Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
16/10/2011 16h04
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (10)

ISABEL CÂMARA (1940 - 2006), poeta mineira, atriz e dramaturga bissexta. Com a única peça que escreveu, As Moças, ganhou o Moliére de melhor autor de 1970. Festejada nos meios cults do Rio e São Paulo, foi amiga de Bethânia, Chico e Tom, redatora da TV Globo e tradutora. Publicou Coisas Coiós, abandonou a badalação e foi morar incógnita em Goiânia, onde 12 anos depois veio a falecer.

Afirmativa

Na posição que me encontro
só no sono do barato
na zona franca, ausente
me sinto contente!

Quem

Quem diante do amor
ousa falar do Inferno?

Quem diante do Inferno
ousa falar do Amor?

Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama de Baudelaire

Manhã de frio

Trata-se de uma certa dama
que acorda aflita pelo dia
observando da janela do seu
Disco-Voador
o cinza que se irradia
desde a música —
Romântica e Alemã
até a cor fria da Dor.

Carta

Olha eu te desejo
tanto que perdi
o recado.
Nada temo,tremo!
Sou poeta devassa
adorando tua raça.

Lovely & lonely bird
of my Youth,tell
me how to reach
The South of your Mouth"

"Probel/Problemas

O futuro é uma ciência fodida pelo tempo
O presente é isso aí
O passado é a gavetinha onde a memória brinca
de obra e Arte"

LEILA MICCOLIS (1947) poeta carioca, contista, escritora de cinema, teatro e televisão. Tem obras publicadas na França, México, Colômbia, África, Estados Unidos e Portugal. Já publicou mais de 30 livros, uns 14 de poesia. O mais recente Sangue Cenográfico tem prefácios de Ignácio de Loyola Brandão, Heloísa Buarque de Hollanda, Gilberto Mendonça Teles e Nélida Piñon.Mantém na internet o concorrido site de poesia e literatura Blocos

DOS MALES O MENOR...

Se te chamo de putinha
sou machista e indecorosa.
No entanto, se não chamo,
você não goza...

CONTRADIÇÕES 

Foi na vida que aprendi
a interpretar às avessas
os provérbios, pois na prática
as verdades são inversas:
quem não deve é quem mais teme,
há quem cale e não consinta,
e o diabo é exatamente
tão feio quanto se pinta.

NOVO AMOR 

Meu coração nunca pára 
pra comparar, solta amarras, 
vive seu tempo presente: 
se ferido, em mim se ampara; 
mas quando sara e se sente 
contente, fica eloqüente, 
feito algazarra de araras. 

BROWSERS DIVERSOS (V)

Sem rodeios:
nos chats,
os fins justificam os mails...

Geração Inde(x)pendente

Em vez de me deitar na cama,
resolvi criar fama.
E aí comecei a fazer versos, a mendigar editores,
como se eles fizessem grandes favores
em nos publicar...
E de tanto batalhar, virei... poeta
— um grande passo em minha meta,
porque em poetisa todo mundo pisa.
E quando me consideraram menina prodígio,
consegui que um crítico de prestígio
analisasse minha papelada.
Ele deu uma boa folheada,
pensou, pesou e sentenciou:
— "Incrível... não tem nível..."
Juro que fiquei com muita mágoa
porque, afinal, quem precisa de nível
é caixa d'água...

DIVA CUNHA(1947) poeta potiguar, formou-se em letras, fez pós-graduação na Puc do Rio de Janeiro e doutorado em Barcelona. Seu último livro de poesia, Resina, (2009), reúne a reedição dos três primeiros livros Canto de Página (1986), Palavra Estampada (1993) e Coração de Lata (1996). Recentemente, em junho deste ano, passou a ocupar cadeira na Academia Norte Rio-Grandense de Letras.

Sou todos...

sou todos

os poetas que li

com a devida

ressalva

eles não são eu

cadeira que ocupo

enquanto escrevo

 

Certas mulheres...

Certas mulheres catam coisas pequeninas

conchas, feijões, letras

 

outras distraem-se nos espelhos

contam rugas

 

algumas contam nuvens

criam cachorros e gatos como crianças

 

certas mulheres guardam mágoas

ressentimentos, botões, elásticos

 

algumas são como certos homens

não contam nada

ocupadas com coisas incontáveis

 

 

Minha mãe...

Minha mãe diz

que eu sou da pá virada
a da vida torta

os modelos dela são outros:
santa terezinha do menino Jesus
santa rita de cássia
santas

fora as santas domésticas
que foram sacrificadas
no dia a dia
e ninguém viu
sangradas como galinhas
maceradas em vinha d’alhos
postas a dormir no sereno
para secar odores
enfurnadas como bananas verdes
esfregadas nos ladrilhos
claros dos banheiros
costuradas em botões de quatro furos
esbofeteadas e sacudidas
como colchões e almofadas
para desprender o pó das horas

secaram todas
nos linhos brancos
dos lençóis bordados
ao morrer, não morreram
entregaram a alma a deus,
que provavelmente não as perdoou
pelo gasto inútil
que fizeram dos seus talentos.”

 

Em casa...
Em casa sozinha
para matar meu desejo
leio poesias
não beijo
Me masturbo
e me contorço
leio poesias
não ouço
a voz
onda da pele clara
que aflora
sobre meus ossos
Em casa
entre coqueiros e arcos
ouço o desejo e passo
pelo fim do meu desejo
portas adentro atravesso
prendo sonhos entre paredes
minhas mãos prendem nos versos
os meus desejos inda verdes. 

 

ANA CRISTINA CÉSAR (1952-1983) poeta carioca da chamada poesia marginal dos anos 70, suicidou-se em 29 de outubro de 1983. Escreveu para revistas, jornais alternativos e lançou livros em edições independentes. Tornou-se conhecida ao participar da antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, em 1976. Entre os títulos publicados: Cenas de Abril, Correspondencia Completa, Luvas de Pelica—e o celebrado A Teus Pés, além de Inéditos e Esparsos.

Tenho uma folha branca

                            e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca

                            e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma vida branca

                            e limpa à minha espera.

Noite carioca

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio

Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento

a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum

segredo.

Psicografia
Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não sou e digo
a palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

Acreditei...

Acreditei que se amasse de novo

esqueceria outros

pelo menos três ou quatro rostos que amei

Num delírio de arquivística

organizei a memória em alfabetos

como quem conta carneiros e amansa

no entanto flanco aberto não esqueço

e amo em ti os outros rostos

Olho muito...

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas    


Publicado por Rubens Jardim em 16/10/2011 às 16h04
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