Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Diário
31/08/2010 19h48
AUTORES BRASILEIROS NA MIRA DOS ANALISTAS JUNGUIANOS

NO GRANDE SERTÃO RECRIADO POR GUIMARÃES ROSA, QUASE NÃO HÁ ESPAÇO PARA O FEMININO. É NESSE UNIVERSO, DOMINADO POR HOMENS E POR VALORES MASCULINOS, QUE O PAPEL DAS MULHERES FOI DESTACADO POR ÁUREA ROITMAN

A Casa das Rosas realizou no último sábado, dia 28, o II Simpósio do IJUSP - Jung e a Literatura Brasileira. No  encontro, que reuniu membros do Instituto Junguiano de São Paulo e pessoas interessadas, foram abordadas questões relacionadas aos trabalhos literários do Padre Antonio Vieira, poetas Manuel Botelho Gregório Mattos, Adélia Prado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Cora Coralina e Manuel Bandeira.
Cada um desses autores teve algum aspecto de sua obra vasculhada pelos analistas junguianos. Vieira foi esmiuçado por Glauco Ulson que destacou aspectos da sua contribuição na formação da alma brasileira. Manuel Botelho e Gregório de Mattos foram analisados por Rubens BragarnichAdélia Prado foi examinada por Angela Nacácio que pesquisou sua obra e apresentou interessantes recortes de seus textos dentro da perpectiva junguiana. Guimarães Rosa foi o autor escolhido por Áurea Pinheiro Roitman para sua apresentação de retratos femininos do Grande Sertão:Veredas.
Seguiram-se, depois, as abordagens feitas por Carmem Marquez, Durval Faria e Renata Whitaker sobre Clarice Lispector. E, por fim, Dulce Brizza tratou de Cora Coralina, enquanto Ricardo Pires de Souza e Irene Gaeta debruçaram-se sobre Jung e os poetas brasileiros e Gustavo Barcellos ocupou-se de Manuel Bandeira e a transfiguração do mau destino.
Destaco a abordagem feita por Áurea sobre as imagens do feminino em Grande Sertão: Veredas, por uma razão muito simples: Guimarães Rosa é um de meus autores preferidos e Grande Sertão:Veredas é uma das obras mais densas e de maior complexidade artesanal jamais produzida no mundo das letras. Mais ainda: o escritor mineiro foi um alquimista da palavra e manteve sua narrativa encharcada por elementos metafísicos, religiosos e inconscientes.
Ele mesmo confessa isso em suas cartas enviadas ao tradutor italiano Edoardo Bizarri.
(...) os meus livros, em essência, são 'anti-intelectuais' – defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração sobre o bruxolear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, da megera cartesiana. Quero ficar com o Tao, com os Vedas e Upaxinades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bergson, com Berdiaeff – com Cristo, principalmente.
Por essas afirmações, é possível perceber o grau de intensidade com que Rosa lidava com a dimensão do intangível. Mas voltando ao trabalho de Aurea, o que nos chamou a atenção foi ela ter vislumbrado o papel das mulheres na obra e a sua influência na trajetória de Riobaldo. Mas vejamos alguns pontos:
Eu lhes proponho acompanhar  estas figuras do feminino e  suas  estórias , que  se  revelam  no  cerrado sob o sol  inclemente e nos redemoinhos  das encruzilhadas . Estórias que evocam o imaginário coletivo desvelando paixões, ódios, suspeitas e alegrias , numa trama urdida com tal intensidade que nos sentimos  completamente  envolvidos na travessia de Riobaldo ao ouvi-lo contar as suas reminiscências de um  reino  perdido . É  neste  zigue-zaguear , alinhavando uma  reflexão  profunda de sua errância no Sertão, que o ex-jagunço revela aquilo que chamamos o seu “ processo de individuação“ .
Após essa introdução, Aurea se debruça sobre as personagens femininas que aparecem no Grande Sertão: Maria Leôncia,  Nhorinhá, Otacília-- e Diadorim. Maria Leôncia,a rezadeira, é a primeira presença feminina em GSV. E isso faz a analista perguntar: não seria uma reverência de Guimarães Rosa ao Sagrado e a seus mistérios? Rezadeiras, benzedeiras  e  raizeiras, são portadoras de uma tradição oral antiqüíssima. Segundo a crença popular  elas são protegidas pelos santos e re-afirmam  a  presença deles na vida de todos que as procuram. Elas nos fazem lembrar as divindades protetoras e são, sem dúvida,  portadoras  de uma força numinosa singular. Com  mãos ágeis sustentam pequenos ramos verdes; traçam cruzes  no ar sobre  a  cabeça do doente enquanto murmuram preces. Tecem assim um fio invisível unindo as dores do  homem com a evocação poderosa do Sagrado, na figura da SantíssimaTrindade e do Espírito  Santo.
Segundo Aurea, Guimarães Rosa configura, através de Maria Leôncia, a imagem arquetípica do curador amoroso. E aquela moça,meretriz, por lindo nome Nhorinhá, é a outra personagem que leva a autora a perceber, nas circunstâncas paradoxais do sertão,o fio amoroso comovendo Riobaldo, gerando as suas boas ações e o impedindo do mal.
Nhorinhá é um personagem ao mesmo tempo sagrado e profano. Riobaldo havia se distanciado do  seu bando , o que caracteriza um processo iniciático,  pois embora não tenha se embrenhado numa  floresta,  nem se dirigido ao deserto, como na maioria dos mitos , é aqui mesmo, no Sertão, que  este  processo tem lugar , na “ cabana  iniciática”  de  Nhorinhá .
A  revelação da religiosidade de Nhorinhá surpreende , quando traz nas mãos uma figura de Santa,  para ser beijada . Os  lábios doces  de Nhorinhá beijam o jagunço matador,  Riobaldo Tatarana, cuja  arte é a Guerra. Riobaldo, em sua descida iniciática,  enfrentará “os demônios” que definem os processos de iniciação na trajetória do amadurecimento espiritual .
Não resta dúvida que Riobaldo vive uma paixão por Nhorinhá. Ela lhe inspira, provocando as mais profundas  emoções. Através de Nhorinhá, Riobaldo se afirma como homem. Com Nhorinhá, está  sendo vivida a conjunção do profundamente carnal com a epifania do Sagrado, unindo o sublime ao terreno, o Céu à Terra. Nhorinhá representa, no nosso entender, a imagem arquetípica do Amor Cortês , permanecendo eterno na memória, mas jamais se realizando efetivamente .
A próxima personagem feminina é Otacília, associada ao amor angélico que purifica e salva.
Otacília está para Riobaldo como  Beatriz  para  Dante,  aquela  através  da  qual  os  infernos serão ultrapassados, conduzindo a um estado de serena beatitude.Também, como Beatriz, Otacília oferece a Riobaldo uma proteção sublime. Este amor cura as  muitas feridas de seu grande penar. Com Otacília, frágil e casta em meio à aridez do sertão, Riobaldo re-direciona os seus sonhos e decide deixar o universo paradoxal e provisório das lutas e incertezas.
Otacília oferece estabilidade , fidelidade e afeto constantes além de estar associada a uma atmosfera de religiosidade. O amor deles constela a “coincidentia oppositorum” uma vez que formam um par  antagônico. Não nos  esqueçamos que Riobaldo - jagunço , Riobaldo - Tatarana, o  Urutu- Branco,  tem a natureza vinculada à sua mãe, a índia Bigri  e,  se  unido à meiga e casta Otacília, constela um  amor que indo além da mera sexualidade, busca um sentido transcendente na vida. Otacília nos parece constelar a imagem arquetípica da anima de Riobaldo.

E por fim, no grande sertão recriado por Rosa, dominado pelos homens e pelos valores masculinos, Áurea supera a tríade amorosa de Riobaldo e promove uma série de reflexões sobre Diadorim, personagem que desperta em Riobaldo um amor inexplicável e impossível, que irá se apossar do jagunço como um feitiço, um encanto e que há de perseguí-lo ao longo de toda a travessia.
Com Diadorim adentramos  o terreno da suspeita e do desejo, da lembrança e da  dor,  da epifania e  da  neblina. Diadorim  surge como a grande força iniciática e transformadora . A  própria força do  destino. Intensa. Luminosa. Paradoxal. Riobaldo e Diadorim se encontram, pela  primeira vez, às  margens barrentas do S.Francisco num momento marcado pela magia e encantamento : “o menino  de olhos verdes, grandes.” Juntos fazem a travessia do rio, num espaço sacralizado, do encontro  das águas barrentas do rio S.Francisco com as águas claras do rio  de-Janeiro, num rito iniciático  que separa, para  sempre, Riobaldo do regaço materno da Bigri  e o enlaça, também para sempre , nos enigmáticos  meandros dos olhos verdes do Menino.   
Riobaldo se encanta e se deixa fascinar pelo feminino em Diadorim, cuja sensualidade o lança nas veredas do desejo impossível  e do pesadelo  assombrado. Este amor-natureza, irrompe como magma no seio da terra, inundando, levando consigo tudo. Esse amor  é sentido como “coisa do  demo”. Amor como feitiço,“coisa  feita”. Riobaldo oscila , entre o amor  imaculado de Otacília e o amor condenado, diabólico por Diadorim. Riobaldo se debate junto ao desafio da entrega, entre o “chamado” e o “ recuo “ frente àquela  “beleza  verde” pela qual  se sentia ameaçado. “ Olhos  verdes....das  compridas  pestanas”. O  verde ensombrado de Diadorim significando o que está oculto, envolto em mistério , forte na sua presença,  hipnótico no seu chamado . Não são olhos que permitem que nos espelhemos neles, reconhecendo-nos no outro. Antes, são olhos que pertencem ao absolutamente Outro, que tem aquilo que não temos, que são aquilo que não somos . Estes olhos não espelham, apenas contrastam e atraem com a marca do imprevisível. Diadorim envolve Riobaldo suavemente como a neblina, impedindo-o de ver o que está mais adiante. A neblina, no seu paradoxo, acolhe, protege , e também tolhe, cerceia . Nada em Diadorim é tranqüilo, nem o amor sexual nem o sublime .
Diadorim encantador, apaixonante e apaixonado, andrógino e terrível como os Anjos, infunde em Riobaldo uma paixão equívoca,  próxima do estado de encantamento atribuído ao Maligno. Em Diadorim se  constela o paradoxo da ternura materna e o arrebatamento vulcânico do erotismo, que  tomando Riobaldo num redemoinho de afetos, o fazem “ viver os seus avessos” . Enquanto refém destes sentimentos, ele jamais  consegue romper as águas caudalosas destes amores . Ele permanece à margem, perplexo  no  impasse,  no paradoxo  .    
Para Áurea, Diadorim representa a imagem arquetípica do grande amor.
 


Publicado por Rubens Jardim em 31/08/2010 às 19h48
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17/08/2010 14h39
não quero apenas escrever, mas ser o que escrevo. a poesia é a minha religião.
UMA POESIA FEITA DE PARADOXOS, TAPAS E BEIJOS ENTRE OPOSTOS.
EIS WALDO MOTTA, UM POETA MÍSTICO, ESCRACHADO, APOCALÍPTICO
Conheci o poeta Waldo Motta no 1º Encontro Literário de São Mateus, realizado em fins do mês de julho. Não foi preciso nem apresentação: algumas palavras foram suficientes para saber que dividíamos o mesmo entendimento a respeito de poetas e de poesia. Em suma, esse encontro teve muito mais um viés de reencontro.
Waldo Motta acha, por exemplo, que não se faz poesia com micagens e joguinhos verbais.“A poesia é a minha sacrossanta escritura, cruzada evangélica que deflagro deste púlpito. Só ela me salvará da goela do abismo. Já não digo como ponte que me religue a algum distante céu, mas como pinguela mesmo, elo entre alheios eus”
Embora tenha feito essa profissão de fé no poema Religião, uma espécie de auto retrato, Waldo Motta foi considerado um poeta desbocado, erótico-místico e obsceno. Segundo ele, por ter sempre misturado palavras difíceis e eruditas com palavras sujas, enlameadas e gosmentas. E por nunca ter negado a sua condição de homossexual, apesar de recusar o rótulo de autor gay.
“Minha poesia é uma síntese de meu projeto de vida, uma aventura em busca da Verdade, intuída como a ciência da restauração da condição divina (...). Não quero apenas escrever, mas também ser o que escrevo. Daí o entusiasmo e o tom solene, porque é algo sério; daí o caráter pregacional, mesmo que o meu discurso esteja ainda em construção.”
Autor de mais de uma dezena de livros de poemas publicados desde 1980, Waldo Motta ganhou notoriedade a partir da publicação de Bundo e outros poemas (1996), seu nono livro, publicado pela Editora da Unicamp, de Campinas. Foi aí que a irreverência do poeta capixaba atraiu a atenção da crítica e de diversos figurões das letras brasileiras.
Desde Bundo e outros poemas, rasgo os véus simbólicos, arranco a calcinha e a cueca de metáforas, alegorias, arquétipos e que tais, e mostro o que é o inefável, o sublime, o sagrado, a coisa etc. E faço tudo isso experimentando as mais variadas formas artísticas, e todos os registros, estilos, sem preconceito.
Esse livro mereceu artigos, resenhas e textos de pessoas como Ítalo Moriconi, Massao Ohno, Roberto Schwarz, Zé Celso Martinez Correa, João Silvério Trevisan, Lúcia Sá, Ricardo Aleixo, Jaguar, Fábio de Souza Andrade, José Carlos Barcellos, Célia Pedrosa, Candace Slater, Gilmar de Carvalho, Iumma Maria Simon e Gwen Kirkpatrick.
Mas vamos ao que caracteriza o trabalho poético desse sodomita místico do Espírito Santo-- termo empregado por Ítalo Moriconi. Antes de tudo é preciso destacar uma originalidade radical, transgressora, quase sem precedentes.Sua voz surpreende tanto pela articulação entre o erotismo e o sagrado, como pelo tratamento dado a opressão social, racial e sexual.
Tudo isso, aliado a uma riqueza e variedade formais, raras hoje em dia, revelam  um poeta audacioso, com dicção muito própria, que não deixa de ser lírico e inventivo. E que mesmo desconfiando de tudo, inclusive de mim, não para de ler e escrever em busca da palavra precisa e do apuramento expressivo e espiritual.
Sem fazer nenhum tipo de concessão, Waldo Motta acredita que o papel da poesia é desvelar a coisa, dizer o que não se diz, ensinar, orientar, ser a mensagem da salvação. Claro que isso pode soar antiquado e desatualizado. Mas como já disse o poeta Ferreira Gullar, escrever poesia é estar de mãos dadas com a humanidade, com a fraternidade, com o carinho, com a solidariedade.
Ou como disse o próprio Waldo em um poema: descobri em meu corpo a réplica do universo, o umbigo do ubíquo. No âmago do abismo encontrei o bem e o mal em comunhão. E nunca mais fiz perguntas.

Com a palavra o poeta:

O LABOR DISCRETO
As coisas não mudam assim
da noite para o dia, céleres.
Por isso, perdi a flama
que fazia de meus versos
uma tocha iracunda.
porque no final das contas
o importante é ter mudado
um pouco de mim, ao menos.
O cupim, no anonimato,
rói as vértebras deste tempo.
 
MOR ULTIMA RATIO
e não há razões para babaquices
metafísicas em cabeça a prêmio.
antes que se consuma a sentença
que se consuma a vida.
e que a morte seja humilde faxineira
 a recolher somente a sucata,
 o bagaço do que fomos, só os restos
da festa que se fez da vida inteira.

OBSESSÃO
Não posso esconder:
- Deus é um troço
que me incomoda,
inseto algures
na noite em claro,
inquieta pulga
que me passeia
fazendo cócegas.
Deus me aflige
como doença
que progredisse
secretamente.
Deus é um bicho
de estimação.
se o escorraço,
Deus me perdoa
e volta, à-toa.

ODE À IDA AO ID
Hás
 
 
 
 
de
 

 
 
 
ir
 
 
 
 
ao
 
 
 
 
Id
 
 
Hás
 
 
 
 
de
 
 
 
 
ir
 
 
 
 
ao
 
 
 
 
Hades
 
 
Hás
 
 
 
 
de
 
 
 
 
apegar
 
 
 
 
-te a
 
 
 
 
toda e qualquer
 
 
 
 
merda
 
 
 
 
neste
 
 
 
 
mar de
 
 
Hás de enfrentar
 
 
 
 
a nado
 
 
 
 
o nada
 
 
para enfim dar
 
 
 
 
a Lugarnenhum
 
 
 
 
 
Hás de ir ao Id,
hás de ir ao Hades,
apesar de Cérbero
a tudo atento
com seus mil ouvidos
e olhos cibernéticos,
apesar de toda a
hiperinfernália
de ritmos pânicos,
sabores e odores
e cores e sons
alucifeéricos
do Leviatan.
Hás de ir ao Id,
hás de ir ao Hades,
derrotar Satan
e as potestades.
 
 
AS BRINCADEIRAS SÉRIAS
Por amor, sou aio e amo 
De quem amo, e persigo,
 Me abomino na lama,
 Enfrento qualquer perigo.
 Se amo mesmo quem amo
 Sou meu próprio inimigo. 
 Pois matei o que morreu
 Em mim ao me dar sem dó
 À mó que moeu meu eu.
Só pode amar quem moeu 
Seu eu na amorosa mó 
E desse pó renasceu.
LIMIAR
 
 
As casas cochilam
ao longo da rua.
Silente e corcunda,
caminho a esmo.
Nos lábios da brisa,
surradas palavras
de encorajamento
que só me azucrinam
meus fudidos nervos.
Galos se esgoelam
que nem camelôs
da Vila Rubim
prescrevendo o ópio
das velhas manhãs.
Mas remédio algum
me cura de mim.
Recorte de sobra,
varo a madrugada.
Nada me consola
de ser miserável.
No entanto, algo,
algo inelutável
e indescritível
reboca meu corpo
rumo a mais um dia.

RUMO AO PARAÍSO

Milênios e milênios de luta
pela sobrevivência entre as espécies,
fizeram-nos assim tão animais
entre os nossos iguais, filhos da puta,
traidores, escrotos e que tais.
Deixai brincar as feras todas, presas
do primitivo instinto assassino.
Deixai brincar as feras, que o menino
nos conduza nos atos e palavras.
Retornemos, agora, ao paraíso
na plena comunhão dos animais.
Jamais exista algo de mais puro
do que nós dois juntinhos, de pau duro.
 
 

Publicado por Rubens Jardim em 17/08/2010 às 14h39
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08/08/2010 20h07
O AMOR E A POESIA SÃO AS ÚLTIMAS TRINCHEIRAS CONTRA A ANESTESIA GERAL DAS CONSCIÊNCIAS E A DOMESTICAÇÃO
Ainda que pouca gente saiba, o amor e a poesia são as últimas trincheiras contra a mercantilização de tudo –inclusive das pessoas. Mas não é fácil visualizar com clareza essa questão. Afinal, existe toda uma orquestração que procura disfarçar o aspecto revolucionário do amor e da poesia.  E não adianta dizer que o amor é pros trouxas e pros otários e o sexo é pros espertos.
É preciso não esquecer que o amor proporciona um contato revitalizador entre as pessoas, potencialmente transformador, já que os apaixonados são desobedientes e menos susceptíveis às barganhas e às propostas de renúncia da liberdade em troca de segurança. Os apaixonados estão na chuva pra se molhar , pois o amor potencializa os amantes para a rebeldia e para a criação.
É nessa direção que o livro de André Gorz, Carta a D, História de um amor , abre um hiato, restabelecendo essa vibração afetiva, incontida, desmesurada. Algo que nos faz lembrar de Tristão e Isolda, matriz das histórias de amor em que os apaixonados se amam loucamente e morrem de amar, contra tudo e todos, contra o mundo.
O livro abre com estas palavras: você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.
Confesso jamais ter lido algo semelhante em toda a minha vida. Fiquei literalmente de ponta cabeça. Imediatamente lembrei de Alvaro de Campos(um dos heterônimos do Pessoa) ironizando: Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Lembrei, também, do deplorável lugar reservado aos velhos em um mundo regido pelos princípios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão.
Desfilaram pela minha cabeça certas noções indissociáveis da velhice: doenças, 
solidão, desânimo, dependência, asilo, preconceito--e o banco preferencial no ônibus
. Mas os idosos, embora relegados, marginalizados e acusados de não entenderem nada, nao são refratários ao amor. E já foi provado:  não se verifica na velhice a suposta desistência da vida sexual e amorosa, pois  essas energias são pulsionais e, portanto, inesgotáveis.
Claro que uma declaração de amor aos 80 anos só pode provocar estranheza, admiração, perplexidade. Na verdade, fiquei estupefacto, encantado –e muito, muito emocionado.
O imperdível Carta a D, História de um amor, é o último livro de André Gorz(2006). Antes dele, nos anos de repressão da ditadura militar brasileira, quando a polícia fazia a devassa de materiais subversivos, ter na estante um livro de Gorz era considerado delito especial, que merecia pena especial -- conforme depoimento de Ecléa Bosi.
Mas vamos situar melhor este autor que sempre esteve envolvido com temas relevantes da teoria social e da política contemporânea. André Gorz foi filósofo, discípulo e amigo de Sartre, e atuou como jornalista em Le Temps Modernes e Le Nouvel Observateur. Foi considerado um dos principais inspiradores do movimento de Maio de 68 na França. E já nos anos 70 escreveu três livros e diversos artigos que se tornaram referência para os movimentos ecológicos. Isso sem falar da campanha que fez contra as usinas nucleares.
Apesar de tudo isso, do engajamento ideológico, da fama mundial e das proposições de políticas públicas que apontam uma solução radical para a crise social atual, André Gorz confessou desejar a morte dessa sociedade que agoniza para que uma outra  possa nascer de suas cinzas. Textualmente diz: é preciso aprender a enxergar , por detrás das resistências, das disfunções, dos impasses de que é feito o presente, os contornos de uma outra sociedade.
Voltando ao livro, Carta a D, História de um amor , veja o que o André Gorz diz: você foi a primeira mulher que consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda: meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo. Se eu fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém. Encontrei palavras que nunca soubera pronunciar: palavras para lhe dizer que eu queria que permanecêssemos juntos para sempre...
Não estávamos unidos apenas em nossa vida privada, mas também por uma atividade comum, na esfera pública...
Na primavera de 1950, quando os Citoyens du Monde me deixaram desempregado, você me disse, de maneira bem simples: A gente vai conseguir se virar sem eles. E, depois disso, encarou quase alegremente um longuíssimo ano de dureza. Você era o rochedo sobre o qual nós dois, nossa união podia ser construída...
Nosso espaço de vida em comum nunca tinha sido tão ampliado como passou a ser a partir da minha entrada nessa revista. Nós éramos complementares. Nós tínhamos , eu e você, adquirido a fama de inseparáveis obsessivamente dedicados um ao outro como escreveria Jean Daniel mais tarde.
Pra finalizar é necessário dizer que em torno da casa onde queria envelhecer com Dorine, Gorz plantou duzentas árvores. Aquela casa era mágica. Na primeira noite, nós  não dormimos. Um escutava a respiração do outro. Depois um rouxinol se pôs a cantar, e um segundo, mais longe, a lhe responder.
Tudo indicava uma velhice serena para os dois lutadores apaixonados. Mas uma doença, contraída por Dorine, atrapalha todos os planos e eles vivem anos a fio procurando vencer essa batalha. Gorz deixa o jornalismo, aprende a cozinhar e cuidar da casa. E em 22 de setembro de 2007, o suicídio de André Gorz e Dorine confirma que ele não seria capaz de viver um segundo sequer sem a presença dela.
 
 

Publicado por Rubens Jardim em 08/08/2010 às 20h07
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02/08/2010 11h31
Vista geral do encontro,Josmari, Francisco, Affonso Romano, Jardim, Luiz Costa e Waldo Motta
SÓ A LEITURA MELHORA A SOCIEDADE.O VERDADEIRO PRÉ-SAL É A CULTURA.PALAVRAS DO AFFONSO ROMANO NA ABERTURA DO 1º ENCONTRO LLITERÁRIO DE SÃO MATEUS, NO ESPÍRITO SANTO

O 1° Encontro Literário de São Mateus, Elisama, que aconteceu na semana passada, dias 26 a 29 de julho, no SESC, Centro de Atividades Mesquita Neto, recebeu varios autores capixabas e de outros Estados, além de um bom público que pode adquirir obras autografadas e conhecer os escritores. Ao todo, foram 14 lançamentos de livros.
Na segunda-feira, (dia 26), o evento recebeu a visita do poeta Affonso Romano de Sant’Anna que autografou seu livro QUE PAIS É ESTE,  publicado há trinta anos e que chega agora na 6ª edição –coisa rara nestas bandas onde os livros agonizam em três meses. Após o lançamento, o poeta proferiu palestra abordando questões relativas a arte de ler e o estímulo à imaginação
Affonso Romano sustentou que só a leitura melhora a sociedade. Leitura não é só leitura. É mais. É um processo de transformação. E acrescentou que petróleo não significa necessariamente riqueza e cultura. Quase sempre é dinheiro na mão de meia dúzia de pessoas. E citou exemplos de países ricos e desenvovidos que não possuem jazidas de petróleo, casos de Japão e Alemanha. E lamentou que há muitos países produtores do ouro negro que vivem na miséria.
E disse mais: verdadeiro pré-sal é a cultura. Não existe pais desenvolvido que não tenha investido na cultura.Enquanto o Brasil luta para ter uma biblioteca pública em cada município, a Suécia possui uma biblioteca em cada bairro. E elogiou o atual programa do governo federal --os mediadores de cultura--que atuam montados em bicicletas carregando consigo pequenas bibliotecas móveis.
No dia seguinte, (27), foi a vez da escritora capixaba Josmari Araújo dos Santos, muito conhecida por trabalhos voltados para deficientes auditivos e visuais. Josmari, que tem cinco livros publicados, foi à única escritora da última edição da Bienal Capixaba do Livro, em Vitória, e da Bienal Rubem Braga, em Cachoeiro de Itapemirim, a lançar obras em braile e libras.
Já na quarta-feira, (28), a palestra de abertura foi com o presidente da Academia Espírito Santense de Letras, Francisco Aurélio Ribeiro, que iniciou o dia traçando um passeio pela literatura capixaba. Apontou os principais autores como Elisa Lucinda, Waldo Motta, Viviane Mosé, Reinaldo Santos Neves e Bernadete Lyra e fez uma advertência: talvez existam hoje mais pessoas produzindo do que lendo. Há uma grande dversidade e uma grande produção, mas há pouca circulação porque esse material não circula. Será que um poeta lê o livro de outro poeta?   
Mais tarde, quem conduziu o público em uma incursão pela poesia foi o escritor mateense Waldo Motta, excelente poeta autor de Transpaixão, livro lançado em 2008, que já foi contemplado com bolsa na Alemanha e participou do programa literário writer-in-residence na Universidade da Califórnia. Poeta, escritor, dramaturgo e um monte de coisas que não poderia enumerar, Waldo Motta é daqueles poetas radicais que acreditam piamente no poder transformador da palavra poética. E disse entre outras coisas que só com micagens e joquinhos verbais não temos poesia, mas tão somente poema, simples artefato, coisa.  
Na quinta-feira, (29), data de encerramento do Encontro, foi a vez dos lançamentos de livros de Beatriz Barbosa de Aguiar, Menina do Cricaré: Folhas Soltas ao Vento; de Salomão da Silva Pinto, Sedutora Paixão; e de Rubens Jardim, Cantares da Paixão. O encontro foi encerrado com uma palestra que abordou a questão da poesia como fator de transformação social.
Incumbido dessa tarefa, o poeta Rubens Jardim, que fez parte da Catequese Poética, movimento pioneiro que trouxe a poesia e a arte para as ruas, praças e espaços públicos nos anos 60, afirmou que não dá para ignorar que a palavra está associada à vida, à experiência, à vivência e à convivência. E não se esqueçam que a palavra é um objeto perigoso que pode induzir à subversão e ao encantamento. Acho que poesia é mesmo a mais terrível inocência e quem sabe, a mais temível curiosidade. Algo que nos remete sempre ao inaugural e ao desconcertante.
Segundo uma das organizadores do evento, Beatriz Barbosa Pirola, no próximo ano, São Mateus vai contar novamente com o Elisama. “Está sendo uma grande satisfação ajudar a proporcionar cultura para o nosso município. Queremos resgatar a literatura da nossa cidade e assim criar quem sabe, novos escritores”.
O 1º Encontro Literário de São Mateus foi uma realização da prefeitura de São Mateus, através da Secretaria de Cultura e da Biblioteca Municipal.

Publicado por Rubens Jardim em 02/08/2010 às 11h31
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10/07/2010 19h35
ROBERTO PIVA: O POETA QUE JOGOU TODAS AS FICHAS NA POESIA !
Não me lembro quem falou isso, mas cada poeta, vivo ou morto, é inigualável. E Roberto Piva, um dos mais radicais e rebeldes poetas da minha geração, foi o mais flagrante exemplo disso. Exilado em sua própria pátria, sua poesia sempre foi vulcânica, magmática –percorrendo o inframundo, as florestas, os mares, as montanhas e os céus. Mas foi em São Paulo, nessa paulicéia desvairada, que ele nasceu, cresceu, viveu  e publicou seus poemas.
“Em todos os meus escritos procurei, de uma forma blasfematória, ou numa contemplação além do bem & do mal a La Nietzsche, explicitar minha revolta & ajudar muitos a superar esta Tristeza Bíblica de todos nós, absortos num Paraíso Desumanizado, reprimido aqui & agora.”
Piva dizia que “qualquer metrópole não passa de uma necrópole”  e que “é impossível ter inspiração nesta merda de cidade”. No entanto, seu livro primeiro livro, Paranóia,(1963) além de uma estréia explosiva que quebrou uma porção de paradigmas, é uma celebração da cidade de São Paulo dos anos sessenta: os bares da av. São Luís, o Parque Shanghai, o Jardim da Luz, av. Rio Branco, a Praça da República.
De São Paulo, tudo o que eu quero é que a onça pintada volte a andar pela avenida São João” É com essa visão original que encharca seus versos que ele restabelece o signo de liberdade e de transgressão. Para Piva, muito mais que um instrumento, a linguagem era uma paixão. Muito mais que um propósito de comunicação, a poesia era uma fonte inesgotável de conhecimento, de revelação, de jogo e tragédia.
Nenhum dos poetas da chamada geração de 60 assumiu com tanta coragem as contradições e os conflitos da nossa época. Piva era monarquista e reacionário e se achava um bárbaro, uma força arcaica. Não admitia sininhos no pescoço e transitava na contramão de tudo: família, igreja, estado, sociedade, moral, etc.
Segundo suas próprias palavras, “não sou um homem normal, isto é, um racista, um colonialista.” E advertia com seu ar de autêntico poeta maldito: ” os poetas brasileiros têm de deixar de ser broxas para serem bruxos”.
Acreditava na inspiração e um dos motes de sua atitude transgressiva era este:" só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”. Piva repudiava a pilatização, essa constante cerimônia de lavar as mãos. Ele tinha um compromisso radical com a vida. E sempre esteve empenhado em destruir tudo aquilo que impede o homem de viver plenamente a condição humana.
Ele queria “a destruição de tudo que é frágil: cristãos fábricas palácios juízes patrões e operários.”
E manteve a postura de rebelde mesmo dentro do hospital. Segundo um amigo, “há dez dias, ele tentou fugir do hospital. Arrancou as sondas, estava bravo e queria sair fora. Ele detestava hospital, achava que era tudo magia negra.”
 
Piva morreu na tarde de sábado, dia 3 de julho, de falência múltipla dos órgãos. Estava internado no InCor (Instituto do Coração), em São Paulo, desde o dia 13 de maio. O poeta sofria de mal de Parkinson há cerca de dez anos e descobriu um câncer na próstata, em metástase, durante a internação.

Selecionei alguns versos para que os  leitores possam avaliar as imagens delirantes, a irreverência e a virulência crítica de sua poesia. E não se esqueçam que boa parte destes versos foram escritos e publicados nos anos 60. 
 
“a epopéia do amor começa na cama com os lençóis desarrumados feito um campo de batalha”
“este é o banquete do poeta sempre querendo penetrar no caroço da verdade”
“mestre Murilo Mendes tua poesia são os sapatos de abóboras que eu calço nestes dias de verão”
“vou incinerar teu coração de carne & de tuas cinzas vou fabricar a substância enlouquecida das cartas de amor”
“abandonar tudo. Conhecer praias, amores novos. Poesia em cascatas floridas”
“todo trabalhador é escravo. Toda autoridade é cômica.”
“sou um navio lançado ao alto-mar das futuras combinações”
O arco-íris é o colar do feiticeiro”
“poesia é desatino abrindo a noite ao excesso do dia”
‘amo os garotos que cospem o sangue das amoras”
“que você conheça esse relógio sem nuvens chamado morte”
“anjos de Rilke dando o cu nos mictórios”
"Praça da república dos meus sonhos onde tudo se fez febre e pombas crucificadas
“os telefones anunciam a dissolução de todas as coisas”
 “as senhoras católicas são piedosas,os comunistas são piedosos, os comerciantes são piedosos, so eu não sou piedoso”
“como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca palpita nos boulevares oxidados pela névoa”
“teu nome deve estar como um talismã nos lábios de todos os meninos”
“eu queria ser um anjo de Piero della Francesca
Beatriz esfaqueada num beco escuro
Dante tocando piano ao crepúsculo”

 
“basta de poesia ou religião que não conduza ao êxtase”

“eu sou a pomba-gira do absoluto”

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Publicado por Rubens Jardim em 10/07/2010 às 19h35
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