Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
27/01/2010 18h43
ENCHENTE NÃO É UM PROBLEMA IMPORTANTE. PELO MENOS PARA O GOVERNADOR E O PREFEITO
Ruas e avenidas inteiras cobertas pela água, aeroportos fechados, veículos ilhados, morros desabando, congestionamentos gigantescos, tunéis inundados, casas desmoronando,  estradas vindo abaixo, milhares de pessoas desabrigadas, represas chegando ao limite de sua capacidade--e, sessenta e quatro pessoas mortas em todo o estado.
Esse quadro--de uma cidade e um estado sem rumo---onde as mazelas se acumulam, parece estar convergindo para o ponto de ingovernabilidade. Dizer que a culpa é de São Pedro --ou da falta de educação da população-- desculpas preferidas das autoridades e repetidas diariamente pela grande imprensa, não escapam ao bom senso e à análise nem de um repórter iniciante.
Mas os jornais e revistas sediados em São Paulo insistem em tratar, com estranha benevolência, o governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab. Fala-se dos índices recordes de intensidade das chuvas, do lixo jogado pela população nas ruas e silencia-se sobre o assoreamento do Tietê, provocado pela falta de limpeza adequada e pela não construção dos 91 piscinões dos 134 projetados pelo DAEE.
Segundo Júlio Cerqueira César, professor de Hidráulica e Saneamento da Politécnica-USP, o Tietê sempre teve velocidade baixa, devido à conformação geológica e topográfica. E as duas primeiras enchentes que infernizaram a vida da população paulistana ocorreram nos dias 8 de setembro e 8 de dezembro—época de chuvas moderadas.
São palavras do professor Cerqueira César, muito preocupado com o que está por vir no período chuvoso, que vai principalmente de janeiro a março. Claro que neste mês de janeiro está chovendo muito. Isso é inegável. Mas as inundações estão acontecendo porque o Tietê está com mais da metade da sua capacidade obstruída por resíduos depositados no fundo do seu canal e que não foram limpos adequadamente pelo governo do estado.
Segundo o prof. Cerqueira César, na cidade de São Paulo, entre a barragem da Penha(Zona Leste) e o Cebolão(Zona Oeste)são depositados por ano cerca de 1,2 milhão de metros cúbicos de terra. E o Departamento de Águas e Energia Elétrica, o DAEE do governo do Estado de São Paulo, faz a limpeza, mas tira só 400 mil metros cúbicos por ano.
E há quatro anos, quando foi concluído o bilionário rebaixamento da calha do Tietê, anunciou-se que São Paulo não teria mais enchentes. De fato, como todos estamos vendo, nunca a nossa cidade esteve tão submetida à invasão das águas e nunca viveu períodos tão longos de situação alarmante. Mas a nossa grande mídia procura isentar tanto o prefeito quanto o governador.
Qualquer cidadão pode imaginar o carnaval que a imprensa faria se a cidade fosse governada por Marta Suplicy ou Luiza Erundina ---e o estado pelo Maluf. E não é preciso ir muito longe para observar as diferenças. Bastava um incidente menor ou uma frase mal colocada para a imprensa culpar a prefeita ou o governador. E isso mesmo quando o problema era causado por uma obra que prometia melhorar a infraestrutura.
Hoje a cidade mergulha no caos e os principais jornais e emissoras de rádio e televisão não cobram medidas dos administradores públicos. E, para finalizar, vejam vocês qual é o tratamento prioritário dado a essa questão. Para 2010, a verba de córregos e galerias para o sistema de drenagem pluvial da cidade foi cortada pela metade. E olha que provavelmente nem o orçamento inicial seria suficiente. Mas não cortaram a verba de publicidade da prefeitura. Com essas atitudes, o  recado é inequívoco: enchente não é um problema importante.
O importante  é tirar os postes da Oscar Freire, a rua das grifes,  refazer as calçadas da Avenida Paulista, enquanto a periferia, e até áreas menos plebéias, não têm esgoto e galerias de águas pluviais. Sem contar a presença avassaladora de um esgoto ao ar livre representado pelos rios Pinheiros e Tietê. Como diz um velho amigo, --e eu concordo plenamente-- São Paulo é o recanto mais reacionário do Brasil.

Publicado por Rubens Jardim em 27/01/2010 às 18h43

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