Diário![]() 19/06/2009 10h45
POESIA PARA MIM NUNCA FOI UNIVERSO PARALELO, O LADO DE LÁ; É SÓ A MANEIRA QUE ENCONTREI DE COMBATER A DISPERSÃO
Ele já se declarou místico por hereditariedade, humorista por ironia, sádico por desabafo e poeta por angústia constante. Sabe de cor o Poema em Linha Reta, do Álvaro de Campos e a Ode ao Burguês do Mário de Andrade. Escreveu A Poliflauta de Bartolo(1960), O Signo e a Aparição(1961), A Tarde e o Tempo(1964-prêmio Governador do Estado de São Paulo), Carta de Marear(1966 prêmio Governador do Estado de São Paulo), Poemas Reunidos(1974 - prêmio da APCA), Círculo Imperfeito(1978 - prêmio Gregório de Mattos Guerra), Subsolo(1989 - prêmio APCA), Lição de Casa & Poemas Anteriores (1998) e Noite Nula (2008). Estamos falando de Carlos Felipe Moisés, poeta da chamada Geração 60, professor universitário de literatura, crítico literário e tradutor de livros inesquecíveis como O Poder do Mito(de Joseph Campbell e Bill Moyers) e Tudo o que é sólido desmancha no ar (de Marshall Berman).
Conheço Carlos Felipe Moisés desde os anos 60. Mas nunca estivemos muito próximos. Só recentemente é que nos tornamos amigos. O que me honra e estimula muito. Pois Carlos é daquelas pessoas generosas e sérias que possuem um profundo interesse e entendimento do fenômeno poético—mas não abdica do senso de humor. Além disso, ocupa, com humildade e serenidade, um lugar de importância e destaque no quadro da poesia brasileira contemporânea. Sobre o seu trabalho poético já se manifestaram escritores e poetas significativos como José Paulo Paes, Wilson Martins, Álvaro Alves de Faria, Moacir Amâncio, Cláudio Willer, Antonio D’Elia, Álvaro Cardoso Gomes, Anderson Braga Horta e outros. É considerado um expert em Fernando Pessoa. E escreveu um livro, Poesia não é difícil, que é simplesmente indispensável e magnífico: desmonta preconceitos e ilumina o fenômeno poético, falando dessa coisa viva, revolucionária e apaixonante que é a poesia. Com vocês, a palavra expressa e expressiva do belo poeta que é Carlos Felipe Moisés. Cavalo alado Foi como ervas e arrancaram-no. Hoje pasta absorto em campo sombrio (perdido vôo, exílio nefasto) e lambe cicatrizes de ferida nenhuma. Às vezes relincha, reclina o dorso à procura de um rasto, resto de fome clandestina, mas não rasteja: ergue a fronte e sopra dardos de fogo no horizonte. O pouco do nada que lhe coube é muito. O peito chora sem lágrimas enquanto a cauda e a mansa crina ondulam (brisa leve, pranto alheio), rolando nas dunas e nas ervas que foi, entre urzes. Arrancaram-no mal raiou a madrugada. Hoje pasta absorto entre sombras, se alimenta da noite e sabe que eterno dura. Mais nada. (Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989) Mário de Andrade em San Francisco para Roberto Piva & Cláudio Willer 1. Dez horas da noite. Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco e entre becos de névoa e olhares aflitos é a ti que procuro -- São Paulo, comoção da minha vida -- na voz de Mário, teu poeta, subindo e descendo as ladeiras de angústia de uma cidade que anseia pelo mar. Dez horas da noite. Meus pés, que já pisaram as ruínas de Yucatán e a medina de Marraquech, o cais de Amsterdã e o deserto de Alcácer-Quebir, chegam cansados à Union Square, no coração de San Francisco, e este chão morno coberto de pombos me acolhe como se eu pisasse a rua Lopes Chaves em noite de crimes. Dez horas da noite. A culpa do insofrido, onde está? Ali, Mário, põe a máscara! O rei de Tule jogou a taça ao mar, vendaval a levou -- e hoje, troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate, banhada em luar, ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside. Dez horas da noite. Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco, cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente, onde a Primavera existe e se ergue do mar todo ano, ofertando presságios e desassossego, ladeira abaixo ladeira acima. Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de frio do largo de São Bento mas aqui os bondes arrastam nossa aflição Powell St. acima, depois pelo Embarcadero até o Fisherman’s Wharf e por fim nos despejam na Ghirardelli Square, de onde avistamos nossos sonhos, catedrais ancoradas no cais impossível, e a Primavera mais terrível cobre de flores nossos ombros pensos -- arlequinal! comoção de nossas vidas! 2. A noite agora não é mais criança. A cidade assolada em neblina acolhe os deuses da madrugada e nos vê passar. Não é nossa Londres das neblinas finas, onde as rolas da Normal esvoaçam entre os dedos da garoa, mas é a cidade que nos abrigou com sua Primavera incandescente e guiou nossa vagabundagem por labirintos de espanto, numa noite iluminada pelo desespero de náufragos e rainhas exiladas. Foi aqui, naquele bar imundo da O’Farrell quase esquina com a Market, em meio ao cheiro azedo e oleoso de tantas noites mal-dormidas, depois da milésima cerveja, depois de esgotarmos todos os versos bem amados, que sabíamos de cor, foi aqui, naquele canto escuro que Allen Ginsberg it’s too long that I have been alone, it’s too long foi-se chegando irritado e implorou come Poet, shut up & eat my word e você o embalou no colo e depois sonhou que tinha vomitado a cidade de San Francisco no oceano azul. Foi aqui que Leadbelly, o negro desdentado, sentou-se à nossa mesa e nos ensinou a chorar em uníssono com seu banjo prodigioso e você lhe ensi- nou os passos da dança que todos sabíamos e ele então, com outro brilho nos olhos, voltou a nos chamar irmãos e nos desejou alegria e você o abençoou. Depois, arrancamos de cada rua os fantasmas que ali se abrigavam e derruba-mos todas as pedras que se acumularam no caminho e as mãos sangradas e famintas finalmente descobrimos que San Francisco (Alexandria, você sabe, a Tebas impossível que nunca pudemos pisar) é uma cidade viúva de segredos e os fantas-mas que aí avistamos são os nossos próprios fantasmas, para sempre per- didos -- como teu coração paulistano, Mário, que um dia você enterrou no Pátio do Colégio e ali estava, quente e vivo, entre as ruínas da O’Farrell quase esquina com a Market, dedilhando um blues sem esperança -- como tua língua, que você um dia guardou no alto do Ipiranga, para cantar a liberdade, saudade, mas esta já não foi possível encontrar mais, não. Por isso também nos perdemos e nos achamos, comoção de nossas vidas! 3. Depois rolamos nosso sono em delírio, pelas ruas, e em nossos olhos ardia a lembrança daquilo que nenhum de nós sabia. Depois, diante do cais, em Lands End, os braços abertos em cruz, você gritou para o abismo em frente, ou sussurrou para as almas encolhidas de medo: -- A noite vem do mar cheirando a cravo! E por um instante o baiano poeta Sosígenes bailou entre nós naquela madrugada em San Francisco, mas logo regressou a seus castelos em Belmonte. No fundo das águas havia dragões e havia sereias e ao longe, e-eh-ô!, Boi Paciência e o Irmão Pequeno. Cada rua era um rio que o mar desenhara na terra e a lua enorme uma ânfora plantada na torre mais alta da Golden Gate. -- Garoa do meu São Paulo, garoa sai dos meus olhos! E a garoa caía em San Francisco ou em Londres das neblinas finas. Depois rolamos nosso sono em delírio pela Mission St., como um rio, de leste a oeste cruzamos toda a cidade, à procura do sol, guiados pelo cheiro do mar, mas o cheiro do mar nos levou para longe do mar. -- Água do meu Tietê, onde me queres levar? Rio que entras pela terra e que me afastas do mar... Nessas águas Boi Paciência se afogou, que o peito das águas tudo soverteu. Você queria um porto seguro na terra dos homens, por isso perguntava pela culpa do insofrido e suplicava: -- Garoa, sai dos meus olhos! Por isso você desceu ao léu da corrente do rio e entrou na terra dos homens ao coro das quatro estações mas não me ensinou o caminho ou não aprendi a lição. Ao regressar, teus olhos eram só preguiça e mágoa, teus olhos bailavam no ar, o ar de mansa maresia dos mares de San Francisco, teus olhos bailavam no ar a grandeza de todas as glórias e teu coração entoava: -- Estou pequeno, inútil, bicho da terra derrotado, e já nem sei se vale a pena cantar São Paulo na lida Você recusou a Paciência (Boi morto) e a esperança e em teus olhos as águas murmuravam hostis, levando as auroras represadas para o peito do sofrimento dos homens. Nem eram tantas essas águas, nem tamanhas. Era uma lágrima, apenas, uma lágrima das águas turvas do nosso Tietê, límpida lágrima em que brilhava um céu de chumbo, arlequinal! comoção de nossas vidas! 4. Quatro horas da manhã. Caminhamos em silêncio pelo longo e frio corredor infinito da Powell St. à espera do primeiro carro do subway que nos levará de volta a Berkeley e à Telegraph Avenue, onde a Revolução é um estado de espírito permanente e, qual Oroboros, do seu próprio tédio se alimenta, onde até o breakfast cheira a conspiração e onde os filhos dos hippies ven- dem penduricalhos & melancolia e aceitam credit card. Mas você sabe, Mário, São Paulo também sempre foi berço de revoluções. Quatro horas da manhã. Deixamos para trás o cais e a noite negra e em nossos ouvidos ecoa o grito de Álvaro de Campos: -- Ó coisas navais! Meus velhos brinquedos de sonho! Componde fora de mim a minha vida interior! Caminhamos em silêncio pela Powell St. e você começa a saltar pela calçada como se estivesse na avenida São João. De repente, o riso debochado que brota dos teus e dos meus lábios se espraia pelas ruas solitárias e divide a madrugada. Antes você perguntava pela culpa do insofrido e se queixava: -- Miséria, dolo, ferida, isso é vida? Agora teu coração secreto nos leva de volta ao dia claro de onde viemos. Quatro horas da manhã. A maresia vem do cais distante e se espreme entre os prédios altos e arde cheia de aroma no céu pesado de chumbo -- entre essas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas, como você costumava dizer da rua de São Bento. Jamais madrugada tão sombria, jamais minha alma tão serena e vazia. Quatro horas da manhã. Caminhamos em silêncio pela Powell St. e em algum lugar a Primavera nos aguarda com dez mil milhões de rosas paulistanas. No ar, daquele banjo desdentado o som já desfeito em penumbra nos guia os passos e somos duas crianças balbuciando o rondó das tardanças. E como sabe que vai morrer daqui a um segundo daqui a um verso a noite mergulha em treva mais densa (vingança!) e em nosso olhar o dia todo se ilumina em milhares de brilhos vidrilhos, arlequinal! comoção de nossas vidas! (Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989) Modelagem papel maché argila barro massa modelar o quê? modelar o ar, cavar em torno o oco sobrante ao quase nada de dentro: o já-não-mais do ainda-não. Modelar o grito, a água que escorre, o brilho da estátua. (o que não tem modelo modelado está.) As formas do branco Caminho pela neve e o mundo principia neste branco. Tenho a verdade, sonho breve, branco retido no branco. Girassol amanhecido longe, a verdade apareceu-me nesse branco. Tempo devorado como carne, corpo ferido, vermelho sobre o branco. Os pássaros nascem nas nuvens, azul distante. Tinha a verdade, perdi-a: branco escondido no branco. (Urna diurna, in Poemas Reunidos, São Paulo, Cultrix, 1974) Charlie Parker 1 Como vão as coisas, Charlie? Como é que é, my friend Charlie? Ô-o! Não foi assim que o nosso Jorge Cantou? E você nem aí...Quando Alguém chama: Charlie Charlie Charlie, todos os Charles do mundo Encolhem os ombros: não é comigo Deve ser outro Charles qualquer. Vai ver você tentava soprar Três notas de uma vez (duas Já era fácil, não era?) E nem ouviu. Vai ver Não era mesmo como você E não adianta insistir. Jorge Bem que insistiu: take it easy My brother Charlie, Take it easy meu irmão de cor ô-ô! Mas dá uma vontade danada De gritar: oba oba oba Charlie! Como vão as coisas, Charlie? Mas eu sei que você não está Nem aí...nem aí... 2 Como daquela vez em Toronto Mil novecentos e cinqüenta e três: Você se lembra? Nunca ninguém ouviu Nada igual, nem no primeiro dia da criação, Nem durante o dilúvio, nem quando a alegria Passarinheira um dia pousou em sua mão. Naquela noite ô-ô foram cinco dilúvios: Você, outro Charles, o Mingus, Max, O domador de baratas, Powel, o Bud & o velho Dizz. Dá para acreditar? Vocês tinham visto passarinho azul Naquela noite? Max The Roach rola pelo despenhadeiro E arranca árvores como quem despetala Uma rosa. Bud salta e rodopia, Colhe um punhado de estrelas, Joga tudo aos pés da loira nervosa E sorri. Você? Nem aí...Você nem aí... Mingus estilhaça os vitrais De todas as catedrais Do continente perdido E você você nem aí... Dizzie afrouxa a gola da camisa E faz bater em revoada O enxame de abutres guardado No estojo do trompete, só para curtir O olhar deslumbrado da loira nervosa. E você? Você desata o seu sopro: manada De búfalos levíssimos que partem Agoniados mar afora No encalço da aurora. Você se lembra, Charlie? Nunca Ninguém ouviu nada igual. Foi O oitavo dia da criação, dilúvio De todos os dilúvios, no Massey Hall, Toronto, Canadá: mil novecentos E cinqüenta e tal. Dizem(não sei) que naquela noite muitos Homens abandonaram suas mulheres. Dizem também que muitos homens Voltaram às suas mulheres naquela noite. Claro que você não lembra! Isso lá é coisa Pra lembrar? Só se lembra quem não esteve lá. Mas você estava, naquela noite, você estava lá, Naquela noite mais clara que o dia, Em Toronto, Canadá. 3 Agora o que eu queria mesmo saber É essa história de bird: Charlie “Bird” Parker. Me conte aí, Charlie, me conte essa história Toda: Bird of Paradise. Young Bird, YardBird Suíte ô-ô! Ornithology: não é? E não me esqueci Do Rare Bird, do Bird’s Nest ah! The Birdland! Mas isso é tudo, tudo mesmo? Ouvi dizer Que essa passarada toda é pista falsa, nada A ver: o pássaro que mora entre Charlie E Parker é só o bluebird que um dia pousou Em sua mão Alegre Triste Folgado Meio perdido E em vez de ser livre escolheu ficar Do seu lado (Charlie) o resto da vida, Para ser mais livre ainda, junto de quem Lhe desse o amor mais criança. Diga que não, Charlie, Diga que não... Ouvi dizer que ele bateu as asas assustado Quando soube que você, todo beleza, tinha Acabado de estrear um lindo casacão De madeira. Ouvi dizer que ele foi atrás, Cortejo todo, bicou muitas vezes o casacão Inviolável, acompanhou aflito cada punhado De terra, cada braçada de lágrimas, Pediu A cada um que lhe explicasse o que estava Acontecendo e quando todos se foram começou a cantar a cantar a cantar o mesmo fiozinho de voz, tão tênue, mais forte que o aço, a mesma manada de búfalos levíssimos que ele lhe ensinara. (Ou foi você que lhe ensinou?) Cantou cantou cantou ô-ô Tarde noite madrugada afora para anunciar a aurora de todas as auroras. Não é essa a história toda, Charlie? Está bem, eu sei, não precisa dizer. Não se preocupe também se alguém mais Insistir em saber como vão as coisas ô-ô! Como vão as coisas, Charlie. Ninguém quer se intrometer em nada não. É só um jeito de dizer: obrigado irmão! Publicado por Rubens Jardim em 19/06/2009 às 10h45
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AS INDECÊNCIAS QUE O CAPETALISMO PROMOVE SOB O DISFARCE DE DEMOCRACIA
Desde muito cedo, já na adolescência, as injustiças sociais provocavam minha revolta. Nunca consegui admitir a razão dos privilégios e a razão da miséria. Em épocas mais remotas até o mais ilustre dos impérios, o de Roma, foi construído nas pilhagens de mão de obra e de tesouros. Nenhum dos impérios antigos conseguiu transformar as técnicas de produção ou aumentar a produtividade. Ainda assim, todos eles fizeram progressos de ordem militar, administrativa, jurídica e artística.
É por essa e outras razões que jamais consegui entender –ou admitir – o transplante de valores herdados da monarquia. Se antes o negócio era ter sangue azul, hoje, apesar da revolução francesa e o estabelecimento de um novo código de valores, não há igualdade, fraternidade --e muito menos liberdade. Em que pese todos os disfarces e ardis da chamada democracia burguesa, ainda é a classe dominante que dita todas as regras. E é ela que nos injeta o vírus da liberdade,essa idéia abstrata que ainda possui o poder e o fascínio de nos encantar. Mas vale descer dessa montanha mágica e fazer a pergunta correta: liberdade para quem? Claro que podemos votar, possuímos o direito de ir e vir e de manifestar livremente nossas opiniões. Mas será que esses jargões tem alguma conexão com a realidade concreta? Ou serão apenas palavras mortas utilizadas, permanentemente, apenas para nos tornar um bando de cordeirinhos equivocados? Não há dúvida que o fosso criado entre o castelo do senhor e a plebe ignara ainda encontra-se vivo – e foi progressivamente ampliado. Em Roma, havia o circo. Na corte francesa, os biscoitos. E atualmente são outras as migalhas que alimentam o nosso imaginário. A sociedade atual assegura, com sua letra morta, uma infinidade de direitos: direito ao trabalho, direito à educação, direito à saúde, direito à propriedade, enfim, direito a uma vida digna. Mas isso, via de regra, não sai do papel. Na vida real, são muito poucas as pessoas contempladas com essas garantias constitucionais. Algo muito semelhante ao que acontecia debaixo do período monárquico. Mas para não situar essa questão em horizonte tão longínquo, vamos aproximar nossas lentes aos mais recentes episódios da crise internacional. Ela impôs perdas expressivas e impactou fortemente a área social com maior índice de desempregados e aumento das desigualdades. Aspecto curioso: o FMI e o Banco Mundial que nas crises anteriores apresentavam receitas, dizendo isso e aquilo, simplesmente ficaram em silêncio e desapareceram. Aliás, para deixar de lado todas essas interpretações, vamos aos números que não podem ser manipulados e não deixam espaço para mentiras. A concentração de renda, por exemplo, continua a crescer: 1% da população detém 40% da riqueza total. E o quadro que escandalizou o mundo na década de 90 * não mudou em nada:.as três pessoas mais ricas do planeta continuam tendo riqueza superior ao produto bruto dos 48 países mais pobres, onde vivem cerca de 600 milhões de pessoas. E pouco mais de 250 pessoas, os verdadeiros bilionários, -----com ativos maiores de 1 bilhão de dólares-- possuem mais riqueza que os 40% da humanidade abaixo da linha da pobreza, perto de 2,5 bilhão de pessoas. No Brasil, os meios de produção estão concentrados nas mãos de 6% da população; 20 mil famílias dominam o país; 11%da nossa população é analfabeta; os ricos não pagam impostos; a estrutura fundiária é pior do que a de 1950; os filhos de pobres só estudam quando trabalham; e só 30% dos 7 milhões de empregadas domésticas possuem carteira assinada. E, para finalizar, mais esta pérola da justiça social engendrada pelo capetalismo: os países mais ricos concentram 80% da riqueza do mundo, mas sua população representa apenas 20% da população mundial. Que tal? VIVA A LIBERDADE! VIVA A IGUALDADE! VIVA A FRATERNIDADE! *PNUD,Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Publicado por Rubens Jardim em 14/06/2009 às 15h12
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ÁLVARO ALVES DE FARIA: UM POETA APAIXONADO PELA VIDA QUE SABE QUE A POESIA É SOLIDÃO E TROCA, PASSATEMPO E SACRAMENTO.
Os que não são jovens devem se lembrar dos conturbados anos 60: guerra do Vietnã, crise dos misseis em Cuba, construção do Muro de Berlim, renúncia de Jânio, golpe militar de 64, morte de Kennedy e do papa João XXIII. Paralelamente a esses acontecimentos, ocorria a primeira transmissão em cores da TV brasileira, o Brasil tornava-se bicampeão do mundo no Chile e o astronauta russo, Yuri Gagarin, dizia que a terra era azul. É dentro desse quadro que a voz de um jovem poeta ganhou destaque e notoriedade: Álvaro Alves de Faria. Com o lançamento do livro, Sermão do Viaduto, longo poema discursivo e com linguagem bíblica, feito em pleno Viaduto do Chá em 1965, Álvaro conseguiu despertar a atenção da mídia e reunir praticamente quase todos os poetas da chamada geração 60 de São Paulo. Segundo depoimento dele mesmo, "realizei nesse mesmo local nove recitais públicos de poesia, para onde eu levava uma kombi, quatro alto-falantes e um microfone." Mas em 9 de agosto de 1966 esses recitais foram proibidos e acusados de subversivos. Mas nem por isso o poeta Álvaro Alves de Faria deixou de publicar seus livros e de fazer a leitura de seus poemas em lugares públicos. Hoje, após 46 anos de militância poética, jornalística e literária, Álvaro é um dos poetas mais expressivos e atuantes da chamada Geração 60. E já recebeu os prêmios literários mais importantes do país. E sua obra, bastante diversificada, apresenta incursões pelo conto, romance, crítica literária, ensaio e teatro. E sua Trajetória Poética, livro que reúne seus poemas desde o primeiro Noturno Maior(1963) até À Noite, os cavalos, ---mostra definitiva e claramente o fosso que separa um fazedor de versos e um verdadeiro poeta. Nesse livro, de 668 páginas que enfeixa toda a sua obra poética, Álvaro imprime o timbre inconfundível de sua voz. Desesperada e amarga muitas vezes, mas sempre corajosa, afinada e necessária. Afinal, como todo bom poeta, Álvaro Alves de Faria sabe que a poesia é uma arma carregada de futuro. É fogo e fumaça. Passatempo e sacramento. Punti luminosi. Triunfo e derrota. Porta e abismo. Grito e silêncio.Solidão e intercâmbio. PRATICIDADE Abro o guarda-chuva japonês Cinza Em cima da minha cabeça E caminho em direção ao banco. Pagarei minhas contas Olharei os olhos vermelhos Da moça do caixa E observarei suas unhas claras. Conversarei com outros clientes Sobre a vida E direi que o governo é culpado de tudo. Nunca mais esquecerei Esta mulher de boca acesa Na fila Atrás de mim. Sairei depois à rua E me sentirei um magnata Fora do tempo. Encontrarei à manhã Vizinhos tristes E direi palavras desnecessárias. Enfim Sou um homem prático. Já posso matar-me sem remorso. A CASA 1 A casa é o inverso Do corpo Onde moram desejos Não pessoas. A casa é uma caixa Onde calam, pressentimentos Passos quadros Poltronas Não silêncios. 2 Na casa moram Pessoas antigas Retratos olhares. Não é como o corpo A mente A casa Onde residem receios. Não é a casa Um único cômodo Para única pessoa. A casa não é apenas A porta a janela. 3 A casa desmorona Como se não fosse uma casa: A casa é uma pessoa Não estrutura. A casa guarda As sombras Mais nada. SINA Assim a sina: Passo que anda E volta ao mesmo lugar Cavalo que salta Patas de fúria Terra que cobre a cara Faca de duas lâminas Duas faces na mesma sala. Como uma laranja De gomos maduros: Sumo e resumo de si. Como não é: O rosto oculto desfeito Rio por dentro Que não cessa E não passa. APARÊNCIA Não é um dia Este dia Mas um instante. Nada além Nem aquém disso: Um momento. Não é uma noite Esta noite Mas um apelo. Nada mais Nem menos que isso: Um pedido. Não é o mundo Este mundo Mas sim ausência. Nem isso nem aquilo: Só aparência. OFÍCIO Que palavra não nasce se morrer é todo instante que palavra por nascer comove e sente o que se aguarda e não vem? Sílaba no verso do espanto o que se tenta descobrir como se possível ainda fosse a poesia que se imagina? Morta a poesia não mais se saberá da vida nem do homem nem da mulher nem de ti que ainda guardas no bolso essa estrela que caiu do céu. Que ainda recolhes as folhas junto à porta todas as manhãs derradeiras como se fosse sempre a primeira vez. O poema é tão pouco que mal cabe na palavra. Tão pouca a poesia que mal se percebe. Não cabe no bolso de meu paletó o poema inútil deste momento nem a escassa poesia do início deste verso. Toda poesia brasileira guardo numa caixa de sapatos e ainda sobra espaço para as coisas que não desejo mais. Publicado por Rubens Jardim em 02/06/2009 às 11h30
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MANUEL BANDEIRA: UM MESTRE NA ESTRUTURAÇÃO DE TEMAS
Quase todos os jovens da minha época -- poetas ou não -- tiveram seus mitos poéticos. Entre eles pode-se destacar Manuel Bandeira, Drummmond, Vinícius e Fernando Pessoa. Estes dois últimos figuravam, para muitos, como o modelo ideal do poeta e da missão da poesia. Claro que eu não fugi à regra, embora incluísse nessa lista os nomes de Jorge de Lima e Rainer Maria Rilke. É interessante recordar o papel que a poesia e esses poetas desempenharam na formação de toda uma geração nascida por aqui entre os anos 40 e 50. Lembro-me que Manuel Bandeira, por exemplo, com sua maestria verbal e seus temas cotidianos, sequestrou-me completamente. E seus versos ressoavam em minha mocidade: "a vida inteira que poderia ter sido e que não foi", "eu quero o lirismo difícil e pungente dos bêbados", "vou me embora pra Pasárgada","eu faço versos como quem morre","a paixão dos suicidas que se matam sem explicação", "Recife sem história nem literatura, Recife da minha infância"", "a única coisa a fazer é tocar um tango argentino". Hoje, após trilhar por esta vereda durante mais de 40 anos, posso assegurar a permanência dessas vozes. Tanto é assim que já publiquei, neste espaço, seletas de versos de Drummond, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, Jorge de Lima, Octávio Paz, Maiacovsky, TS Eliot, entre outros. Mas até agora havia me esquecido exatamente dele, Manuel Bandeira --poeta que, como disse Otto Maria Carpeaux, deixou versos inesquecíveis gravados na memória da nação brasileira. POÉTICA Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. DESENCANTO Eu faço versos como quem chora De desalento... de desencanto... Fecha o meu livro, se por agora Não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente... Tristeza esparsa... remorso vão... Dói-me nas veias. Amargo e quente, Cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre, Deixando um acre sabor na boca. - Eu faço versos como quem morre. ARTE DE AMAR Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus — ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não. O ÚLTIMO POEMA Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. A MORTE ABSOLUTA Morrer. Morrer de corpo e de alma. Completamente. Morrer sem deixar o triste despojo da carne, A exangue máscara de cera, Cercada de flores, Que apodrecerão – felizes! – num dia, Banhada de lágrimas Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte. Morrer sem deixar porventura uma alma errante... A caminho do céu? Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu? Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra, A lembrança de uma sombra Em nenhum coração, em nenhum pensamento, Em nenhuma epiderme. Morrer tão completamente Que um dia ao lerem o teu nome num papel Perguntem: "Quem foi?..." Morrer mais completamente ainda, – Sem deixar sequer esse nome. ANDORINHA Andorinha lá fora está dizendo: - "Passei o dia à toa, à toa!" Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste! Passei a vida à toa, à toa... NEOLOGISMO Beijo pouco, falo menos ainda. Mas invento palavras Que traduzem a ternur mais funda E mais cotidiana. Inventei, por exemplo, o verbo teadorar. Intransitivo: Teadoro, Teodora. O BICHO Vi ontem um bicho Na imndícei do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. PNEUMOTÓRAX Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico: - Diga trinta e três. - Trinta e três... trinta e três... trinta e três... - Respire. - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. PREPARAÇÃO PARA A MORTE A vida é um milagre. Cada flor, Com sua forma, sua cor, seu aroma, Cada flor é um milagre. Cada pássaro, Com sua plumagem, seu vôo, seu canto, Cada pássaro é um milagre. O espaço, infinito, O espaço é um milagre. O tempo, infinito, O tempo é um milagre. A memória é um milagre. A consciência é um milagre. Tudo é milagre. Tudo, menos a morte. --Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres. Publicado por Rubens Jardim em 19/05/2009 às 10h33
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CARTA EM HOMENAGEM AOS COMBATENTES DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA
O Instituto Cervantes de São Paulo, situado na avenida Paulista, realizou neste mês de abril, uma série de eventos em comemoração aos 70 Anos da Guerra Civil Espanhola. No dia 1 --que marcou o fim desse conflito bélico de proporções alarmantes --foi inaugurada uma exposição de cartazes que seguiam os preceitos estéticos da arte vanguardista, em especial do construtivismo russo. A exposição era um verdadeiro grito na parede e mostrava a força e a sensibilidade dos artistas envolvidos. Houve também debates, mesas redondas e uma extensa programação de filmes e documentários. E no dia 23, encerrando a programação comemorativa, o Instituto Cervantes abriu suas portas aos poetas, escritores e artistas que puderam apresentar poemas, canções e videopoemas. Entre outros, participaram Alan Mills,(Guatemala) Nurit Kasztelán,(Argentina) Yaxkin Melchy, (México) , Hector Hernandez( Chile), Marília Gabriela, Alice Ruiz, Marcelino Freire,e Rubens Jardim. Na ocasião, li esta carta em homenagem aos combatentes da Guerra Civil Espanhola. Publicado por Rubens Jardim em 28/04/2009 às 19h32
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