroras.
 
Não é essa a história toda, Charlie?
 
Está bem, eu sei, não precisa dizer.
Não se preocupe também se alguém mais
Insistir em saber como vão as coisas ô-ô!
Como vão as coisas, Charlie.
                  Ninguém
quer se intrometer em nada não.
É só um jeito de dizer: obrigado irmão!
 
 


Publicado por Rubens Jardim em 19/06/2009 às 10h45
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
14/06/2009 15h12
AS INDECÊNCIAS QUE O CAPETALISMO PROMOVE SOB O DISFARCE DE DEMOCRACIA
Desde muito cedo, já na adolescência, as injustiças sociais provocavam minha revolta. Nunca consegui admitir a razão dos privilégios e a razão da miséria. Em épocas mais remotas até o mais ilustre dos impérios, o de Roma, foi construído nas pilhagens de mão de obra e de tesouros. Nenhum dos impérios antigos conseguiu transformar as técnicas de produção ou aumentar a produtividade. Ainda assim, todos eles fizeram progressos de ordem militar, administrativa, jurídica e artística.
É por essa e outras razões que jamais consegui entender –ou admitir – o transplante de valores herdados da monarquia. Se antes o negócio era ter sangue azul, hoje, apesar da revolução francesa e o estabelecimento de um novo código de valores, não há igualdade, fraternidade --e muito menos liberdade.
Em que pese todos os disfarces e ardis da chamada democracia burguesa, ainda é a classe dominante que dita todas as regras. E é ela que nos injeta o vírus da liberdade,essa idéia abstrata que ainda possui o poder e o fascínio de nos encantar. Mas vale descer dessa montanha mágica e fazer a pergunta correta: liberdade para quem?
Claro que podemos votar, possuímos o direito de ir e vir e de manifestar livremente nossas opiniões. Mas será que esses jargões tem alguma conexão com a realidade concreta? Ou serão apenas palavras mortas utilizadas, permanentemente, apenas para nos tornar um bando de cordeirinhos equivocados?
Não há dúvida que o fosso criado entre o castelo do senhor e a plebe ignara ainda encontra-se vivo – e foi progressivamente ampliado. Em Roma, havia o circo. Na corte francesa, os biscoitos. E atualmente são outras as migalhas que alimentam o nosso imaginário. A sociedade atual assegura, com sua letra morta, uma infinidade de direitos: direito ao trabalho, direito à educação, direito à saúde, direito à propriedade, enfim, direito a uma vida digna. Mas isso, via de regra, não sai do papel. Na vida real, são muito poucas as pessoas contempladas com essas garantias constitucionais. Algo muito semelhante ao que acontecia debaixo do período monárquico.
Mas para não situar essa questão em horizonte tão longínquo, vamos aproximar nossas lentes aos mais recentes episódios da crise internacional. Ela impôs perdas expressivas e impactou fortemente a área social com maior índice de desempregados e aumento das desigualdades. Aspecto curioso: o FMI e o Banco Mundial que nas crises anteriores apresentavam receitas, dizendo isso e aquilo, simplesmente ficaram em silêncio e desapareceram.
Aliás, para deixar de lado todas essas interpretações, vamos aos números que não podem ser manipulados e não deixam espaço para mentiras. A concentração de renda, por exemplo, continua a crescer: 1% da população detém 40% da riqueza total. E o quadro que escandalizou o mundo na década de 90 * não mudou em nada:.as três pessoas mais ricas do planeta continuam tendo riqueza superior ao produto bruto dos 48 países mais pobres, onde vivem cerca de 600 milhões de pessoas. E pouco mais de 250 pessoas, os verdadeiros bilionários, -----com ativos maiores de 1 bilhão de dólares-- possuem mais riqueza que os 40% da humanidade abaixo da linha da pobreza, perto de 2,5 bilhão de pessoas.
No Brasil, os meios de produção estão concentrados nas mãos de 6% da população; 20 mil famílias dominam o país; 11%da nossa população é analfabeta; os ricos não pagam impostos; a estrutura fundiária é pior do que a de 1950; os filhos de pobres só estudam quando trabalham; e só 30% dos 7 milhões de empregadas domésticas possuem carteira assinada.
 E, para finalizar, mais esta pérola da justiça social engendrada pelo capetalismo: os países mais ricos concentram 80% da riqueza do mundo, mas sua população representa apenas 20% da população mundial. Que tal?
 VIVA A LIBERDADE! VIVA A IGUALDADE! VIVA A FRATERNIDADE!
*PNUD,Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
 

Publicado por Rubens Jardim em 14/06/2009 às 15h12
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02/06/2009 11h30
ÁLVARO ALVES DE FARIA: UM POETA APAIXONADO PELA VIDA QUE SABE QUE A POESIA É SOLIDÃO E TROCA, PASSATEMPO E SACRAMENTO.
 
Os que não são jovens devem se lembrar dos conturbados anos 60: guerra do Vietnã, crise dos misseis em Cuba, construção do Muro de Berlim, renúncia de Jânio, golpe militar de 64, morte de Kennedy e do papa João XXIII. Paralelamente a esses acontecimentos, ocorria a primeira transmissão em cores da TV brasileira, o Brasil tornava-se bicampeão do mundo no Chile e o astronauta russo, Yuri Gagarin, dizia que a terra era azul.
É dentro desse quadro que a voz de um jovem poeta ganhou destaque e notoriedade: Álvaro Alves de Faria. Com o lançamento do livro, Sermão do Viaduto, longo poema discursivo e com linguagem bíblica, feito em pleno Viaduto do Chá em 1965, Álvaro conseguiu despertar a atenção da mídia e reunir praticamente quase todos os poetas da chamada geração 60 de São Paulo. Segundo depoimento dele mesmo, "realizei nesse mesmo local nove recitais públicos de poesia, para onde eu levava uma kombi, quatro alto-falantes e um microfone." Mas em 9 de agosto de 1966 esses recitais foram proibidos e acusados de subversivos.
Mas nem por isso o poeta Álvaro Alves de Faria deixou de publicar seus livros e de fazer a leitura de seus poemas em lugares públicos. Hoje, após 46 anos de militância poética, jornalística e literária, Álvaro é um dos poetas mais expressivos e atuantes da chamada Geração 60. E já recebeu os prêmios literários mais importantes do país. E sua obra, bastante diversificada, apresenta incursões pelo conto, romance, crítica literária, ensaio e teatro.
E sua Trajetória Poética, livro que reúne seus poemas desde o primeiro Noturno Maior(1963) até À Noite, os cavalos, ---mostra definitiva e claramente o fosso que separa um fazedor de versos e um verdadeiro poeta. Nesse livro, de 668 páginas que enfeixa toda a sua obra poética, Álvaro imprime o timbre inconfundível de sua voz. Desesperada e amarga muitas vezes, mas sempre corajosa, afinada e necessária. Afinal, como todo bom poeta, Álvaro Alves de Faria sabe que a poesia é uma arma carregada de futuro. É fogo e fumaça. Passatempo e sacramento. Punti luminosi. Triunfo e derrota. Porta e abismo. Grito e silêncio.Solidão e intercâmbio.

PRATICIDADE
Abro o guarda-chuva japonês
Cinza
Em cima da minha cabeça
E caminho em direção ao banco.

Pagarei minhas contas
Olharei os olhos vermelhos
Da moça do caixa
E observarei suas unhas claras.

Conversarei com outros clientes
Sobre a vida
E direi que o governo é culpado de tudo.

Nunca mais esquecerei
Esta mulher de boca acesa
Na fila
Atrás de mim.

Sairei depois à rua
E me sentirei um magnata
Fora do tempo.

Encontrarei à manhã
Vizinhos tristes
E direi palavras desnecessárias.

Enfim
Sou um homem prático.

Já posso matar-me sem remorso.

A CASA

1
A casa é o inverso
Do corpo
Onde moram desejos
Não pessoas.

A casa é uma caixa
Onde calam, pressentimentos
Passos quadros
Poltronas
Não silêncios.

2
Na casa moram
Pessoas antigas
Retratos olhares.
Não é como o corpo
A mente
A casa
Onde residem receios.

Não é a casa
Um único cômodo
Para única pessoa.
A casa não é apenas
A porta a janela.

3
A casa desmorona
Como se não fosse uma casa:
A casa é uma pessoa
Não estrutura.

A casa guarda
As sombras
Mais nada.

SINA
Assim a sina:
Passo que anda
E volta ao mesmo lugar

Cavalo que salta
Patas de fúria
Terra que cobre a cara
Faca de duas lâminas
Duas faces na mesma sala.

Como uma laranja
De gomos maduros:
Sumo e resumo de si.

Como não é:
O rosto oculto desfeito
Rio por dentro
Que não cessa
E não passa.

APARÊNCIA
Não é um dia
Este dia
Mas um instante.
Nada além
Nem aquém disso:
Um momento.

Não é uma noite
Esta noite
Mas um apelo.
Nada mais
Nem menos que isso:
Um pedido.

Não é o mundo
Este mundo
Mas sim ausência.

Nem isso nem aquilo:
Só aparência.

OFÍCIO
Que palavra não nasce
se morrer é todo instante
que palavra
por nascer comove e sente
o que se aguarda e não vem?

Sílaba no verso do espanto
o que se tenta descobrir
como se possível
ainda fosse
a poesia que se imagina?

Morta a poesia
não mais se saberá da vida
nem do homem
nem da mulher
nem de ti
que ainda guardas no bolso
essa estrela que caiu do céu.

Que ainda recolhes
as folhas junto à porta
todas as manhãs derradeiras
como se fosse sempre
a primeira vez.

O poema é tão pouco
que mal cabe na palavra.
Tão pouca a poesia
que mal se percebe.

Não cabe no bolso de meu paletó
o poema inútil deste momento
nem a escassa poesia
do início deste verso.

Toda poesia brasileira
guardo numa caixa de sapatos
e ainda sobra espaço
para as coisas que não desejo mais.

Publicado por Rubens Jardim em 02/06/2009 às 11h30
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19/05/2009 10h33
MANUEL BANDEIRA: UM MESTRE NA ESTRUTURAÇÃO DE TEMAS

Quase todos os jovens da minha época -- poetas ou não -- tiveram seus mitos poéticos. Entre eles pode-se destacar Manuel Bandeira, Drummmond, Vinícius e Fernando Pessoa. Estes dois últimos figuravam, para muitos, como o modelo ideal do poeta e da missão da poesia. Claro que eu não fugi à regra, embora incluísse nessa lista os nomes de Jorge de Lima e Rainer Maria Rilke.
É interessante recordar o papel que a poesia e esses poetas desempenharam na formação de toda uma geração nascida por aqui entre os anos 40 e 50. Lembro-me que Manuel Bandeira, por exemplo, com sua maestria verbal e seus temas cotidianos, sequestrou-me completamente. E seus versos ressoavam em minha mocidade: "a vida inteira que poderia ter sido e que não foi", "eu quero o lirismo difícil e pungente dos bêbados", "vou me embora pra Pasárgada","eu faço versos como quem morre","a paixão dos suicidas que se matam sem explicação", "Recife sem história nem literatura, Recife da minha infância"", "a única coisa a fazer é tocar um tango argentino".
Hoje, após trilhar por esta vereda durante mais de 40 anos, posso assegurar a permanência dessas vozes. Tanto é assim que já publiquei, neste espaço, seletas de versos de Drummond, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, Jorge de Lima, Octávio Paz, Maiacovsky, TS Eliot, entre outros. Mas até agora havia me esquecido exatamente dele, Manuel Bandeira --poeta que, como disse Otto Maria Carpeaux, deixou versos inesquecíveis gravados na memória da nação brasileira.

POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

DESENCANTO
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

O ÚLTIMO POEMA
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

 
A MORTE ABSOLUTA
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

ANDORINHA
Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

NEOLOGISMO
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternur mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

O BICHO
Vi ontem um bicho
Na imndícei do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

PNEUMOTÓRAX
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

PREPARAÇÃO PARA A MORTE
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
--Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Publicado por Rubens Jardim em 19/05/2009 às 10h33
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
28/04/2009 19h32
CARTA EM HOMENAGEM AOS COMBATENTES DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA

O Instituto Cervantes de São Paulo, situado na avenida Paulista, realizou neste mês de abril, uma série de eventos em comemoração aos 70 Anos da Guerra Civil Espanhola. No dia 1 --que marcou o fim desse conflito bélico de proporções alarmantes --foi inaugurada uma exposição de cartazes que seguiam os preceitos estéticos da arte vanguardista, em especial do construtivismo russo. A exposição era um verdadeiro grito na parede e mostrava a força e a sensibilidade dos artistas envolvidos. Houve também debates, mesas redondas e uma extensa programação de filmes e documentários. E no dia 23, encerrando a programação comemorativa, o Instituto Cervantes abriu suas portas aos poetas, escritores e artistas que puderam apresentar poemas, canções e videopoemas. Entre outros, participaram Alan Mills,(Guatemala) Nurit Kasztelán,(Argentina) Yaxkin Melchy, (México) , Hector Hernandez( Chile), Marília Gabriela, Alice Ruiz, Marcelino Freire,e Rubens Jardim. Na ocasião, li esta carta em homenagem aos combatentes da Guerra Civil Espanhola.


A uma milha de Huesca
Sopra o vento que vai roubar teu sonho
E tua luta.
Teu corpo será lançado em mais uma cova,
Mas a tua Carta do Campo de Batalha a Uma Milha de Huesca,
Ainda está aqui, viva, para provar que este espinho sangrento
jamais se apagará da consciência humana.

John Cornford tinha apenas 23 anos,
e vestia o uniforme das Brigadas Internacionais quando foi morto
A uma milha de Huesca.
Alguém poderia perguntar:
Mas o que faz um jovem poeta inglês
arriscar a vida nos campos de batalha da Espanha?

Claro que a verdadeira poesia não é adorno, distração,
ornamento interior.
A verdadeira poesia é luta
com a palavra,
com o caos primordial do Verbo,
com a tirania da falsa linguagem das palavras batidas e amassadas
contra a mesmice enganadora e as falas burocráticas

A verdadeira poesia é uma viagem ao desconhecido.

A verdadeira poesia é uma arma carregada de futuro.
É fogo e fumaça. Passatempo e sacramento. Punti luminosi.
Triunfo e derrota. Porta e abismo. Grito e silêncio.
Solidão e intercambio. Gosto de pão e gosto de sangue.
Caminho solitário que cruza com o caminho de todos.
A verdadeira poesia é sobretudo a tentativa desesperada
de devolver ao homem sua dignidade.
Por esse motivo é que um jovem poeta inglês foi morrer
nos campos de Espanha.
Outros poetas-- jovens ou não-- também entregaram sua vida
pelo sonho de paz e liberdade.
E toda a poesia é sempre uma manifestação de paz e de liberdade
E como disse Pablo Neruda: o poeta nasce da paz
como o pão nasce da farinha.

E foi o sangue espanhol que fez tremer a poesia daquela época.

Os fascistas espanhóis iniciaram a guerra assassinando
um de seus melhores poetas: Federico Garcia Lorca em 19 de agosto de 1936
A las cinco de la tarde. Eran las cinco en punto de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde
ya luchan la paloma e el leopardo
a las cinco de la tarde
en las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde
Quando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde
Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde
El quarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde
Lo demás era muerte y solo muerte
a las cinco de la tarde
Ay que terribles cinco de la tarde!
Eran las cinco en todos los relojes!

60 mil voluntários de 55 países
alistaram-se debaixo das bandeiras
vermelhas da República.
Muitos eram poetas, escritores e artistas
que nem sabiam manejar armas
Mas pegaram em armas, alistaram-se
e foram lutar em defesa da República Espanhola:
Pablo Neruda, Vicente Huidobro, Cesar Vallejo,
Rafael Alberti, Miguel Hernandez, León Felipe,
George Orwell, André Malraux, Arthur Koestler,
Octávio Paz, Hemingway, Pedro Garfias, Aragon,
Willi Brandt, Robert Capa, Simone Weil,
John dos Passos, Picasso, Bunuel, Pablo Casals,
Miró, Henry Moore, Rene Magritte,
Miguel Angel Asturias, Antonio Machado
e até o poeta nacional da Irlanda, Yeats
e a escritora sueca Selma Lagerlof,
já bem velhinhos, manifestaram seu desejo
em ir até Madri para participar do Congresso
de Escritores Antifascitas.
Também os brasileiros Apolonio de Carvalho,
que iria lutar depois na Resistencia francesa
e o poeta baiano Florisvaldo Mattos estiveram
nos campos de batalha de Espanha.
Drummond, Bandeira, Vinicius e Murilo Mendes
também tomaram a defesa dos ideais republicanos.
Mas nada disso adiantou. E em 1 de abril de 1939
--dia internacional da mentira --o generalíssimo Franco
instalou-se, vitorioso, no poder.
E por lá ficou até morrer em 1975.

Hoje, passados 70 anos da Guerra Civil Espanhola,
nos não podemos esquecer de 1 milhão de mortos,
nós não podemos esquecer de 500 mil exilados
nós não podemos esquecer de 300 mil detidos políticos.
Não podemos esquecer também que a poesia
pode ser molestada, chicoteada, arrastada pela rua,
desterrada, encarcerada, apedrejada
mas nada, absolutamente nada pode sufocar a sua voz
sempre inadequada e surpeendente,
sem gaveta ou fichário, voz recem-nascida em um constante descobrir,
em uma insubornável solidão, em uma imensa companhia,
E é em nome de todos essas coisas que eu,
Rubens Jardim, um poeta menor,
vim aqui para dizer que a poesia é
um estado de graça que une autor e leitor
ou ouvinte ou espectador em uma experiência única.
Mais ainda: com a sua linguagem primitiva e extrema
a poesia sempre caminhou e caminha
de mãos dadas com o povo e com a língua.
E pra finalizar é preciso dizer bem alto: 
na Guerra Civil da Espanha
não foram só os poetas que morreram em pé
--todos os homens que morreram pelos ideais republicanos
morreram em pé --e com um detalhe
de cabeça levantada!


Publicado por Rubens Jardim em 28/04/2009 às 19h32
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.



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