Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
30/12/2008 11h34
CONHEÇA OS POEMAS DO QUINTAL, INÉDITOS DE PAULO MARCOS DEL GRECO

O poeta Paulo Marcos Del Greco parece ter levado tão a sério a confissão de Drummond de que poesia é negócio de grande responsabilidade que só publicou um único e excelente livro, Lamentações de Fevereiro(Massao Ohno,1960), privando-nos, assim, do grande prazer de sua palavra criadora e de sua linguagem filiada às grandes vertentes da melhor poesia universal.
Hoje, quarenta e oito anos depois de sua estréia, sou surpreendido, ao entrar em contato com alguns de seus poemas mais recentes, pelo fato de que esse poeta que já soube, como ninguém, retomar os célebres versos de Camões em Babel e Sião. (Sôbolos rios que vão por Babilônia...) para dar vazão, com maestria, ao seu caudaloso e revelador poema, continua em plena forma.
 Além de ser uma das vozes mais afinadas dentro da poesia contemporânea do Brasil, Paulo Marcos Del Greco é, também, um dos poetas mais injustiçados deste país. Aliás, já nas suas Lamentações de Fevereiro ele aponta, proféticamente que “as palavras estão cansadas.”  E adverte que sem deuses, “a palavra cai na conjura dos povos, dorme no sobressalto das sílabas e ressoa difícil, inquieta no labirinto dos significados.”
Falando ontem com o poeta, pude confessar a minha forte ligação com o seu longo poema publicado quando eu era ainda um jovem poeta. E disse mais: são raros os versos que me acompanham nessa minha já longa trajetória de vida. Dentre eles pude citar alguns de Rilke, Nietzsche, Jorge de Lima, Bandeira, Drummond, Guimarães Rosa, Eliot, Pound, Lindolf Bell. E é claro, Paulo Marcos Del Greco.
Aparentemente o leitor poderá achar que estou misturando alhos e bugalhos. Mas estou convencido de que em poesia e em arte não existe hierarquia. Ou evolução. Ou progresso. Um poema de Rilke é tão bom quanto um de Lindolf Bell. Um quadro de Da Vinci é tão bom quanto um de Miró. Um filme de Eisenstein é tão bom quanto um de Fellini. É assim que entendo --ou sinto-- o fenômeno poético e artístico..
E falo isso para justificar o lugar de destaque que atribuo ao poeta Paulo Marcos Del Greco. Considero o seu livro Lamentações de Fevereiro, o melhor livro de poemas publicado pelos poetas da nossa geração. E a nossa geração inclui poetas do calibre de  Carlos Felipe Moisés, Álvaro Alves de Faria, Eunice Arruda, Claudio Willer, Roberto Piva, Lindolf Bell, Neide Archanjo, Eduardo Alves da Costa e muitos outros. Note que afirmo isso aplicando um critério geográfico restritivo: os poetas citados são aqueles que trabalhavam e publicavam em São Paulo.   
Veja, você mesmo, estas últimas criações do poeta Paulo Marcos Del Greco. Segundo ele, esses Poemas do Quintal --que esperamos sejam publicados em livro --nada mais são do que registros de um quintal que existiu na casa de seu avô e onde o menino Paulo brincava e tomava conhecimento do mundo. Essa casa desapareceu do mesmo modo que desapareceram o quintal --e o menino. Mas graças a esses poemas, eles retornam inteiros, intactos. E se abrem para nós, também,  em sua natureza mais profunda e reveladora. Aliás, um excelente poeta amigo, o português Luís Costa, já disse que a poesia é o lugar inexplicável de onde tudo emerge e aonde tudo regressa. E eu concordo integralmente com essa afirmação. Mas vamos conferir os versos de Paulo...

O GALO
Na Cruz principia o sentido do meu canto.
Fiel ao tempo, esta planície que ignoro,
desperto os sinos, os lençóis, a pressa,
o repetido exercício da vida humana.
No último dia, quando se confundirem céus
e terra, ainda estarei ali e levantarei
minha garganta ao Senhor, pedindo a graça
de permanecer em silêncio, sem mais os dias,
sem mais os homens.

O PERU
Não se sabe o que vê. A aurora da cauda
levanta o dia num breve rumor de penas.
De um orbe a outro, o paraíso é um extenso
milharal de ouro. Desconhece o tempo, como
certamente ignora as secretas penas do que
não é belo. Talvez cante algum princípio
de felicidade que não alcançamos. Não se sabe
destinado à morte, aos casamentos, aos natais.
Mas ali está, na forma exata do instante
e nunca se repetiu na pele das águas
para que uma vez fosse Narciso.
Porém o leque que abre e cerra à nossa imaginação,
talvez o mova só por indiferença, por uma árdua
necessidade que nos foi vedada.
Apenas o grito, baço e rouco, lembra que afinal
tudo é pó e ao pó tornará, com os casamentos,
os natais, as miúdas alegrias que povoam o chão
comum.

A BORBOLETA
A memória dos homens
é povoada de impérios,
de duras coroas e espadas,
do rumor de altos momentos,
da melodia que a lágrima consagra,
de ruas que se perdem,
de rostos que se apagam,
países que jamais pisaremos,
palavras e datas que nunca voltarão.

Eu quero guardar apenas o instante
em que leve e azul e transparente
pousaste na nudez da minha mão.

A LESMA
Senhor, não me confiaste a graça da beleza,
não mereci a rapidez da corça
nem ganhei plumas que me dessem cores.
Lentamente, sobre o chão que me deste,
busco entender o que me foi destinado.
O aljôfar das noites inutilmente passa em minha pele.
Castiga-me a nitidez do sol como uma idéia fixa.
Sou só.
Na multidão de Teus seres perco-me para encontrar
o que me salvaria.
Fiel à sem-razão de não ser nada,
peço, Senhor, que estendas sobre mim
a piedade dos homens.

E que uma vez, uma só vez,
movido por algum sentimento que ignoro,
alguém me tome em suas mãos
como quem colhe flores.

A MINHOCA
Não fui eleita
não sou bela,
nem sei se existo
ou apenas insisto
em anular-me sob a terra.

A FORMIGA
O mundo é o atarefado desabar de renovadas
aparências de sentido tão secreto como
o nome de Deus. Eu sou apenas uma entre
as menores.
Na consumação dos tempos, depois do último
inverno e do último grão, talvez me esteja
reservada a felicidade de um mundo estável,
perene, necessário. E então não serei mais.

O CÃO
Pois que ficaste do nosso lado és quase humano.
Com o primeiro afago apago o que tens de cão
e dou-te meu nome, chamo-te meu irmão.

 


Publicado por Rubens Jardim em 30/12/2008 às 11h34

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