Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
08/01/2009 21h01
GOVERNO TURCO "DEVOLVE" NACIONALIDADE AO POETA NAZIM HIKMET

O governo turco aboliu nesta segunda-feira, dia 5 de janeiro,  por decreto a decisão que, em 1951, retirou a nacionalidade turca ao poeta Nazim Hikmet, falecido em Moscou em 1963. A iniciativa equivale na prática a "devolver" a nacionalidade ao poeta depois de morto.
Nascido em 1901, Hikmet é considerado o mais famoso dos poetas turcos e um dos mais destacados do século XX. Além de poeta, foi também dramaturgo, novelista e biógrafo. Ativista político, passou no exílio ou na prisão muito tempo da sua vida adulta.
A sua detenção nos anos 40 deu origem a uma campanha mundial para a sua libertação em que participaram artistas e intelectuais como Pablo Picasso e Jean Paul Sartre. No ano em que lhe retiraram a nacionalidade recebeu o Prémio Internacional da Paz atribuído pelo Conselho Mundial da Paz.
Segundo o vice-primeiro-ministro e porta-voz do governo de Ancara, Cemil Cicek, após a decisão de hoje, o túmulo de Hikmet poderá ser trasladado para a Turquia, "quando a sua família desejar".
Num dos seus poemas, Hikmet escreveu que desejava ser enterrado num cemitério na Anatólia, e que não precisaria de lápide se ficasse debaixo de uma árvore.
Abaixo publicamos três poemas de Nazim Hikmet, traduzidos do espanhol por Rubens Jardim. Foi utilizada a edição bilingue, espanhol-italiano, da Casa Editora Abril, Havana 2007, com seleção de poemas feita por Rafaela Valerino Romero.

NOSTALGIA
Cem anos se passaram sem ver teu rosto
enlaçar tua cintura
deter-me em teus olhos
perguntar à tua clarividência
ou aproximar-me do calor de teu ventre.

Faz 100 anos que em uma cidade
            uma mulher me espera.

Estávamos na mesma rama, na mesma rama.
Caímos da mesma rama, nos separamos.
Cem anos nos separam
               cem anos de caminho.

Faz cem anos que na penumbra
                      corro atrás dela.

AO PARTIR
Ao partir, deixo coisas por acabar,     
                                                      ao partir.
Salvei a gazela da mão do caçador,
mas ela seguiu desprotegida, sem recobrar o sentido.
Colhi a laranja da rama,
mas não pude despojá-la de sua casca.
Me reuní com as estrelas,
mas não pude contá-las.
Saquei água do poço,
mas não pude servi-la em copos.
Coloquei as rosas na bandeja
mas não pude talhar as taças na pedra.
Não saciei meus amores.
Ao partir, deixo coisas por acabar,
                                                      ao partir.

ANGINA
Se a metade do meu coração está aqui, doutor,
A outra metade está na China,
Com o exército que caminha até o rio Amarelo.
Ademais, doutor, todas as manhãs,
Todas as manhãs ao amanhecer,
Meu coração é fuzilado na Grécia.
Ademais, quando os presos se fundem em sonhos,
Quando os últimos passos se distanciam da enfermaria,
Meu coração, doutor, meu coração se vai...
Se vai até uma velha casa de madeira em Istambul.
Ademais, doutor, nestes dez anos
Com as mãos sem nada para oferecer ao meu povo pobre,
Apenas uma maçã,
Uma maçã vermelha, meu coração.
É por tudo isso, doutor,
E não pela arterioesclerosis, a nicotina, a prisão,
Que tenho esta angina no peito.
Eu olho para a noite através das grades
E, apesar de todos estes muros que me oprimem o peito,
Meu coração palpita com a estrela mais longínqua.

(De Últimos Poemas 1959-1960-1961)

O link abaixo é imperdível. Música maravilhosa e declamação idem.
http://br.youtube.com/watch?v=uXQkuxQBsPA


Publicado por Rubens Jardim em 08/01/2009 às 21h01

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