Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
02/02/2009 11h30
A POESIA PRECISA E PRECIOSA DE JORGE DE LIMA
Personalidade artística complexa e diversificada, Jorge de Lima nasceu na cidade de União, Alagoas, em 23 de abril de 1893 e morreu no Rio de Janeiro,em 15 de novembro de 1953. Sua carreira de artista está marcada por uma busca incessante de meios de expressão. Foi poeta, romancista, ensaísta, pintor, escultor. E como poeta, seu princípio unificador, situou-se nas cumeeiras da literatura brasileira. Seu roteiro poético inclui transformações constantes. Fez poesia metrificada, poesia livre, livro de fotomontagem e poema em prosa. Passou pela temática folclórica, religiosa. E publicou desde os XIV Alexandrinos (1914), passando pelo antológico Essa Negra Fulô (1928), até os originalíssimos versos de Anunciação e Encontro de Mira-Celi (1950), Livro de Sonetos (1949) e Invenção de Orfeu (1952), poema épico em 10 cantos.
A um tempo regional e cósmico,clássico e modernista, profano e místico, Jorge de Lima foi, talvez, o poeta mais versátil do Brasil e suas metamorfoses chegaram até a irritar alguns críticos. Mas é necessário reconhecer: em todas as fases Jorge de Lima nunca deixou de ser poeta --e dos melhores. E o seu itinerário é coincidente com as principais etapas percorridas pela poesia brasileira no século passado. Outro aspecto curioso foi relatado por José Fernando Carneiro, médico e amigo de Jorge. Segundo Carneiro "os 77 sonetos que formam o Livro de Sonetos e mais 25 que não foram publicados, ao todo mais de 100, foram escritos em estado hipnogógico, no espaço de 10 dias apenas, levantando-se Jorge de Lima, às vezes de madrugada, e compondo de uma vez três, quatro, cinco sonetos. Limitar-me-ei a referir que foram escritos em momento de grande angústia, quando seu autor começou a sonhar acordado, e a ver, diante de si, entre outras coisas, o galo da igreja do Rosário, a draga da praia de Pajuçara bem defronte de sua casa, e a pretinha Celidônia, que morreu afogada no rio Mundaú". 

Não te chamo Eva, não te dou nenhum nome de mulher nascida, nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de sibila, nem de terras, nem de astros, nem de flores.  O teu nome deve estar nos lábios dos meninos que nasceram mudos, nos areais movediços e silenciosos que já foram o fundo do mar, no ar lavado que sucede às grandes borrascas, na palavra dos anacoretas que te viram sonhando e morreram quando despertaram, no traço que os raios descrevem e que ninguém jamais leu."

“O rio da minha terra é o ABC da minha meninice, o meu passado correndo para o mar.”

“Mundaú, rio torto, caminho de curvas por onde eu vim para a cidade onde ninguém sabe o que é caminho.”

“Tu eras uma inocência silenciosa que chorava por tudo. Eu era um menino de olhos extasiados que tinham saudade mas não choravam nunca.”

“A ave era antropomorfa como um anjo e solitária como qualquer poeta.”

“As palavras envelheceram dentro dos homens separadas em ilhas, as palavras se
mumificaram na boca dos legisladores; as palavras apodreceram na promessa dos tiranos; as palavras nada significam nos discursos dos homens públicos.”

“Os grandes poemas permanecem inéditos, e as grandes palavras dormem nas línguas secas. Foram ouvidas apenas algumas lamentações.”

“Todos os séculos e dentro de todos os séculos -- todos os poetas foram cristãos pela esperança que continham.”

Os grandes poemas começam com a nossa visão desdobrada. Aqui já não sofremos a contingência de escrevê-los.”

“No momento mais desprendido  de tua amada, sob certo signo que talvez nunca se reproduza, reconhecerás um momento de Mira-Celi, se teus gestos forem simples e naturais.”

“Mira-Celi nunca se eclipsa toda, nunca está submersa, mas flutua como flutua a música ou a nuvem que paira sobre as cordilheiras.”

“Nunca fui senão uma coisa híbrida: metade céu, metade terra, com a luz de Mira-Celi dentro das duas órbitas.”

“Não procureis qualquer nexo naquilo que os poetas pronunciam acordados, pois eles vivem no âmbito intranquilo em que se agitam seres ignorados.”

“Vereis que o poema cresce independente e tirânico, ó irmãos, banhistas, brisas.”

“E esta angústia de te recompor, traço a traço, tua boca dolorosa (fonte  que se exauriu), teu rosto escasso, ó musa angelical e airosa rosa!”

Há muita coisa a recalcar e esquecer: o dia em que te afogaste, sem me avisar que ias morrer, negra fugida na morte, contadeira de estórias do teu reino, anjo negro degredado para sempre, Celidônia, Celidônia!”

“Aceito as grandes palavras eficazes e os caminhos que Deus pôs diante de mim. Aceito o sangue derramado se é necessário para levantar o pobre.”

“Inesperadamente chega um dia de transcendentes mágicas, e há surpresas: num pedaço de tempo reencontrado, a possível menina nos fitando, nossa terra natal, seu rio torto, geografia existida, continuada,”

“Escrevo para me encontrar no tempo, no quarto que entra pela treva adentro, na alga que lembra a nuvem esgarçada, nas pernas que caminham sem sinal, nas mãos em fileira longa e horizontal.”

“Essa pavana é para uma defunta infanta, bem amada, ungida e santa, e que foi encerrada num profundo sepulcro recoberto pelos ramos de salgueiros.”

Publicado por Rubens Jardim em 02/02/2009 às 11h30

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