Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
07/08/2017 12h50
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (96ª POSTAGEM)

BEATRIZ AZEVEDO(19  ) poeta paulistana, cantora, compositora, estudou dramaturgia e é mestre em literatura pela USP. Possui carreira internacional, com discos lançados no Brasil, Europa e Japão. Assina parcerias com Augusto de Campos e Hilda Hilst .Publicou dois livros de poemas: Peripatéticos(1996) e Idade da Pedra(2002).

EU SOU A BEATRIZ

eu sou a beatriz

sem dentes

eu sou a beatriz

dândi abundante

eu sou a beatriz

estridente gigante

eu não sou mais

a beatriz de Dante

 

A FLOR AZUL DO SILÊNCIO

apaixonar-se por uma puta

ter o abismo nos olhos

revoltar-se contra a banalidade dos manuais

amar os poetas que se odeiam

sobretudo aqueles que se insultam mutuamente nas rodas literárias

não pertencer a panelinhas

cozinhar as tripas da poesia no caldeirão dos bruxos

namorar o crepúsculo

trair o espelho e o tempo

casar-se com o sol

colher no asfalto a flor azul do silêncio

depois da passagem apocalíptica do caminhão de lixo

perder o trem perder a hora perder a conta

perder o amigo e a piada

mas não perder a esperança nem o humor

não perder a paciência

nem a suprema soberania do amor

 

O MAR

o poeta nada merece o mar

nenhuma palavra desmerece o mar

o homem nada não conhece o mar

mergulha na água sua cabeça não entende o mar

a água do seu corpo não navega o mar

o barco a vela não acende o mar

ninguém nada reconhece o mar

só o mar sabe nadar

o homem no mar imenso nada

penso

o poeta no mar

nada

no imenso

o mundo

nada

mesmo

a mulher nada se oferece ao mar

o mar desconhece o mar

o homem nada se assemelha ao mar

o homem nada nada nada nada nada nada nada nada

não

alcança

o mar

 

ARANHA FUNÂMBULA

aranha funâmbula

tece seu arame

fio de aço com finíssima argamassa de pétala

linha de pluma

aranha astronauta

flutua e salta

estranha entranha de traços

aranha pendurada

prumo pêndulo rasante sem asa

guindaste de ar e nadas

enquanto eu construía a casa

areia tijolo cimento e sol

ela desenhava suas mandalas

se apossava dos cantos

vãos

quinas

esquinas

me olhava com as patas

e desprezava

aranha, fala :

pra que tanta tralha ?

com quase nada

a aranha criava

sua rede de seda e arte

porque sabe

– cedo ou tarde –

parte-se

ROZA MONCAYO ( 1954 ) poeta goiana é também artista plástica. Vive desde os 5 anos em São Paulo. Fez curso de história da arte no MASP,  bacharelou-se em letras e ciências sociais pela USP e foi educadora em escolas públicas. Em 1988 foi para Bélgica, ficou um ano, e quando voltou decidiu abandonar o ensino e dedicar-se inteiramente à arte. Seus poemas já foram publicados pela revista CULT, em abril de 2010.  Publicou seu primeiro livro de poemas - Labirintos da Alma, em 2014, pela editora Patuá.

ORIGEM

Estourar os tímpanos

e libertar a alma.

 

Ouvir com o corpo inteiro

o grito das entranhas.

 

Misturar-se aos sons perfurantes

do encontro absoluto

da baqueta e do couro.

 

Defrontar-se com o início de tudo,

e sentir-se nascendo

do berro e da luz

que te joga no mundo.

 

Ritual de iniciação,

de resistência ----

o som primordial.

 

Resistir,

resistir desde antes.

 

SERIA MAIS FELIZ?

E se eu rasgasse a carne

o ventre

os versos?

Assumisse de vez

o incontrolável

o intolerável

o inadmissível?

 

Sonhos

jorrando do êxtase

a noite virada dia

sexo

todo dia

e os versos?

os versos na carne

nos ossos

no sangue da língua

no sabor quente

do suor

na exaustão do viver

assim

entre versos

e berros

estradas escarpadas

e ranhuras no céu.

 

Se eu assumisse este horror

seria mais feliz?

 

NOMEAR

Nome....

nome do homem

nome das coisas

nome ar.

 

Ar tem nome?

Tem nome sim o ar.

Respiração: o homem na ação de existir

de respirar.

 

Fôlego para correr

ficar

para suportar.

 

Nome do homem para se identificar.

Quem sou?

Sou...

sou João

sou Maria

não

não sei quem sou.

O nome só me nomeia

não diz afinal quem sou.

 

Ah!

que confusão

Quero voltar para o ventre

lá, onde latente sou.

Onde o nome não existe

assim falado

concreto

na boca de todo mundo.

Onde o que sou

está livre da dúvida

porque ainda não se nomeou.

 

Deve haver um lugar

um lugar só meu

sem precisar nomear.

 

UNÍSSONO

Súbita

solidão

soluça

silenciosamente

no cio sem solução

sem sol

----unção.

 

CÁSSIA JANEIRO(1964) poeta paulistana, é formada em filosofia e serviço social. Foi professora universitária e consultora da UNESCO. É secretária-geral da União Brasileira dos Escritores (UBE) Ganhou o Prêmio Mundial de Poesia Nósside (2014)e participou de várias antologias. Publicou Poemas de Janeiro(1999) e Tijolos de Veneza(2004) e A Pérola e a Ostra(2007) finalista do prêmio Jabuti em 2008.

O QUE SOBROU

                 (Para Antonio Candido)

O que sobrou de você neste

Apartamento

Foram as suas roupas,

Que logo vão ser dadas,

Os seus livros,

Alguns dos quais serão meus,

Aqueles que compramos juntos,

As lembranças.

O que sobrou foram seus retratos e,

Quando vi uma foto sua, sorridente e saudável,

Lembrei-me de que não me preparei

Para a sua vinda,

Mas pude me preparar para a sua ida.

Mas quando você foi,

Ah, meu Deus!

O que sobrou?

O que sobrou

Fui eu.

 

FLOR DE CAMINHO

Há de nascer uma flor de lótus

No meio

Do caminho.

 

Há de nascer uma flor de lótus

Permanente

Para que a gente suporte,

Para que a gente se importe

Com o que está à nossa frente.

 

Há de nascer uma flor de lótus

Permanente

Para que a gente suporte,

Para que a gente se importe

Com o que está escondido,

Longe do nosso umbigo,

Calado numa noite quente.

 

Há de nascer uma flor de lótus que nos lembre:

O caminho do meio não é

O meio do caminho.

 

ABANDONO

Elas esbarram em nós

Com seus chocolates, balas, truques

E limpam nossos para-brisas nos faróis.

Sua infância escorre como aquela

Água suja que vejo no vidro.

Uma moeda qualquer

É a medida do seu valor.

São crianças sem dúvidas poéticas

Ou filosóficas.

Não há Hamlets entre elas.

Não estão entre o ser e o não ser.

Não são.

 

PÉS

Sob meus pés,

Nada –

E esse nada me

Sustém

GABRIELA SILVA(1978 ) poeta paulistana, deixou São Paulo há muito tempo e vive em Porto Alegre. Formada em letras, é  mestre e doutora em teoria da literatura na PUCRS. Professora universitária já ministrou oficinas de criação literária e foi uma das coordenadoras da Breviário cursos, em Porto Alegre. Publicou seu primeiro livro de poemas Ainda é Céu em 2015.

A MÁQUINA QUE SOMOS

Somos essa máquina

de carne, amorzinho,

pernas e braços articulados.

 

Ossos de bom material.

Viscosos, certos líquidos

nos lubrificam, às vezes nos inundam.

 

Somos essa máquina

de reproduzir o mundo,

ou de povoá-lo.

 

Nossas almas,

se enguiçarem,

mandamos a Deus: o criador.

 

Carcaças, ferimos a memória,

dos que fingem não saber

que somos arremedos de qualquer coisa.

 

Somos essa máquina

de torpor, de ânsia,

amor, tédio, ódio.

 

Todas as nossas peças

se encaixam

em comovente perfeição.

 

E por coração

chamamos essa bomba monocórdica

que nos confunde e mantém.

 

DESVÃOS

Perdemo-nos

entre os vãos

úmidos

de nossos dedos.

 

Escapamos

pela nossas pernas

longas

quase velozes.

 

Cegamo-nos

em nossos olhos

exaustos

do mundo.

 

Encontramo-nos

no nosso riso

em vias

confusas, arcaicas.

 

Atravessamos

nossos corpos

tão paredes

entre nós mesmos.

 

É MENTIRA QUE FOMOS FEITOS PARA AMAR

Ainda é céu

 

Que já são horas

de sonhar!

disseram-me.

 

Que já é tempo

de despertar

sussurraram-me.

 

Por ventura

perdi-me

olhando o céu.

 

De nuvens

sob um fundo azul

passei às estrelas.

 

Por descuido

Distraí-me

Do inferno.

 

Ninguém me disse:

Ainda é céu

pra se alcançar.

 

Mas eu sei

que sem despertar

não perco o caminho até lá.

 

OUROBOROS

Se eu te perguntar agora

o que amaste em mim

que poderias me dizer?

 

“Amei o que de ti podia ter

em tempos de guerra e fome.

Amei cada palavra dita

todos os regalos: noite e dia.

Amei o que em ti completava

o ausente em mim mesmo.”

 

Então incomodada com os tempos verbais,

perguntei

por que não me amas mais?

 

“Por que me completaste

e não sou mais enigma.

Por que não és mais o silêncio

da palavra esquecida.

Por que te tornaste eu

quando eu queria ser tu”

 

Já virando o rosto

perguntei com medo

e podes me amar ainda?

 

“Amarei o que em ti

eu sou: nós.

Amarei o que posso ter

tudo e nada ao mesmo tempo

Amo o que em ti é mais vivo:

eu.”


Publicado por Rubens Jardim em 07/08/2017 às 12h50
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18/07/2017 23h38
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (95ª POSTAGEM)

FERNANDA CRUZ FILHA (1967) poeta goiana, é psicóloga, mestranda em Performances Culturais pela Universidade Federal de Goiås. Publicou os livros de poesia: Regatos do Instante (2007 )e O ar mais próximo, (2012). Antes de enveredar pelos caminhos da poesia, atuou em artes cênicas e também como cantora de mpb e música edudita.

ELO

                     (a Carlos Rodrigues Brandão)

abraço o que passa e perpassa os teus ais
enquanto o que anda lentamente, solta
e desce em linhas rubras e horizontais

de uma terra amada a que sempre volta

o que nos olhos sempre espera o claro
o azul, o transparente, o amarelo
irreversível em largos gestos declaro
o tempo inverossímil, silencioso, elo

poderia antever da madrugada, a aurora
e o que nasce com o feito da tua mão

na hora egressa, caminhos afora

lugar que se transmuda tão de leve
"de dentro das pedras, do fundo do chão"*
e quase salva a existência de ser breve

A SE DAR

o silêncio aberto e minhas mãos percorrem
a aparente distância que há nos lugares
a água nesses rios que sempre correm
é a mesma, é a chuva a se dar nos ares

no tempo tudo vai e vem a unir
aproximam-me terra e céu, noite e dia
os enredos lá se vão ao que há de vir
que a memória há de ver-se no que via

a aparência nas coisas não revela
o fulgor do instante que não se acaba
a luz de uma página que amarela

entre a flor e a raiz há um leve traço
de silêncio, na seiva que há tanto se dava
e de tanto se dar há de ser o espaço

ESTÁTUA

sublime linguagem da estátua muda
vê tantos olhos e é tão único alvo
segue a tarde a sua mão imóvel
de todos os olhares se viu a salvo

a noite encoberta, as chuvas, o vento
e nada é desfeito em seu rosto branco
as eras, o gesto, o contentamento
perdura e dissolve o riso, o pranto

teu corpo, meu corpo sem movimento
meu passo, só em um dos lugares
teus olhos, meus olhos fitando vento

em um gesto único e definitivo
me grito aos rumos e aos ares
de súbito, saberei se estou vivo

ALGUNS SILÊNCIOS

Alguns silêncios
alargam o olhar

com que nos acostumamos
a pensar
o que vemos

O território
não se demarca
na frequência
das fronteiras

Um cenário
de coisas
humanas 
no horizonte
alargadas
acordei

Uma confissão minha
quase assustada
reconheço
dita em um tempo
outono
da vida

Sigo vivendo
o que antes era pouco
e agora creio
o sem-fim 

Um momento surge
sugere entre fluxos
a diferença inerente
dos tempos
no mesmo verbo

A construção contínua
a reticência no olhar
no ar das folhas
nas areias
na eira dos rumos


reinventar
e estender
entardecer nos olhos
espaços no abraço
o diálogo nas minhas
perguntas
a resposta das mãos
tão cheias de vazios
sãos...

pássaros
meus colegas de ofício
cantam na noite os limos

dos livros
a palavra dos mortos, dos vivos
muito antes, impregnadas ao ar
vivem pelos cantos
a altura
o inaugurar

 

Uma imagem fecunda
dá seus ventos de paisagem
à tudo o que passa
ao centro
à margem
reitera 
o movimento da fala
o impensado do gesto
o inesperado
em um ponto ou lado
sentido

linhas, palavras, lavras
das perguntas
convido
calo e entoo
no espaço
inteiro

inteira
estendo
entendo
o que murmura
a era 
demora
a dizer
alguma coisa
emudecida 

simples
ser

uma vida

e quem dera

no que a tempos

se diz

primavera

ADRIANA GODOY(19   ) poeta mineira, é formada em letras pela UFMG e trabalha como professora e revisora. Desde pequena escreve, mas foi a era dos blogs que tornou seus textos mais conhecidos. Colabora com alguns blogs e revistas literárias e alguns de seus poemas foram publicados no livro ‘Maria Clara: universos femininos’. Em 2015 publicou o seu primeiro livro solo: Mil noites e um abismo

não te amei logo de cara

levou exatamente quarenta e sete dias e uma noite

foi quando vi que seus olhos choraram

quando te contei sobre as noites de chuva

em uma casa velha que eu morava

foi quando te falei de um poema

sobre a solidão das pessoas nas noites de um bar

e você mordeu levemente os lábios

e me pediu mais uma dose de uísque

levou exatamente quarenta sete dias e uma noite

para eu ver que você era a pessoa que eu queria ao meu lado

quando chovesse ou quando o dia fosse claro

e te vejo agora como te vi aquela noite

e no rádio toca uma música

e você me chama pra ouvir

e talvez vamos dançar juntos mais uma vez

VOU TE DAR MEU ÚLTIMO VERÃO

vou te dar meu último verão

todo o outono amarelo

e quando me alcançar

vai ver que sou o mais puro inverno

não dos trópicos

mas dos lugares mais frios da terra

terras da sibéria

não adianta me dizer para abrir as janelas

o sol me é estrangeiro

tenho em mim geleiras ancestrais

meu coração não bate

vacila descompassado

selvas do universo me rondam

e mesmo assim você vai me recriar

e  me amar com tudo que sou

porque você

precisa de uma criatura só sua

mesmo inventada

mesmo com essas sombras geladas

CONSTATAÇÕES

tá bom, você me disse que eu precisava sair de casa, respirar outros ares, ficar com outras pessoas.

mas não tô conseguindo, entende?

gosto de ficar aqui com meus gatos, minha música, meus filmes.

ontem até vi pânico na floresta 5.

porra, todo mundo morre de maneira mais cruel e no final  só os bandidos escapam e felizes.

aí você me pergunta: por que eu vejo filmes como esse tipo c? eu que gosto de filmes de arte e afins?

talvez algum tipo de superação ou punição subliminar, será? de noite até sonhei com algumas cenas.

gosto de fumar sem ter ninguém me enchendo o saco.

gosto de pendurar a roupa no varal e depois ficar olhando as cores perfumadas ventando na área.

gosto de poder ouvir as músicas que me fazem viajar pra qualquer lugar de mim ou do mundo.

gosto de não atender o telefone.

gosto de não ter horário pra comer.

gosto de não ir ao médico.

gosto de ler poemas fodas e textos fodas e descobrir uma porrada de coisas que mexem com a alma.

e passear pelo facebook mas nem sempre.

gosto de andar com roupa velha e rasgada.

gosto de voltar pra casa sempre.

gosto de tomar café olhando a tarde.

aí você me disse que era depressão mas não tô triste.

até danço e canto e brinco no sol com os gatos.

vejo amigos e gosto de ficar com eles e saber que estão por perto.

gosto de me desesperar pelo meu time e gritar quando ele ganha.

gosto de tomar uns porres e só falar merda.

gosto de beijar na boca e namorar de vez em quando.

e cozinhar quando tenho vontade.

gosto do frio e de dias cinzentos.

gosto de ficar com o pessoal lá de casa e muito.

gosto de saber que meus filhos estão bem.

mas não consigo lidar com a desumanidade nunca.

 

gosto de saber que ainda posso fazer o que gosto.

FERIDAS CUSTAM A SECAR

tenho em mim o resto de meus dias

e não sei de que são feitos

sei que horas são quando me chamam pra almoçar

ou qualquer outra besteira cotidiana

a não ser quando incendeia a lua

me importo menos com as coisas que me atormentavam tanto

e desisto de pular a janela

vou acumulando sorrisos e caretas

feridas custam a secar

lobos passam silenciosos e com medo

percebo só as suas sombras

e isso me basta

um drink, amor?

para celebrar o vazio

o que importa

se os degraus são altos e não posso alcançá-los?

enojam-me as tragédias humanas

e sou uma delas

PÂMELA FILIPINI(1994) poeta nascida na cidade de Rolim de Moura , em Rondônia, começou a escrever na infância. Tem formação universitária em Pedagogia, e atualmente dedica-se exclusivamente à escrita. Cultiva solidão e se planta ao silêncio para sobreviver. Escreve. E nas horas vagas, existe.,O lançamento de seu primeiro livro, Folhas dos Ossos ou o tratado das coisas insignificantes será dia 26 de Agosto, no Patuscada.

Haverá um dia que

serei apenas letra

 

e no meu epitáfio

será gravado

[…]

“ela, de tanto ser nada,

tornou-se palavra.”

..........................................................................................................

Nalgum momento da

vida é preciso

 

desmoronar

 

[todo início já foi um entulho]

[…]

Recriar-se é uma

contínua

 

desconstrução

de escombros.

SOLIDÃO RASA

Solidão rasa, aquela que tece

vazios incuráveis

 

[na artéria do tempo]

 

Que não perfura o átomo do mundo

e não pode plantar o afeto

 

no cerne do escombro

 

Que não corrompe os moldes, que

não peca amando o amor como o

 

amor que ama o ferido

 

Que coagula as coisas de dentro

com a mesma rapidez que esconde

 

o olho na pálpebra

 

[que não é semente]

[…]

A semente só aponta à vida quando

afogada pela terra.

...................................................................................................

Sou uma metáfora no mundo.

 

[quero ser real]

 

Uma canção cantada pelas

 

folhas que caem das árvores.

 

A celebração da fruta que

 

amadurece.

POEMA PARA QUEM NÃO CONSEGUE CESSAR DE SI MESMO

Não é conhecer alguém,

principiá-lo em seus silêncios

se apaixonar por alguém,

aprender a amar alguém

 

Não é viver com alguém,

chorar nos ombros de alguém

ter a mão de alguém esquentando a sua

 

Não é sorrir para alguém

dar uma flor para alguém

ou plantar um jardim inteiro para alguém

 

Não é sangrar sua alma para alguém

dar a alguém todos os seus poemas

ou em alguém abraçar todos os abraços

 

Não é brigar com alguém

sair da vida de alguém

e iniciar um novo amanhecer com alguém

[…]

É nunca ter alguém

nunca conseguir esquentar a mão de alguém

por ter o passo costurado ao chão

por não suportar estancar o sangramanto da própria alma

 

É nunca conseguir sorrir

porque a boca tem medo do desabrochar

porque tudo o que floresce recebe novos

olhares

 

É querer ler todos os poemas que escreveu

para alguém

mas não conseguir abrir a porta do quarto.

 

É nunca conseguir cessar de si mesmo.

NATASHA FELIX(1996) poeta santista, está vivendo em São Paulo e cursa letras na USP. Publicou o zine anemonímia (2016) e tem poemas por algumas revistas digitais e físicas. Os textos podem ser encontrados na Mallarmargens, Medium, Nó de 8, Garupa, Raimundo e soltos em sua página pessoal do Facebook.

 

com a cabeça pousada

nas pernas da avó

 a saia de brocado

pinica a orelha

esquerda.

 

cantarola salmos e vai à caça

distraída.

 

o pente-fino é azul.

as varizes na panturrilha dela também.

os dias e a toalha de mesa.

o pente-fino

 atravessa meus cabelos de diaba

as crianças dizem diaba

eu nunca digo.

um pouco amansados

(não o suficiente)

com álcool e cravos

nada

enquanto a avó ajeita os óculos,

procura bichos em mim.

 

a mesma que estoura as lêndeas

as unhas imensas.

como se vingasse

suspeito

o que não caberia na casa.

CARTA ABERTA AOS HOMENS DE PASSAGEM

você com certeza vai

você com certeza vai lembrar de mim

quando topar com a salamandra azul

no orquidário vai com certeza

você vai com certeza

lembrar de mim.

do anel que foi parar no ralo

cheio de cabelo e porra,

você vai lembrar

dos filhos que não fez em mim

eu te disse

era sério quando

o elevador quebrou no oitavo andar eu te disse

aquele era o nosso momento de glória

eu te disse

pra botar no formol e você não entendeu

na hora mas acho que agora olhando a

salamandra azul vai sacar

eu chego sabendo que vou embora.

você vai lembrar

a gente

com vinte anos sem vergonha na cara

nem pra comprar um cortador de unha

imediatista

eu arrancava os excessos com os dentes.

tinha dez reais pra catuaba e um baseado no bolso

eu arrancava os excessos com os dentes.

você vai lembrar disso

de hoje pra trinta anos isso vai ser uma lenda

você vai lembrar de mim

com certeza vai

encostar a testa no box no segundo banho

do dia

enquanto tua mulher tira os

pentelhos da virilha e lê sobre o golpe na turquia

e eu vou estar

em qualquer lugar longe da casa

que nunca tivemos.

CRAQUELADA

tenho habitado muitos riscos.

o baiacu inchado na garganta insiste em

me competir o ar. como trepar em montevidéu

e acordar no jaguaré: genealogia do deslocamento -

me abstenho de maiores explicações. 

li piva como quem toma chá de camomila com canela

assim descobri que o erro é um bacanal lotado de ex

marido. não dá pra ler piva antes do dejejum de uma

segunda-feira do mesmo jeito que não dá pra esperar

o baiacu sair da garganta por vontade divina. tenho

ficado muito quieta &

no silêncio a evidência me expõe:

a memória das sereias do tejo, essa eu invejo; das

prostitutas da Mongólia tenho os mesmos dentes

vermelhos. não sei onde guardei as fotos da

ultima ida ao mercadão de são paulo. onde deixei

o molho de chave, onde foi parar aquele gozo na páscoa de 98,

o jornal pra embalar os cacos de vidro, não sei onde. o

baiacu espinha minha glote, me impede a distância.

mesmo assim eu e o que restou das minhas

lembranças tombadas – nebulosas e uruguaias

como você –

no ringue,

lutando contra o peixe, eu.

FACTUAL

foi certeiro o tiro foi rigidamente correto

bem no meio do olho do fuzuê

no metrô da sé seis e meia

peritos rearranjam a cena

toda a peripécia dá pinta

de que foi marido corno

atrás do próprio espelho,

velha leonora diz isso mas

tem aqueles casos

de objeto não identificado na pista sabe

não basta adiantar a vontade

de deus ainda atrapalha a vida

dozoutro não sei não sei pode

ser bala perdida mas foi tão certo

o tiro foi tão dentro da expectativa

não sei não sei pode ser só

impressão minha ou esse

giz de marcação lupa autópsia

esse cálculo todo com fita métrica e tudo

do espaço entre o ato e o desfecho essas

suposições o desconforto tudo muito

contraído não sei não sei pode ser

que esse tiro certeiro seja

como o nosso encontro:

nem aconteceu ainda.

 

 


Publicado por Rubens Jardim em 18/07/2017 às 23h38
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
30/06/2017 15h36
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (94ª POSTAGEM)

CLAUDIA QUINTANA (1969) poeta paulistana, é  médica formada pela USP  e especialista em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium e Universidade de Oxford, além de pós-graduada em Intervenções em Luto. É pioneira no Brasil na área. Publicou o livro de poemas Linhas Pares (2012)  e colaborou no livro Cuidando de quem cuida (2015) e em breve publicará A morte é um dia que vale a pena viver.

No avesso de um carinho

sonho que teus cabelos acariciam meus dedos

encosto meu peito nos teus ouvidos

e teu coracão me conta, marejado de amor.

 

é no alto da noite que a tristeza mais silenciosa vai chegar hoje,

a saudade me despertará.

De qualquer lado que eu viva hoje,

o outro adormecerá vazio.

Tem dias que sou

feita de lua.

PREFIXOS

Tenho um pré-sentimento

de dias muito longos

Uma noite com um pós-sentimento

que des-colore os dias e

dolore o sonho.

 

Re-sentindo, caminho.

Não tenho mais verso, só re-verso.

PRECE

Pensar que deixo esse amor quase como uma religião

já não seria tanta benção como

são meus lábios

que rezam todas as noites palavras santas

gratificando a vida

antes de pronunciar teu nome.

Só agora entendo que poesia existe

para que me descanse de palavras

prisioneiras da minha mente onde sobrevivo.

Em algum lugar sagrado deve haver uma casa azul sobre a colina onde

te espero. E nesse tempo depois de Cristo, amo mais é você.

A TRAIÇÃO

a vida que se entrega para

a morte que trai

que chega sorrateira, meio sombra

não diz que vai te levar dali alguns dias

e tudo parece tão rotineiro

que nem vale a pena gastar um tempo pensando no fim

 

a morte que chega hoje,

que chega agora

que chegou há pouco,

 

tão rotineira a morte

tão rotineira a vida.

 

A tarefa do dia

é reconstruir tua ausência.

PATRÍCIA CLAUDINE HOFFMANN(1975) poeta paulistana, mora em Joinville desde 1981. Cursou letras e é professora da rede estadual de ensino. Autora dos livros de poesia:  Água Confessa ( 2001), Sete Silêncios (2004 ), Matadouro Imperfeito (2016), e Feito Vértebras de Colibris (2017). Este último integra a coleção Mariana Edições movimento que promove a literature produzida por mulheres. 

COLISÃO DE ESPERAS

Saberás desabitar teu tempo

nas vértebras dos colibris.

 

Ainda que colidam esperas

e multipliquem-se de vésperas.

Ainda que removam teus navios

e os desafios envelheçam.

 

Saberás do espelho

nos rigores dos olhos

que molham a cara.

 

E tudo será retrospecto,

avulso...

sem ramificações

que não sejam marítimas.

 

Saberás legitimar das fraudes

o esquecimento,

a desmemória-chave

do que agora recomeça

e já não pode ser outro

por falta ou excesso de pacto.

 

Sorverás da palavra

a nódoa imperdoável

da beleza.

 

Rezarás inúteis distâncias

por causa das gentes

e estas ressurgirão

no tardio de cada urgência.

 

Saberás,

no pontal das cegueiras,

das bandeiras que se dissolvem

quando feitas de gelo e sal.

 

Deixarás teu tempo

como o animal que deixa

- do combate ao ninho -

o incompatível caminho.

                                               - É teu sigilo voltar.

 ORATÓRIOS D’ÁGUA PARA GUARDAR HOJES

VIII - da imersão nos dias -

Remir-me

no estreito dos igarapés,

através do corpo em salmo.

Salvo a promessa adiada

de esquecer aqueles dias.

 

Imersão. Compressa.

Glândula do rio.

 

Peito raso. Ocaso.

Olho mais fundo que o vazio.

 

Rápida calêndula. Gôndola.

Calendário d’água. Memória.

Morna. Sonda.

Sublimação do estio.

 

Lavar a cruz

do que não se cumpriu

esforça muito uma oração.

Se há elevação.

 

Escavo no rosto da sombra

um outro leito.

Até completar o abrir da lágrima

na remissão do extremo.

 

E remo.

ATÉ QUE OS PORTÕES DESISTAM

                 para meu pai em despedida

A paz cansada em teu rosto

de quase tudo

já disperso.

 

Cada um conhece sua espera.

 

Todas as horas reunidas

concluíram-te sem manifesto.

 

Que imagem te recolheu?

Que derradeiro pensar?

 

Lembro do contra-aceno

em teu olhar,

no velejar de arames

farpando de medo

nossas verdades.

 

As mãos da morte tão fechadas...

 

E eu tendo que ficar:

inquisição, pedra, moinho.

 

Os ventos grávidos de sabotagem

a amparar andaimes

do que não fui.

 

Agora,

aqui nesse pasto de saudade

a vida foge dos dias:

requer instâncias mais desprendidas

para a devolução do sono.

 

Até que os portões desistam.

A CONDIÇÃO HUMANA

Que possamos ainda nos perder

mas só até o perdão da palavra,

de onde ela brota

sem nenhum diamante.

 

Dinamitada...

bruta, exausta

frente a uma luta

que insulta e absorve a si mesma.

E se refaz.

 

Que possamos ainda nos curar

do mundo. Ou ele de nós.

Curvarmo-nos ao sol depois...

dos solavancos dessas rotas.

Escusas. Escoltas.

 

Nos retiros para longe (mas para onde?)

desses mostruários

de monstros e martírios,

 

de tudo o que craveja e é diário.

E nos trafega sem sentido,

mesmo sem ser tiro.

 

Que o susto não nos veja mais

assim,

menos humanos,

a abrir o lacre dos sacrifícios,

dos massacres...

 

Nem os astros nem os apelos

da Via Láctea nos vejam.

 

Entre lamentos e atropelos

sob as estrelas...

nossas celas abertas,

em filas...

os filhos acelerados

morte adentro

da noite sem trancas.

 

Que os bichos não nos vejam!

Não nos vejam!

LUIZA ROMÃO(19  ) poeta paulista, é atriz e diretora de teatro. Também é arte-educadora, já tendo trabalhado em diversos programas e projetos de cultura. Publicou o livro Coquetel Motolove(2014) e participou de inúmeros saraus/slams (sendo campeã do Slam do 13, Slam da Guilhermina e vice-campeã nacional via Slam BR). Criou mais de quinze videopoemas, explorando a linguagem do spoken word.

POEMA pra ser lido em DESAFORO

(ou metáfora em legítima defesa)

poesia é a palavra em estado de lança-

chama que faz mijar na cama

quando não samba

é lama em pé de criança

e rasgar teia de aranha

poesia é a vingança da cigarra:

enforcar a última formiga

nas tripas do último louva-deus

 

poesia é o império do ócio

é trabalho e não negócio

 

sou mais a simplicidade de um grito de guerra

que o hermetismo de um verso decassílabo:

é preciso desaprender gramática

para entender a lírica

de cinco mil famílias exigindo moradia

é preciso desmontar corretores

para entender a semântica

de uma mulher se tocando pela primeira vez

aos quarenta e dois anos

 

só acredito num soneto sujo de terra

perfeita métrica

de alicate com cerca elétrica

 

pense num despejo:

não há metáfora que resista

à arquitetura retrô de um new-shopping-vertical

faltam eufemismos

quando a casa vira ponte

e viaduto torna lar

 

poesia é mais que beat box hip hop hype pop cult rock

da quantidade de caracteres encavalados num estoque

é a voz que berra e carrega

o desejo de ser com o outro

um só corpo

 

quando inicio um verso

converso

com as dezoito mulheres

que antes de mim

sim

tiveram fala estéril

 

não é denúncia

é revide

de mão fechada

e peito aberto

que sem pulmões

um poema é abscesso

 

alerto:

caneta é artimanha de boteco

poesia está no inverso

é cicatrizar os pulsos

e erguer os punhos

que renascer se faz na luta

CORAÇÃO DE FRANGO

e o coração,

quanto pesa?

perguntou ela,

moça magrela

de expostas costelas,

ao homem bigodudo

detrás do balcão.

 

depende,

de boi ou de frango?

 

intrigada

não entendeu,

pois era do dela

que tratava.

 

sabia que pouco valia,

era carne fraca

sangue de anemia

que batia mais por inércia,

do que serventia.

 

na verdade,

queria fazer uma barganha,

trocar seu coração

por, quem sabe,

um naco de picanha.

 

o homem não estranhou a proposta

da moça de costelas expostas.

era a terceira vez

que vinham lhe oferecer

aquele estranho produto

já conhecidamente sem uso.

 

mas por pena ou caridade

lhe ofereceu em troca

duas asas de frango.

o que era muito,

comparado ao seu tamanho.

 

faminta,

aceitou sem demora.

lambuzou-se com as asas alheias,

visto que ela,

bicho terreno,

não conhecia tais atrevimentos.

 

até hoje não se sabe:

se foi a gordura espessa

ou a carne fibrosa

(tão desconhecidas a seu corpo de menina)

que lhe causaram alucinação.

 

fato é que

munida da carcaça das duas asas,

uma em cada mão,

acreditou-se ave,

ave maria,

e do parapeito da janela,

estufou o peito externo.

de um só golpe

sentiu o corpo leve.

 

o voo foi breve.

o baque, surdo.

a carne mole,

moída na calçada,

parecia que indagava:

 

e meu corpo,

quanto vale?

ERAM TEMPO DE ÓDIO E FERRUGEM ANTIGA

Eram tempo de ódio

e ferrugem antiga

de muito grito

e pouca voz

tempo de ritalina

amnésia e aspirina

 

eram tempos de roleta russa

e guerra fria requentada

como se miami fosse terra prometida

e cuba, a praga infestada

 

eram tempos repetidos

história como farsa

história como força

história como falsa

história como forca

estouro com foice e faca

 

e continua nessa jornada

enquanto falar não seja denúncia

nem triunfo da barbárie

 

entenda:

sua panela de teflon não conhece a fome

seu milagre faz crescer o bolo

mas não multiplica os pães

de que adianta ir pra rua,

se você não sai de casa?

 

que venham os touros furiosos

continuarei erguendo

minha bandeira vermelha

porque meu sangue é rubro

e não azul

(muito menos amarelo)

se pinta sua cara de verde

na mão, carrego martelo

 

mais que tomar partido

é tomar coragem

de enfrentar a cruz e a bala

da sua bancada milionária

 

se for preciso teremos guerra

ressuscitaremos marighella

mas sua ditadura

não aceito como remédio

PEDIDO DE CASAMENTO

caso contigo,

mas o caos

continua comigo

LUIZA MIDLEJ (2000) poeta brasiliense, começou a escrever com 13 anos, usando cadernos com capa simples, para não chamar atenção. Gosta de fotografar, catar conchinhas na praia e curtir poemas de Juliana Motter, Leminski e Fernando Pessoa. Em outras áreas suas predileções recaem sobre Frida Kahlo, Picasso, Van Gogh, Sebastião Salgado, Mick Jagger e Djavan. Publicou o livro Circunscisfláutica (2015).É a mais nova integrante de AS MULHERES POETAS...

injusta

essa saia justa

em que você nos colocou

não sei se saio

se ensaio

se fico

não sei se você ficou

essa história não tem verbo

não tem concordância

não sei se é conto

ou prosa

mas sei que ainda é criança

........................................................

sou fruto

da fruta

que se descasca

se despedaça

se decompõe

quando alguém ameaça

me tirar do pé

até que eu cresça

amadureça

e aí

seja o que deus quiser

...........................................

abri os olhos

e não te achei

tentei o olho mágico

você não apareceu

abri a porta

e não te vi

resolvi, então

abrir mão

mas nada adianta

eu só te alcanço com o coração

..............................................................

a garoa aqui

também é pranto

em

são paulo

só morre são

quem nasce santo


Publicado por Rubens Jardim em 30/06/2017 às 15h36
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
12/06/2017 23h31
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (93ª POSTAGEM)

ALÍCIA DUARTE PENNA (19   ) poeta mineira, é professora de arquitetura e urbanismo, na PUC mineira, crítica de arte, arquiteta e geógrafa. Em 2005, escreveu sobre a artista Rosângela Rennó, no livro Fotoportátil. Em 2012, publicou o livro de poesia Quarenta Poemas em Dez.

AOS HOMENS DE PÉS BRANCOS

I

Há (talvez) uma escola daqueles homens

que sempre avisto na rua,

os pés firmes nas sandálias havaianas

que os dedos tesos transformam em botas

de passos urgentíssimos e retos,

cobertos por um pó-branco:

prumo-linha-esquadro-nível,

dias-meses-anos,

irredutíveis.

II

Serão necessários:

a data de nascimento,

o número da carteira de identidade,

o número de projéteis cravados na carne,

a hora da morte,

os exatos finitos,

para que:

o médico legista conclua a autópsia,

o juiz autorize o sepultamento,

o cartório libere o atestado de óbito,

a prefeitura conceda o serviço funerário gratuito,

para que uma mulher,

que espera,

uma filha,

que espera,

possam se despedir

daquele homem

há dias atingido quantas, quantas vezes,

na porta da casa que era a sua,

na rua onde é difícil chegar água, luz

e o carro de horrível nome rabecão.

E, enquanto esperam,

ninguém as ouve contar outra história

(a do homem que ensinaria a outros homens

as noções de prumo, alinhamento, esquadro e nível),

nem supõe a fome que sentem,

ali, e sozinhas.

UM QUARTO DE SÉCULO

Sofrer é pouco.

Ser feliz é pouco.

Quero o destino de volta!

O tremendo destino que tinha aos quinze anos,

o imperativo dedo de Deus apontando o absoluto:

sim é Sim, não é Não.

POBRES MOÇAS

Por que se olham – chispas –

como estranhas as moças?

Curiosidade não têm uma pela outra?

Sendo moças, que pouco viram,

por que se desviam, contrariadas,

daquela que é outra, mas si?

Acaso desejariam pertencer a humanidade alguma?

No temor da não-coisa,

o olhar anoitecido,

retêm suas sacolas junto ao peito:

as coisas às coisas salvarão.

Uma certa blusa, este cabelo, o ar

e a invencibilidade, apostam

(no encontro para o qual se preparam não se forma par:

vencedor e vencido saem separados ao final).

Desconhecem – desconhecerão sempre, sempre,

até velhas, até depois de velhas?-

os manuscritos, a revolução, a liberdade?

Em linha marcham:

dessemelhantes, desamorosas, ah, pobres moças.

Mas eis que uma se desvia, oh,

e amanhece!

A UM PASSANTE

Você não é belo ao passar.

Pálido ou indesculpavelmente branco,

cabelos recém-lavados,

óculos espelhados, de corrida como os de um cavalo,

o aro amarelo mal se equilibrando no rosto de ossos,

civil, moderna, heroicamente feio.

Traficante, dono da boca, do pedaço?

Não sei, mas sabe você como haverão de saber outros.

A caminho da favela, seus passos – planos – estão traçados,

como os meus. Em círculos caminho, circunscrita,

ou corro, presa da organização – outra? –

de que preciso, ser-no-mundo vasto e sem solução.

Raimundo poderia ser o seu nome quanto o meu,

em letra somente para poucos decifrável,

assinados em multidão.

MARCELA MARIA AZEVEDO(19   ) poeta pernambucana, já morou no Pará e vive atualmente no Rio de Janeiro , onde faz doutorado na UFRJ e estuda as relações entre Poesia e Psicanálise. É mestre em psicologia, e está finalmente preparando o material para publicação de seu primeiro livro: todas as mães são tiranossauras.

eu parti

como se cada figura minha precisasse de abandono.

saio de casa ao amanhecer

de corpo mudo

deixo minhas tralhas, lençóis, livros

que há anos ardem em meu respirar

e te renuncio

cautelosa, além do horizonte matutino

onde naturalmente as coisas se transformam

e as memórias se desfiguram, ingênuas

em nosso despertar.

eu sinto muito, pai

mas já não conseguia suportar minha outra mulher.

AOS HOMENS QUE USAM ALGUNS GRAMAS DE ANALGÉSICO PARA FINGIR UMA ILUSÃO

que colocam os quadros de família no centro da sala de estar

junto de almofadas importadas e tapetes carregados com a poeira do século

falam com as bocas cheias de nunca peço desculpas

e derramam gordura nas toalhas de mesa de suas mães

a vocês

que nos tiram a presidência

os ministérios

os peitos caídos

as bundas murchas

e o nosso envelhecer

eu ainda uso as mesmas roupas

aqueles farrapos históricos que sobraram dos anos 80

cheios de rostos que são como cemitérios

a sua dor de cabeça vem do centro de sua mãe

e ela dói como dói uma mulher

por sermos diariamente extintas

e tiranossauras

EXPLICAÇÕES SOBRE A BIOLUMINESCÊNCIA

ou um ensaio sobre a saudade

este poema começa com três palitos de fósforo

e um cigarro perto da janela

: fiat lux

comunicação luminosa

você na cadeira ao lado asmática

em mil novecentos e noventa e seis

- eleonora se foi -

depois eu já não sei o que penso

pensando em você todos os dias

há manhãs que somos anne sexton

suicidadas em nossa própria casa

com um pouco de vodka

e sylvia plath

jornais acumulados

isqueiros guardados na segunda gaveta

meu útero podado

há manhãs que tudo são fótons

em ascensão e ascendência

da chama que guardo

inteira acesa

com teu gosto

e adeus.

POR UM CONSENTIMENTO EVOCATIVO DE TERNURAS

eu visitei o quarto de frida kahlo, sister

vi mulheres de batons rubi com a mesma cara amarela da nossa mãe

: a que ela usa nas fotografias dos álbuns de família

e nas caixas deixadas ao avesso de qualquer solidão.

don’t do that, woman

let me get you another drink

intervalo uma mulher

uma qualquer dessas que existem num atlas de imagens invisíveis

sentada num banquinho de 30cm de onde assiste o percurso do sol enquanto faz seu

[crochê

brincando de nostalgia com o toque da agulha que eventualmente perfura os seus dedos

e lugarejando o mundo com um olhar marejado

eu visitei o quarto de frida kahlo, irmã

tinham potes de lágrimas junto à foto de diego

e eu só conseguia dizer à minha mãe

: please don’t do that, my woman

let me get you another drink

LUNA VITROLIRA(19  ) poeta pernambucana, declamadora, atriz e performer. Com seus espetáculos de récita performática, Não Os Queríamos Sagrados e Sala de Estar, Luna tem participado de importantes eventos literários como a Balada Literária/ SP; Festipoa Literária/RS; CLISERTÃO/ PE; Festival Internacional de Poesia do Recife/PE; Jornada Literária Portal do Sertão/PE; Bienal do Livro de Pernambuco/PE e outros. 

MARTELO

O amor bate seu martelo

sempre

no mesmo prego

até acertar

o dedo

HÁ DIAS

Há dias em que necessito silêncio

e não quero me mexer

e não quero falar

e não quero abrir os olhos

nem sair de dentro de mim

Há dias em que sou paz e guerra

tumulto condensado em meu tumulo

alguém que tenta ler o futuro no lodo das horas

procurando sonhos dentro de um  balde

Há dias tenho sono

vivo exausta da ignorância alheia

E sinto saudade do pé de manga da minha rua

onde eu empinava pedras e não pensava na morte

O AMOR

É feito bala perdida

que acerta um desavisado

ao cruzar a rua

Ao dobrar a esquina

Às vezes vem num soco

Às vezes num grito

O amor às vezes é isso

Uma panela de água fervendo

no rosto de alguém querido

às vezes esmola

às vezes migalha

que se devolve com um tiro

ou acaba em facada

o amor tem medo da vida

uma hora eleva

na outra arrasta

desconfia da sorte

tem medo da falta

O amor corresponde à entrega

com uma rasteira e às vezes mata

De tirania

De asfixia

de ciúme

De raiva

Como alguém que se alimenta

e de repente engasga

CREDO

Eu acredito no amor

de porta de banheiro de muro pichado de acento de ônibus

de alto de prédios  de orelhão quebrado

 

No amor que singra as pontes do Recife ao meio dia

que corre pra cruzar a rua

driblando buzina no meio da vida

no amor que xinga e colhe uma flor

corresponde um aceno

 

acredita em destino e acaso

ama e odeia ao mesmo tempo

Eu acredito no amor de Eurídice e Orfeu

no amor que desce ao inferno e volta de mãos vazias

no amor de Medéia, de julieta e no meu

que não ultrapassa o clichê de um sonho de padaria

 

Eu acredito no amor de uma criança

por seu cachorro e seu boneco

sem fazer distinção de afeto, porque em ambos lhes cabe vida

no amor pelo feio, pelo disforme, pelo que é ignorado

no amor que zela e machuca com veneno e cuidado

Eu acredito no amor de Nena por sua bodega

 

no de Deja por seu Jardim no de Seu Castelo por sapos

 

no de Dona Chocha pelas roupas e no de Angela por seus gatos

acredito no amor que corre as ruas da minha infância

no amor que dá bom dia

que ajuda uma velha a segurar sacolas

 

ou no amor que empresta seu ombro como guia

pra atravessar o delírios das horas mortas

acredito no amor da minha mãe por mim e

mais ainda pelo vício de cigarro com coca-cola

no amor que acontece nos becos, as escuras, sobretudo

e todo amor que nasce proibido e permanece clandestino

a espreita pra quem sabe se tornar público

no amor de duas vulvas

no amor entre dois falos

no amor que se embaraça

e serena pra findar grisalho

no amor que não tem número

que geme, rosna e grita

vulnerável, enciumada

 

infiel e homicida

de posse e possessão

 

amor que supera as distâncias

da convivência

que muda de calçada nas brigas

e se mostra mais amor em complacência

e não sucumbe aos apelos da liberdade ou de uma prisão

amor de banco de praça

que desalinha

 

mas depois  entrelaça

amor que se despede

se desespera

se despedaça

 

amor que não cabe num ínfimo segundo em que a morte o assalta

ADÉLIA DANIELLI(19 ) poeta potiguar, cursou letras e ciências sociais na UFRN. Divulga poemas na internet e participou de três publicações coletivas: o livro  Por cada uma (2011) e os zines Entre Seios e Revoada. Seu primeiro livro solo, Bruta, foi lançado em maio de 2016, Numa sexta-feira 13.

Minha anatomia

minha autonomia

à disposição

da sua língua

vadia

..............................................................

No interior

das coxas

uma lambida

e uma mordida

mel e pão

no café da manhã

...............................................................

 

venha me tomar

de corpo e alma

tomar meu ar

meu café

a poesia que paira

sobre esse lugar

que se instaura

em cada coisa da sala

nesse momento

em minhas mãos

em minha mente

em mu coração

venha me tomar

absorer a canção do silêncio

da fumaça saindo da bca

da calmaria real

desacelarada

e presnete no momento

presente

sem lucidez ou utopia

sem metafísica

sem reparar nas horas

sem saber qual é esse dia

apenas venha

me tome

me absorva

.........................................................

 

há uma linha tênue

entre todas as músicas

que mais amo

e seu sorriso

conversas sobre tempo

e espaço não me resgatam

do lugar em que me encontro

apenas eu dançando pra você

e o nada

meu processo criativo

está fascinado pelo jeito

que você fala

tem uma charla no discurso

bem argumentado

e os olhinhos

que hora se apertam

hora estão arregalados

me perco nas ruas

que ando todos os dias

pego os mesmo ônibus

errados

uso pares de sapatos trocados

porque

eu não estou mais em mim

 


Publicado por Rubens Jardim em 12/06/2017 às 23h31
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
20/05/2017 21h19
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (92ª POSTAGEM)

GENI GUIMARÃES (1947) poeta paulista, iniciou a carreira literária publicando poemas em jornais no interior de São Paulo. O primeiro livro, Terceiro filho, foi lançado em 1979. Em 1980, aproximou-se do movimento negro e publicou mais 2 livros de poesia: Da flor o afeto, da pedra o protesto (1981)Balé das emoções (1993). Também publicou livros de contos  e de literatura infantil.

MINHA MÃE

Gosto da inocência dela:

Benze crianças,

Faz simpatias,

Reza sorrindo,

Chora rezando.

 

Gosto da inocência dela:

Apanha rosas,

Poda os espinhos,

Coloca nas mãos,

De meninos branquinhos.

 

Gosto da inocência dela:

Conta histórias longas,

De negros perdidos,

Nas matas cerradas,

Dos chãos do país.

 

Ama a todo o mundo,

Diz que a ida à lua,

É conto de fada.

 

Gosto da inocência dela:

Crê na independência,

E é tanta a inocência,

Que até hoje ela pensa,

Que acabou a escravidão.

… Inocência dela…

 

QUANDO ME VEM...

Quando me vem oferecer uísque

aproveita o dedo que segura a taça

e me indica a porta, disfarçadamente.

Eu consciente

do direito a festas,

(inclusive a comemorada no mês de maio)

bebo. E não saio.

 

BICHO DA SEDA

Nascia

 

Um belo dia,

emoção forte me causou vertigem,

mamei minha mãe na fonte

de leite fiz um verso virgem.

 

Dos rios mastiguei os córregos

dos sóis sorvi dourados bicos

tomei do alfabeto, os símbolos

com eles fiz um verso rico.

 

Mas, da primeira cobra

armada em botes,

aprendi as contorções molengas

tomei da angustia, vida fluída

ri um verso duro, capenga.

 

Sou hoje colheita descoberta

dos amores de auroras nas fazendas,

extração dos capitães de mato

e dos de Areia do Jorge.

 

Explico então:

 

o poeta é um bicho de seda...

que explode

 

INTEGRIDADE

Ser negra

Na intregridade

Calma e morna dos dias

 

Ser negra

De carrapinha,

De dorso brilhante,

De pés soltos nos caminhos
 

Ser negra,

De negras mãos,

De negras mamas

De negra alma

 

Ser negra,

Nos traços,

Nos passos,

Na sensibilidade negra.

 

Ser negra,

Do verso e reverso,

De choro e riso,

De verdades e mentiras,

Como todos os seres que habitam terra.

 

Negra

Puro afro sangue negro,

Saindo nos jorros

Por todos os poros

 

HERCÍLIA FERNANDES (19  ) poeta potiguar, é professora da Universidade Federal de Campina Grande. É pesquisadora ligada aos estudos histórico-culturais e dispõe de artigos publicados em livros, periódicos e anais de congressos. Publicou o livro de poemas Nós em miúdos(2015). Pedagoga e mestra em educação está fazendo doutorado.

E

E quando a manhã chegar,

faço-me Scarlett O’hara...

levanto as sobrancelhas

e convenço-me que é

outro dia

 

E FOI

não pronunciou

nenhuma palavra

 

e foi

como se dissesse

tudo

 

no nada

 

CHEIAS

queria não pensar em você

montar acampamento em seu corpo

 

viveríamos sem terra, sem pressa,

sem adornos

 

À AURORA DO CAMINHO

tudo o que sonhamos,

abandonamos à aurora

do caminho:

 

a flor

o orvalho

o espinho

 

o agasalho fora do ninho.

 

LISA ALVES (1981) poeta mineira, é curadora da revista Mallarmargens e colunista da revista Elenismos. Têm poemas publicados nas revistas Incomunidade (Portugal), Zunai, Flaubert, Parênteses, Germina Literatura, Cronópios e Diversos Afins. Recentemente lançou seu primeiro livro de poemas Arame Farpado(2015). Vive em Brasília onde colabora com o fanzine feminista de Salto Alto.

DECLARAÇÕES MORIBUNDAS

ou como as coisas nunca mudam de fato.

Éramos filhos de gerações – que não geravam ações, apenas a experiência de erros que não deveriam ser repetidos.

Éramos muitos: fardados, naturalistas, modistas e contra tudo que fosse dito proibido.

Éramos luz e trevas ao mesmo tempo – e ainda assim ajoelhávamos nas catedrais espirituais em busca de alguma salvação.

Éramos príncipes, plebeus e as vezes democratas que sacudiam as ruas com placas e faixas reivindicando alguma mudança na consciência coletiva.

Éramos trabalhadores e acreditávamos que a carga horária do dia nos tornaria a futura elite do país.

Éramos bárbaros – matávamos por comida e por um pouco de fogo e sexo

Éramos pré-colombianos, pré-greco-romanos, pré qualquer coisa escrita pela história oficial. – e ainda tiveram a ousadia de nos catequizar, estuprar e classificar nosso chão de Brasil Colônia.

Éramos revolução industrial: fábricas, camponeses em áreas urbanas, favelas crescendo, densidade demográfica, fome, miséria e falta de saneamento básico.

Éramos anarquistas, comunistas, populistas e fazíamos reuniões politico-intelectuais sem ao menos sentirmos no paladar o gosto do feijão requentado. (ou até a falta do mesmo)

Éramos padres e madres – rezávamos antes mesmo do sucumbir do sol e em noites enluaradas éramos insistentemente perseguidos pela voz do Demônio da Luxúria.

Éramos Ladys e gentlemans – freqüentávamos as melhores festas, fumávamos charutos contrabandeados e no final do mês nossos cheques especiais estavam estourados.

Éramos artistas marginais – escultores, pintores, escritores e compositores. Até o dia em que a Industria Cultural levantou uma cerca e transformou as grandes obras em linhas de produção.

Éramos leais militares – direita, esquerda, volver! Nossa marcha era conduzida pelo patriotismo, idiotismo e porquê não dizer: fascismo!?

Éramos a pequena burguesia – cidadãos médios, assalariados, diplomados, comungados e porquê não dizer: conformados!?

Éramos tudo isso – um bando de ações que mataram as gerações.

FILHOS DE MADALENA

Alastra-se um cobertor virótico neste solo.

Quem dorme não terá mais chance de dizer: Bom dia!

Fazemos nossa parte: vendemos nossas vidas.

Hoje nossas genitálias rendem o prato do dia.

 

WOOLFS & STORNIS AQUI DENTRO

Eu sou desordem.

Exterminadora de Eus passados.

Alma em cálice de vida.

Corpo entregue à ruína.

Eu sou canção do exílio – inteligência colonizada.

Segredo para mais de 500 anos.

Império de sem terras, de sem tetos e de sem vergonhas.

Meu sexo é algema, mácula e saia longa.

Meus olhos esperam o não sei o quê.

Curso pontes e pinguelas

desafiando Leis e o Reich da Gravidade.

 

CURTAS DE MEUS LONGAS

II

Sou a mesma figura que caminhou ao lado de ideais que sucumbiram ao tempo: assisti a Revolução Francesa apesar de ter nascido no Brasil de 1981. Fui agente comunista, embora nunca tenha comido criancinhas.

E agora sou um fruto capitalista:

apodrecido dentro do mercado.

 

CLARA BACCARIN(19  ) poeta paulista, formou-se em letras e fez mestrado pela UNESP (Araraquara). É autora do romance Castelos tropicais (2015), do livro de poemas Instruções para lavar a alma (2016) e do livro de crônicas Vibração e descompasso (2017). Escreve para diversos sites e em 2017 teve poemas gravados no CD Lavar a Alma. Morou na Austrália, Chile e Hungria.

entre silêncios e entrelinhas

entre peles e recantos

entre vãos e desvios

entre a coincidência dos olhares

e a refração dos espelhos

entre os escafandros e os nus em pelo

Amar é sempre um tiro no escuro

 

DECEPADO

ele me mandou uma foto do pinto

um close do pinto

um pinto ereto na minha tela

sem pernas, sem corpo, sem mãos

sem homem

 

um pinto sem história

decepado e duro

um falo que não fala

e mesmo que falasse

não me diria nada

 

um pinto solto

que eu não conhecia

e nem tinha imaginado

um dia

as formas, a potencia

a essência

a geometria

 

um pinto que não me excita

antes me desanima

pela falta de empatia

com o universo

feminino

 

ele me mandou a foto do pinto

e eu que pensava no sorriso

eu que pensava nas ruas

que a gente andaria

eu que sentia

as conversas e os vinhos

eu que via a companhia

o abrigo, o carinho

 

vi o pinto

um pinto imponente

dominador

furador de sonhos

protagonizando

a nossa história

interrompida

 

LEGADO

mulheres que faziam café

vestiam os filhos dormindo

colocavam para tomar sol

o tio idoso e as roupas de inverno

acompanhavam os maridos

nas rezas da igreja

e nas passeatas políticas

 

mulheres que tinham ajudantes

desde a casa colonial

que cuidavam das finanças

das aparências

e do destino

de cada membro

desse partido

chamado família

 

mulheres que pariam

com a força

com que empurravam os dias

sorriam para o gato

brincavam com as crias

quebravam o pescoço da galinha

humanas e alienígenas

 

mães de gerações inteiras

leitos de leite e de seiva

humildes em suas redondezas

que não ditavam mas conduziam

 

mulheres que carregavam mundos

com o orgulho de um pavão

sem plumas

 

À FLOR DA PELE

a pele

muito mais que casca,

derme que adere à alma.

a pele

muito mais que veste,

que protege e guarda.

a pele alarga,

a pele estica,

a pele transcreve,

transita,

transcende

as percepções da vida.

 

a pele é ponte

entre as células do céu

e as estrelas do ser.

a pele arrepia,

a pele abre,

a pele dissocia,

a pele extravasa.

 

a pele é passagem livre

de energias.

a pele ensina,

aprende,

se estende e se comprime.

 

a pele

transparência

das vísceras.

 


Publicado por Rubens Jardim em 20/05/2017 às 21h19
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