Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
04/11/2011 10h56
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (11)

FLORA FIGUEIREDO (1947),  poeta paulistana, cronista e tradutora. Já publicou vários livros de poemas. Destacamos: Florescência (1987), Amor a Céu Aberto (1992), O Trem que Traz a Noite(2000) Chão de Vento(2005) e Limão Rosa(2009). Foi colaboradora da revista Cláudia e possui trabalho nas área musical. Seu poema Enrosco, musicado por Ivan Lins, foi gravado pela cantora Simone.

A pedidos
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.

 

Enlevo
Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

 


Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo

 

Retirada

Respeite o silêncio
a omissão,
a ausência.
É meu movimento de deserção.
Abandonei o posto,
rompi a corda,
desacreditei de tudo.
Cansei de esperar que finalmente um dia,
minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo.

 

Lição de casa

Você tampa a panela,
dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,
atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta.

 

RAQUEL NAVEIRA (1957) , poeta sul-mato-grossense, ensaísta, advogada, é mestre em comunicação e letras, pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e ao Pen-Clube do Brasil. É autora de mais de 20 livros, dentre eles Abadia (1996) e Casa de Tecla (1999), ambos finalistas do Jabuti na categoria Poesia.

Fiandeira
Sou uma fiandeira
Tecendo noite e dia
Uma estreita de pensamentos.

Sou uma fiandeira
Aranha tirando de dentro
A liga que emaranha.

Sou uma fiandeira
Amarrando com as mãos firmes
Os laços do meu destino.

Sou uma fiandeira
Bordando com palha e ouro
A bandeira da minha fé.

Sou uma fiandeira,
Vivo á beira
De tudo quilo que é frágil,
Que parece fiapo
Ou que está por um fio.

O pianista
As  mãos elásticas,
Cheias de barbatanas de pele,
Abrem-se como leques,
Como caudas de peixe;
Todo corpo é tangido
Como uma vela
Sobre o navio negro do piano.

Cabelo
Estou triste,
Cortei o cabelo.
Não sou mais adolescente
De tranças
E olhos lânguidos.
Não sou mais moça,
Balançando a crina,
Como égua musculosa
Na colina.
Não sou mais princesa,
Usando tiaras,
Arrastando a coma
Como se tivesse na cabeça
A cauda de um cometa.
Adeus, cabelame !
Derrame de seiva sobre meus ombros,
Véu natural
Com que penetrava câmaras ardentes.
Por que cortei o cabelo ?
Por que não o mantive longo,
Mesmo branco e seco,
Preso na nuca
Por marfim e pentes ?

Canto de sereia
Vem, meu Ulisses,
Detém teu barco,
Sou sereia sedutora,
Sirena suave
Que atrai para o abismo.

Vem, meu navegante,
Para a minha caverna,
Minha gruta secreta
Onde te devoro
E te encanto.

Vem, meu bravo,
Venceste Tróia
Com tua astúcia,
Descansa
Entre penhascos negros
E precipícios de espumas.

Vem,
Sou sereia,
Cauda de peixe,
Toda vulva,
Estranho molusco

Que te descarna em minha ilha,
E te sepulta
Nos baixios do mar.

Espelho
Quando olho no espelho
Brilho
E molho os lábios.

Quando olho no espelho
Colho a lembrança de um onda
E seu marulho.

Quando olho no espelho,
Sou pomba capaz de vôo
e arrulhos.

Cansada,
Olho no espelho
e me ajoelho.

NYDIA BONETTI (1958) poeta paulista, vive em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Ainda está inédita em livro, mas  publica seus trabalhos em diversos sites culturais e literários de prestígio como Zunai, Cronópios e Germina Literatura. Tem um blog Longitudes onde divulga seus poemas(nydiabonetti.blogspot.com/). É engenheira civil e confessa escrever poemas “para amenizar a dureza do concreto e do aço com o lirismo e a doçura das palavras”

a vida é o que passa
ou o que fica?

— a vida é o meio

não é a massa
é o recheio

— a vida é o emboço

não é a casca
é o caroço

Chão descoberto

chão descoberto
onde me faço e me descubro
até que me cubras
e eu me desfaça - em chão

 

Fluídos

 líquidos

 são os versos

pois que feitos

de lágrimas

suor e sangue

–  do pouco

que inda corre nas veias –

e outros fluídos tantos

pois que não resta em nós

nada de sólido e concreto

 

Solares

outra vez

me ronda a poesia

 

agora é assim

 

quase uma sombra

colada em mim

 

não

 

ela é o sol

eu,

a sombra

 

O não sonhado

queria ter sido - não foi
já foi  já era - foi

de certa forma somos
também o que não fomos

pois sempre estamos
se estamos somos 

o que pudemos ter sido
até além  do imaginado

- o não sonhado é 
o que chamamos  vida

 

Com verso fiado

faço versos porque não tenho
com quem conversar
falo com o verso
e o verso me responde
quando ele fala eu ouço
e o traduzo
no fundo, é tudo
conversa fiada
com verso sem verso
a vida é barra
e ponto
(ou dois pontos):
está pronto o poema
que não fiz

 

LÍGIA DABUL (1959) poeta e antropóloga carioca, é professora na Universidade Federal Fluminense e faz pesquisas em antropologia da arte. É autora dos livros de poemas Som, Nave e da plaquete Algo do Gênero. Tem poemas publicados em antologias, revistas e jornais literários, impressos e virtuais, do Brasil e de outros países.

 

Passo de embarcadiço

um pouco de calma é preciso
a nave ir devagar

um palmo
de mar
muitíssimo

se no navio

flutuam
premissa
destino

tudo canto de sereia
melhor ir devagar

 

Valva
nasciam os pêlos
da perna e as partes
seletas daí nicotina
e a lanugem grudarem
nos beijos

cravaram o solo
na tarde cataram
uns frutos queriam
apenas sementes
calafetar junturas
- os dois inteiros

 

Mel
O cheiro doce e a abelha ali grudada.
Na tarde não havia nada firme
que pudesse conter alguns cuidados:
tentamos umas flores. Mas mantínhamos
a porta aberta e o vento encaminhando
tudo. Por isso o cheiro doce imenso;
daí ser necessário que crianças
ficassem afastadas por um tempo.
Tanto era o cheiro terno que a primeira
garota obediente desistiu.
Estava presa ao fruto de uma abelha
e as asas da vontade apareciam.
Os meninos queriam de verdade.
Tivemos que fechar a porta rápido.

 

Chove

Chove tudo.

Chove tanto.

Chove como homem

depois do incômodo

do mormaço. Goza

como vento denso

finalmente molha o suor.

A chuva que se estende em tempo ameno,

desconcentrado,

quero com a boca ainda toda aberta

 

Festa

Preocupam-se com a voz. Perdoam sempre
a dispersão de ouvintes, a presença
de corpos procurando outro contato
e a tensão que já foi a original.
Eu me lembro de antigos aditivos,
prenúncios de desfechos, formas fixas,
imagens bem mais vivas que a do instante:
os teus olhos abertos sobrevoando
sem que faça sentido essa fogueira
acesa, a boca acesa, eu mesma acesa.
Teus olhos não tiveram nunca idéia
de tudo o que se queima e se oferece.

 

 


Publicado por Rubens Jardim em 04/11/2011 às 10h56

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