Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Diário
08/02/2010 10h25
SEM TÍTULO
Sem texto

Publicado por Rubens Jardim em 08/02/2010 às 10h25
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
05/02/2010 00h00
INFELICIDADE É QUESTÃO DE PREFIXO. VIVER O SENHOR SABE: VIVER É ETCÉTERA. TINHA VERGONHA DE FRENTE --E DE PERFIL. EU SOU
Estes são apenas alguns dos achados verbais do grande mestre Guimarães Rosa. Coloquei muitos outros à disposição de você em www.rubensjardim.com , item Meu Diário, página 9.
E para quem  possui, também, a sensação de que a "minha língua é minha pátria", coloquei um e-book: Carta ao Homem do Sertão. É só ir até lá, clicar e locupletar-se com a sabedoria danada de Guimarães Rosa. Venha dar uma espiada.
Afinal, não é a toda hora que uma cultura produz um gênio da dimensão de Guimarães Rosa. E esse mito criado em torno de sua obra, ler Guimarães Rosa é difícil, não passa de mais um chavão de quem quer manter a linguagem e a vida presa em camisa de força. As suas inovações expressivas batem diretamente no ponto crucial de toda obra de gênio: a simplicidade. É só dar uma espiada e conferir. 
Lá em cima reproduzo algumas páginas desse livro-homenagem que foi lançado na minifeira do livro durante a realização da 1 Bienal Internacional da Poesia, em Brasília, em 2008. E aqui embaixo reproduzo um poema que me encantou e que faz parte do livro Magma, publicado em 1936 e premiado pela Academia Brasileira de Letras.

Sono das Águas
Guimarães Rosa

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...


Publicado por Rubens Jardim em 05/02/2010 às 00h00
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27/01/2010 18h43
ENCHENTE NÃO É UM PROBLEMA IMPORTANTE. PELO MENOS PARA O GOVERNADOR E O PREFEITO
Ruas e avenidas inteiras cobertas pela água, aeroportos fechados, veículos ilhados, morros desabando, congestionamentos gigantescos, tunéis inundados, casas desmoronando,  estradas vindo abaixo, milhares de pessoas desabrigadas, represas chegando ao limite de sua capacidade--e, sessenta e quatro pessoas mortas em todo o estado.
Esse quadro--de uma cidade e um estado sem rumo---onde as mazelas se acumulam, parece estar convergindo para o ponto de ingovernabilidade. Dizer que a culpa é de São Pedro --ou da falta de educação da população-- desculpas preferidas das autoridades e repetidas diariamente pela grande imprensa, não escapam ao bom senso e à análise nem de um repórter iniciante.
Mas os jornais e revistas sediados em São Paulo insistem em tratar, com estranha benevolência, o governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab. Fala-se dos índices recordes de intensidade das chuvas, do lixo jogado pela população nas ruas e silencia-se sobre o assoreamento do Tietê, provocado pela falta de limpeza adequada e pela não construção dos 91 piscinões dos 134 projetados pelo DAEE.
Segundo Júlio Cerqueira César, professor de Hidráulica e Saneamento da Politécnica-USP, o Tietê sempre teve velocidade baixa, devido à conformação geológica e topográfica. E as duas primeiras enchentes que infernizaram a vida da população paulistana ocorreram nos dias 8 de setembro e 8 de dezembro—época de chuvas moderadas.
São palavras do professor Cerqueira César, muito preocupado com o que está por vir no período chuvoso, que vai principalmente de janeiro a março. Claro que neste mês de janeiro está chovendo muito. Isso é inegável. Mas as inundações estão acontecendo porque o Tietê está com mais da metade da sua capacidade obstruída por resíduos depositados no fundo do seu canal e que não foram limpos adequadamente pelo governo do estado.
Segundo o prof. Cerqueira César, na cidade de São Paulo, entre a barragem da Penha(Zona Leste) e o Cebolão(Zona Oeste)são depositados por ano cerca de 1,2 milhão de metros cúbicos de terra. E o Departamento de Águas e Energia Elétrica, o DAEE do governo do Estado de São Paulo, faz a limpeza, mas tira só 400 mil metros cúbicos por ano.
E há quatro anos, quando foi concluído o bilionário rebaixamento da calha do Tietê, anunciou-se que São Paulo não teria mais enchentes. De fato, como todos estamos vendo, nunca a nossa cidade esteve tão submetida à invasão das águas e nunca viveu períodos tão longos de situação alarmante. Mas a nossa grande mídia procura isentar tanto o prefeito quanto o governador.
Qualquer cidadão pode imaginar o carnaval que a imprensa faria se a cidade fosse governada por Marta Suplicy ou Luiza Erundina ---e o estado pelo Maluf. E não é preciso ir muito longe para observar as diferenças. Bastava um incidente menor ou uma frase mal colocada para a imprensa culpar a prefeita ou o governador. E isso mesmo quando o problema era causado por uma obra que prometia melhorar a infraestrutura.
Hoje a cidade mergulha no caos e os principais jornais e emissoras de rádio e televisão não cobram medidas dos administradores públicos. E, para finalizar, vejam vocês qual é o tratamento prioritário dado a essa questão. Para 2010, a verba de córregos e galerias para o sistema de drenagem pluvial da cidade foi cortada pela metade. E olha que provavelmente nem o orçamento inicial seria suficiente. Mas não cortaram a verba de publicidade da prefeitura. Com essas atitudes, o  recado é inequívoco: enchente não é um problema importante.

Publicado por Rubens Jardim em 27/01/2010 às 18h43
 
08/01/2010 12h24
A SINA & OS SINAIS
Dentro estão as ruas
os sinais da infância.
Dentro estão meus pais
Meus irmãos. Dentro 
está Isalina e a Vila 
 
E o Pai Nosso na beira
Da cama. Dentro estão
As palavras herdadas,
as visões e o imaginário 
guardado a sete chaves.
 
Dentro estão os poetas
Reinventando os sentidos
E os significados. Dentro
Está o silêncio e a espera
da definitiva colheita.

sp/janeiro 2010

Publicado por Rubens Jardim em 08/01/2010 às 12h24
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08/12/2009 11h52
O SERTANEJO FALANDO MOTIVOU ESTE SER URBANO FALANDO. OUTRO POEMA EM HOMENAGEM AO POETA JOÃO CABRAL
Escrevi este poema em homenagem ao poeta João Cabral de Melo Neto. Minha intenção foi apropriar-me de sua linguagem e dos seus ritmos. Mais precisamente: estabelecer um contraponto ao poema O Sertanejo Falando, publicado no livro Educação Pela Pedra, Editora do Autor, 1966.
Nesse poema, o autor, que se distinguiria da geração de 45 por ter aberto e trilhado caminhos próprios, tornando-se um caso muito particular na evolução da nossa poesia, aborda a questão do sertanejo, construindo palavra sobre palavra, como o engenheiro coloca pedra sobre pedra. Aliás, na página de rosto do livro Educação Pela Pedra pode-se ler a dedicatória esclarecedora: A Manuel Bandeira esta antiLira para seus oitenta anos.
Utilizando linguagem enxuta, concisa, elíptica, esse poeta-engenheiro constrói uma poesia racional, calculada, que enfatiza os dados objetivos da realidade através da contenção da subjetividade poética. Nunca resvalou no mau gosto nem se deixou atrair pelo panfletarismo ou pela facilidade, caindo no poema-piada (nada contra o humor ), no prosaísmo oco ou no desleixo estrutural. Quase sempre, ao invés de uma visão sentimental, o poeta preferiu a representação desses fatos, imitando a configuração que eles têm na realidade. E no poema O Sertanejo Falando, o poeta expressa principalmente isso: a dura realidade nordestina. 
Nesse poema, que publico agora, procurei adotar o mesmo procedimento. Mas o foco foi deslocado para o Ser Urbano Falando. Vamos deixar de blá-blá-blá e ler o poema:

O SER URBANO FALANDO

A fala a nível do ser urbano, engana:
as palavras dele vêm,como ulceradas
(palavras de efeito, mobília), na sintaxe
de uma expressão indecisa, de almofadada.
Enquanto que sob ela, madura e apodrece
o arcabouço do sonho, a pessoa projeto,
perspectiva inglória do ser urbano,
incapaz de afirmar suas paixões.

Daí porque o ser urbano fala muito:
as palavras sem paixão adulteram a boca
e no idioma cidade não se fala o essencial;
nesse idioma o usual é a ausência do singular.
Daí também porque ele fala depressa:
tem de cortar as palavras de suas raízes,
aliená-las de sua vida, reconfeitá-las;
e esse trabalho não deve tomar seu tempo.


Publicado por Rubens Jardim em 08/12/2009 às 11h52
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Página atualizada em 08.02.10 20:13