Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
29/01/2012 18h41
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (15)

YEDA SCHMALTZ (1941-2003) poeta e ficcionista pernambucana, ensaísta e expert em artes plásticas. Já morou em Recife, Rio e viveu muito tempo em Goiânia, onde faleceu prematuramente. Dedicou-se à docência superior nas áreas de estética, história e sociologia da arte. Estreou em livro com Caminhos de Mim (1964). Já publicou mais de dez livros de poemas e recebeu vários prêmios (APCA,1985; Remington-RJ, 1980). Alguns títulos: Anima Mea(1984),Prometeu Americano(1996), Vrum(1999) e Chuva de Ouro(2000).

Cavalo de Pau

Quando amo, sou assim:
dou de tudo para o amado
— a minha agulha de ouro,
meu alfinete de sonho
e a minha estrela de prata.

Quando amo, crio mitos,
dou para o amado meus olhos,
meus vestidos mais bonitos,
minhas blusas de babados,
meus livros mais esquisitos,
meus poemas desmanchados.

Vou me despindo de tudo:
meus cromos, meu travesseiro
e meu móbile de chaves.
Tudo de mim voa longe
e tudo se muda em ave.

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando:
um pandeiro de cigana
com mil fitas coloridas;
de cabelo esvoaçando,
a Vênus que nasceu loura.
(E lá vou eu navegando.)

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando,
enchendo-se os braços curtos
e o amado vai se inflando.

— O que de mais me lamento
e o que de mais me espanto:
o amado vai se inflando
não dos mitos, mas de vento
até que o elo arrebenta
e o pobre do amado estoura.

(Nenhum amado me agüenta.)

AMOR DE POETA

Quando começo
eu sou terrível: tema.
Um poeta é aquele
que faz um poema
de nenhum assunto,
o que se alimenta de nada,
o que morre de medo
mas fica gratificado
com tudo.

Contudo,
não permita o início: corte.
Caia num precipício.
Melhor a morte à rima,
ao forte amor danado
de um poeta,
amor melífluo e obsceno.

E todo o amor do mundo
fica muito pequeno
se houver comparação.

(Que estou fazendo no mundo
com este nome alemão,
este ar desconfiado
e essa cara de quem
vê cara, não vê coração?)

*

Ser poeta
Ter sol, malícia,
solenidade e insolência.
Calo no dedo médio
são os ossos que me embrulham
neste ofício intenso que me esbulha.
Carregar um nome comigo,
esta letra vazia, carregar
esta palavra tão pesada,
que te ilustra
como a última palavra
não escrita
Ter fúria
e o avesso desnudado,
anotando somente o necessário
e a muito custo mesmo
re/velá-lo.

AGLAIA SOUZA (1943) poeta carioca, contista, musicista e professora universitária. Participou de inúmeras coletâneas de poesia e de contos. Estreou em livro com Gota de Barro (1982). Além desse livro, tem publicados os seguintes títulos: Artesã(1989), Murmúrio(1993), Rondó ao Mar(1996) Canção Tagoriana(2000) e Cantaria (2010). Vive em Brasília.

O espelho

O espanto do idoso frente ao espelho
justifica o tempo que parou —
dentro do peito e da mente insone.

Onde fica o tempo que passou?

CANTARIA

Estou indo bem mais velha:

Maranhão me envelheceu.

 

Suas ruas, suas casas,

onde o passado ainda mora,

criaram raízes, lianas,

azulejaram as paredes,

ruíram caibros e tetos,

musgos nasceram nos becos.

 

Estou levando comigo

Maranhão feito em pedaços.

 

Suas pedras, suas portas,

seus licores, suas frutas,

camarões, peixes enormes,

a fala mansa, sem pressa,

os livros (tantos poetas!),

seus rios cheirando a mar.

 

Estou indo assim saudosa

do tempo do Maranhão.

CANTABILE

O chão canta

um canto de dor

se passa, rasteiro,

passageiro cantor.

 

A voz leve

enleva e some:

só fica nos ares

um aroma e um nome.

CONQUISTA 

Tua maré:
sobe e inunda
o porto
o cais
o veleiro
e te deixa
sabendo a sal.

EULÁLIA MARIA RADKE (1949) poeta catarinense, compositora, teatróloga e jornalista. É presença atuante em seu meio cultural.Já morou em Blumenau e vive em Curitiba.Estréia em livro em 1980, com Espiral, que teve apresentação de Lindolf Bell. No livro seguinte, O Sermão das Sete Palavras(1986) ganha o prêmio Luis Delfino de Poesia. Eulália já coleciona vários prêmios e distinções.Destacamos:premio Ferreira Gullar, concurso nacional de poesia do Paraná; premio Mário Quintana, Alegrete, RS. Publicou em 2000, Lavra Lírica.

ATEMPORAL  JARDIM
                                                 
Nenhum tempo existia
nos altares de tua terra interior
Nenhuma distância
entre teus gestos de partilha
e o amor incondicional.
Em tua bagagem
conheci a paz de quem recolhe frutos
para ofertá-los
Em teus olhos
um sino sonante regendo luz
nos caminhos dos que te procuravam.
Em tua voz
 o canto da liberdade
-ainda que de silêncios.
Em tua garganta
um choro fechado por um amor mudo.
Em teus lábios
o riso largo pinçado de pequenas ternuras
e grifos de humor.

Ontem,
Dionísio bateu em minha porta.
Grafou em minha quietude
a notícia de  tua morte.
Espalhando flores de fogo
apontou o infinito
lá onde gravitam os místicos
onde dormem os sátiros
Ofertou-me flores risonhas
                      outras quase maduras.
Disse que te encontraremos em Epidauro
sob o reposteiro d'uma grande arena
- é lá onde brilhas
  eterno e sonoro.

 (Homenagem a Carlos Roberto Jardim, que durante anos fez público para teatro em toda Santa Catarina, dirigindo a Cia Vira Latas de Teatro.Pessoa especialíssima em entretenimento cultural da cidade de Blumenau)

POEMA 4

A maestria dos erros sombrios
vertidos, quebrantados, modular
cadencia na ordem dos fins.

A memória logra pentímetros
contrafaz num olhar de cataclismo,
atrozes e cínicas evidências.

Ruminamos, subjugados, a memória
regemos em notas, abismos
ritos desmesuráveis, entorpecidos.

As solidões são nossas vítimas,
amargamos tornados nulos
silenciando particípios e gerúndios.

A DANAÇÃO DO RISO

Nas folhas do Boi Mamão
arrepiava até os tendões.
No céu vermelho das fogueiras
reverenciava São João,
aquecendo o corpo sem solidão
(ainda).

Mas foi sob as fagulhas breves
e a frágil arquitetura
da lenha queimada,
onde conheci o cálice da morte
no perfume ativo do jasmim
guardando o corpo de meu avô.

Avolumada,
como as trovoadas poderosas
que tantas vezes vieram em direção
aos meus olhos temerosos,
adquiri uma das faces mais divinas
que a separação pode assumir:
                                          a ira.

Esta,
ensinou-me que a flor que enfeita
a festa
também murcha triste na solidão dos túmulos.

Amalgamava então
as criaturas sagradas
e a morte me parecia
alta e solene
como as visões de um pesadelo.

Guardei meu avô
sob o cristal das cinzas
num culto à memória,
abreviando mais tarde
a saudade sobre o retrato
                                da parede.

O mistério da ausência
— como a sonoridade sutil e grave das palavras —
desenhou parcial esquecimento.

Mas a morte lavrada
no grande cemitério da existência
criou dentro do peito
um olho d'água de curso subterrâneo.

Desde então,
aprendi a dissimular a dor
amoldando-a às formas de versos,
quando o reverso torna-se incompreensível.

MARIA BEATRIZ FARIAS DE SOUZA (1948) poeta carioca, psicóloga e ensaísta,faz parte do grupo AdVersos e já publicou vários livros. Utiliza em seus trabalhos o pseudônimo Kuri. Teve estréia auspiciosa com Lugar Nenhum(1968), com prefácio de Vinicius de Moraes, talvez o único que o poeta tenha topado fazer. Outros títulos: Poemancipação(1970), O Negócio da Pia(1972), e Gueto(1981). Tem vários livros inéditos.

Gueto

Venha beber conosco, os placidamente aflitos,
pernoitar em nossas pequenas casas sem teto,
partilhar dessa dimensão em que o sonho
e a realidade não se distinguem, não se excluem.
Venha embriagar-se conosco, os anjos tortos,
desatrelar-se, aventurar-se pelo prazer da descoberta
e brindar a loucura com a mesma reverência
com que os outros brindam a coerência
das linhas retas, das quadras, dos quadrantes.
Venha misturar-se a nós, crianças medonhas,
radicar-se nesse gueto entrincheirado
além do território das engrenagens metálicas,
provar a lucidez mágica da poesia
que, de súbito, é uma dor e uma alegria.

Marítimo N.º 5

Não atento ao que os homens
falam de Deus.
Prefiro supor
o que ele mesmo diria
se eu fosse capaz de ouvi-lo.

Ironia

Às vezes eu me sinto
como se não tivesse
mais nada pra dizer…
aí me contradigo
e os rios rolam seixos
até a beira do mar.

REMANSO

Se eu fosse a mesma,
não houvesse perdido meu rosto
no espelho das águas do remanso
e sonhar ainda fosse possível,
meus olhos não fugiriam dos seus
feito passarinhs assustados,
meus gestos não se calariam
(ao contrário, ousariam),
meu poema seria belo e límpido
como as águas do remanso
onde perdi meus rosto.


Publicado por Rubens Jardim em 29/01/2012 às 18h41
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11/01/2012 18h08
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (14)

ALICE SPÍNDOLA (1940)  poeta mineira, artista plástica e divulgadora cultural. Participou de diversas antologias, nacionais e internacionais e fez sua estréia em livro individual, com Fio do Labirinto(1996) já ganhando 2 prêmios: da UBE do Rio, e da Prefeitura de Macaíba, no Rio Grande do Norte. Publicou também livro de contos e O Loire – poema fluvial da França (2006). Vive em Goiás.

SEMPRE BUSCANDO A CANÇÃO ESQUECIDA

No frêmito da ventura,

         a fuga e o retorno da imagem

                   do pequeno barco.

Imagem — fonte e oráculo —

                   mergulhada na insularidade

do mar de gestos e de palavras.

 

Com a alma seqüestrada

                   pela beleza do rio

e pelo rumor de suas águas,

o menino procura a canção esquecida.

 

         Menino parisiense voga nas milhas do sol.  

 

E O MEU AMOR É TANTO

 

E o meu amor é tanto

                            que, preso a rede

deste encantamento,

me faço Araguaia, Também.

Sim, ó, Araguaia-mar,

         eis o poder de teus enigmas!

 

Um mar-oceano

                  se adentra em mim.

E eu, em mar, me converto.

         Mar de guas desafiantes.

Mar que voga

         nas veias do meu canto.´

 

SILENCIO

          Para Stella Leonardos

Na gruta do anoitecer,
                    sou a flor acesa que habita

as nervuras do silêncio.
                                           Da sozinhez,

a estrutura
                          de silêncio & de sigilos.

 

Dos longes   trago o fascínio do luar
          e o cetim das pétalas de rosas

paro suavizar
                    os músculos do quietude.

 

Penetro janelas & oráculos.
                    com o perfume da voz da noite.

E, em invisível pouso,
                                  acendo o silêncio

          com a forço da paixão

de quem ouve o respirar da palavra,

          e o do lucidez que ela me concede.

         ................ Sou o força acesa deste silêncio.

 

TERUKO ODA (1945) poeta paulista, é considerada uma das maiores expoentes do haicai no Brasil. Filha de imigrantes japoneses, é professora e fundadora do Grêmio de Haicai Caminhos das Águas(Santos) e presidente do Gremio Haicai Ipê (São Paulo). Já publicou vários livros: Nos caminhos do haicai(1993), Relógio de Sol(1994), Estrela Cadente(1996), Cata-Vento(2001).

 

Corrida engraçada —
As emas vão se abanando
com leques de plumas.

 

Vento de inverno —
A velhinha de bengala
quase um caramujo.

 

Solidão no rancho —
Passatempo do roceiro
o bicho-do-pé.

 

Barzinho de estrada —
Não sei se como ou se abano
as moscas do prato.

 

Um quê de inquietude
no balé das borboletas —
Tarde de outono.

 

No pó ajuntado
entre o asfalto e a sarjeta —
Cosmos florido.

 

Rápidas bicadas —
Equilibra-se no galho
a ameixa-amarela.

 

ALICE RUIZ (1946) poeta paranaense, publicitária, tradutora e letrista, destacou-se na geração da contracultura dos anos 60 e 70. Foi poeta de gaveta até os 26 anos, quando publicou, em revistas e jornais culturais, alguns poemas. Mas só lançou seu primeiro livro aos 34 anos: Navalhanaliga(1980). Já publicou 19 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil. Letrista, tem mais de 50 músicas gravadas. Já ganhou o prêmio Jabuti(1988) e governo do Paraná(1980).

 

Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados

tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido

e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado

*

você esqueceu?
isso acontece
só os mortos
não esquecem

*

que viagem
ficar aqui
parada

 

SE

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...


*

Lembra o tempo

em que você sentia

 

e sentir

era a forma

mais sábia de saber

 

E você nem sabia?


*

rede ao vento
se torce de saudade
sem você dentro

BARBARA LIA (1955) poeta paranaense, é professora de História e escritora. Publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revistas Etcetera e Coyote. Finalista dos concursos de poesia Leminski (2000) e Pinheiro do Paraná (2002), publicou os livros de poesia O sorriso de Leonardo (2004), Noir (2006), O sal das rosas (2007) e A última chuva (2.007).

PROFANA

A cor do amor é branca,

e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto

e o amor me olha como alguém

que jamais vai tirar a minha calcinha

e gozar o céu dentro de mim.

O amor sempre vai me olhar

como se eu estivesse num altar de papel.

Para o amor, eu sou uma rima

e rima não tem vagina.

Para o amor, eu sou uma ode

com uma ode ninguém fode.

Eu sou um verso alexandrino

jamais tocado pelo herdeiro deste nome.

Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus

Deus ninguém come, mas

será que beber

pode?

 

SOPRO DE DEUS

Sigo distraído e breve — piedade na alma,

opulência no calabouço.

 

Sigo sereno, neblina me abraça.

Meu corpo um jarro de esperanças.

 

O amor — única navalha que me corta.

Aprendi que somos sopros de Deus — instantes.

 

MÃOS DE ABRIR NUVENS

Ter mãos de abrir nuvens

Romper o velcro de baunilha

E espiar

Dentro a catedral

Dos sonhos

Um rito de encanto

Crianças e lagos

E mapas emaranhados

A Sexta Avenida

deságua no Eufrates

E as barcas cruzam

De Bagdad ao Mojave

As mãos se enlaçam

Negras brancas

Amarelas azuis.

 

Ter mãos de abrir nuvens

Descobrir a alma de neve

E perfumes

Que se fazem

Pássaros

Camelos

Bailarinas.

 

Quem possui mãos de abrir nuvens?

Quem rega pedras

E pesca pássaros

Em tempestades

E ancora no alto

Da montanha mais alta

Suas caravelas.

 

Quiçá Penélope,

Sem manto, grilhões, espera.

A abrir nuvens

Além da torre de concreto

Em pleno azul

Entre a brancura espumada.

Mãos de mulher livre

A abrir o velcro

Da humanidade encantada.


Publicado por Rubens Jardim em 11/01/2012 às 18h08
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28/12/2011 17h00
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (13)

NEUZZA PINHEIRO (1949) poeta paranaense, é cantora, compositora, integrou a banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção, e interpretou músicas de Arrigo Barnabé em festivais de televisão. Participou das antologias Outras Praias / Others Shores (1998) e 12 - Antologia de Poetas Londrinenses (2000). Publicou Pele &Osso,em 2011, vencedor do Primeiro Prêmio Nacional de Literatura poeta Lúcio Lins(jan/2008). Mereceu apreciação elogiosa de Augusto de Campos.

O poema não pede
não implora
vem comendo pelas bordas
esfolando a flor da pele
bebendo sangue de aurora

..............................................

O poema era um mutante
foi de estralo a estrela
de estrela
a instante

..............................................

Quando caio em mim

Caio tão

f

u

n

d

o

que nem dou

por mim

..................................

Te digo

Ao pé do olvido

Escuta bem
não esquece

Mulheres desmonalisam

Mesmo a golpes de mestre

...................................................

na tarde

a árvore

 

silêncio de aeronave

...................................

neste pin

go que os

cila

entre

a torneira

e a

pia

um

breve

exer

cicio

de

melancolia

 

ANGÉLICA TORRES (1952) poeta goiana, jornalista, escritora e editora. Trabalhou em vários jornais como repórter de cultura. Fez pós-graduação em edição de publicações e livros, em Madison, Wisconsin (EUA), em 1988. Publicou Sindicato de Estudantes (1986,Prêmio Mário Quintana de Poesia, do Sindicato dos Escritores de Brasília), Solares (1988), Paleolírica (1999), O Poema quer ser Útil (2006) e Luzidianas(2010)

 

Tomara que caia

um haikai

na sua saia

 

MEU CERRADO

 

Encho os olhos

de paisagens

do cerrado

 

Um espírito rendado

emana da floresta

de ikebanas goianas

 

A claridade rasgada

o plano exato:

geografia instantânea

 

O CAMINHO DA NOITE

 

Entregue a meus sonhos despertos

o mundo nega-se a partir comigo

ensurdecido no silêncio da noite.

 

É toda feita de palavra

a espiral em que me movo.

Quebrarei o seu segredo.

Saltarei da última torre.

 

DESCONFIE

 

Não vás crer

tanto assim

num poeta

 

Vê a cota

ilusionista

que contém

o que ele conta

 

Ele é sempre

personagem

forasteiro

 

Experto

em camuflagem.

Um cigano

faz-de-conta.

 

JOSELY VIANNA BAPTISTA (1957) Poeta curitibana formada em letras hispânicas, com especialização em semiótica. Publicou os livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992) e Outro (poema experimental em co-autoria com Arnaldo Antunes). Traduziu Cortázar, Carpentier, Cabrera Infante e Lezama Lima, entre outros. Participou de antologias editadas no México, Peru, Argentina, Estados Unidos, Cuba, França, Paraguai, Colômbia, Espanha e Austrália.

 

R E F R A C T A

para vera e Milton

o segredo

do

a b r a ç o

e s t á

n a

g r aç a

d e

q u e m

f a z

o

a g r a d o

 

á g u a

r e c o r t a n d o

o  n a d o

d e

u m

p e i x e

s e m

d e i x ar

r a s t r o

 

ONDE O CÉU
ENCONTRA A TERRA

 

o breu devore à noite
o próprio rasto;
no solo ocre, de rojo,
o escuro escureça,
noite tão noite
que se dobre em dia

os charcos zoem
outra vez insetos;
virem os regos
de lodo
em que chafurdo
– com o sol –
pó púrpuro,
ou longos rolos
que o vento
eleva e enovela

a prumo o solo fusque
a si mesmo,
e a tarde entardeça
num crepúsculo

bojo de sombras,
lusco-fusco de névoas
(frutos apodrecendo
na gamela)

 

I N F I N I T S

                                                        para nietzsche

 

e n t r e b é t u l a s e n a d a s , n a d a s

e m a d r u g a d a s , b e a t s , f a d a s , f

u g a s , á r i a s , e n t r e g é l i d a s p

é t a l a s d e n e v e , l e v e s c r i s t a

i s l i m a n d o n i c h t s d e f u m a ç a

, e n t r e p i c o s e a b i s m o s , b é t

u l a s e n a d a s , l á , o n d e o a r

f a l t a : a l i s u a f a l h a l i m a l h a

, p o l i n d o t u d o e u m i s s o : n o c

r e p ú s c u l o d o s í d o l o s , d i v i n o

s i d o s ( a n d a r i l h o e n t r e v e r d

a d e s e m e n t i r a s ) , à p r o c u r a

d a f l o r q u e b r o t a , r a r a n a r

o c h a , e n t r e n e i n s e p i s t i l o s

, a u r o r a , p e d r a l a s c a d a : n a a

l t a e n g a d i n a v a l q u í r i a s c a v

a l g a m l u a s q u e a i n d a u i v a m

p a r a l o u s , e o v i s i o n á r i o , n

o l i m i a r , p a r i n d o c e n t a u r o s

RITA ALVES (1966) é paulistana, historiadora, ensaísta, crítica de arte e literatura --e poeta. Recebeu em 2010 o prêmio Literatura da Comunidade África Brasil pela publicação do seu livro de poemas Tela de Letras. Na introdução, Rita adverte preferir as palavras brutas, as palavras sem lapidação.Textualmente, confessa: “Procuro palavras que completem os veios de esmeralda sob a profundidade do ser”.

AS PALAVRAS

Entre o pensamento e a palavra
Entre palavra e o sentimento
Há um enorme espaço deserto
Plátano, oásis, miragem

Até que a mão chegue ao caderno
Para libertar as palavras
Agarradas ao tinteiro
Leva uma vida e o mundo inteiro

Paridas e ainda molhadas
Não se reconhecem nos pais
Tomam formas inesperadas
Em desespero se agitam

Presas às folhas, condenadas
A serem postas à prova
Pelos olhos de quem as lê,
Não dizem o que são

São o que se vê.

POEMA PARA QUEM PARTE

Procuro em meu deserto suprimentos básicos de sobrevivência.

Poemas bons, que saiam pulando dos livros que me cercam,

palavras doces que se calam sem sentença.

Amanheço e anoiteço indiferente ao tempo

que me empurra ao descontentamento.

Enquanto leio, ouço a música dos ventos,

(Orquestra desarmônica dos meus pensamentos).

Recuso ofertas de aprisionamento

Aceito emblemas de mistério em vôos ligeiros

Seguindo um caminho que é só certo o que passou

Partidas que ficaram em mim quase por inteiro

Nomes, lembranças, sorrisos e questionamentos

Vou seguindo a sombra das estrelas

Aguardando a lua cheia refletir minhas tempestuosas letras.

 

POEMA PARA QUEM FICA

Entre as cortinas você verá a cidade

As luzes noturnas da circunferência de São Paulo

Sabe pisar a areia?

Conhece o caminho desigual do deserto em que vivo?

Abra a porta dos armários

Cairão livros aos seus pés.

Você, que tem a coragem de ficar comigo

Abrace meus olhos antes que anoiteça.

A manhã embaça o mapa do caminho

Apaga com suor as lembranças do destino.

Você que tem a certeza de que pode permanecer

Estabeleça sua morada, que o dia virá em festa

Carinho, conversa, vinho, beijos

Confusas tramas que se curvam à luz da lua.

A CASA, AS ROSAS

Arranquem as roseiras e plantem daninhas
Substituam abelhas e borboletas
por cigarras e formigas
E nas paredes da casa

Só palavras:

As mais sonoras

E independentes.

 


Publicado por Rubens Jardim em 28/12/2011 às 17h00
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20/12/2011 19h52
O NATAL DE LEONARDO BOFF

Rubens,
Obrigado pela sua bela mensagem de Natal.
Envio uma que acabo de escrever,cheia de antigas reminscências.
Feliz Natal
Lboff


O NATAL DE ANTIGAMENTE: VELHO

E SEMPRE NOVO


Venho de lá de trás, do final dos anos 30 do século passado, num tempo em que Papai Noel ainda não havia chegado de trenó. Nas nossas colônias italianas, alemães e polonesas, desbravadoras da região de Concórdia-SC, conhecida por ser a sede da Sadia e da Seara com seus excelentes produtos de carne, só se conhecia o Menino Jesus. Eram tempos de fé ingênua e profunda que informava todos os detalhes da vida. Para nós crianças, o Natal era culminância do ano, preparado e ansiado. Finalmente vinha o Menino Jesus com sua mulinha (musseta em italiano) para nos trazer presentes.
 
A região era de pinheirais a perder de vista e era fácil encontrar um belo pinheirinho. Este era enfeitado com os materiais rudimentares daquela região ainda em construção. Utilizavam-se papel colorido, celofane e pinturas que nós mesmos fazíamos na escola. A mãe fazia pão de mel com distintas figuras, humanas e de bichinhos, que eram dependuradas nos galhos do pinheirinho. No topo havia sempre uma estrela grande revestida de papéis verm
elhos.

Em baixo, ao redor do pinheirinho, montávamos o presépio, feito de recortes de papel que vinham numa revista que meu pai, mestre-escola, assinava. Ai estava o Bom José, Maria, toda devota, os reis magos, os pastores, as ovelhinhas, o boi e o asno, alguns cachorros, os Anjos cantores que dependurávamos nos galhos de baixo. E naturalmente, no centro, o Menino Jesus, que, vendo-o quase nu, imaginávamos, tiritando de frio, e nos enchíamos de co
mpaixão.

Vivíamos o tempo glorioso do mito. O mito traduz melhor a verdade que a pura e simples descrição histórica. Como falar de um Deus que se fez criança, do mistério do ser humano, de sua salvação, do bem e do mal senão contando histórias, projetando mitos que nos revelam o sentido profundo dos eventos? Os relatos do nascimento de Jesus contidos nos evangelhos, contem elementos históricos, mas para enfatizar seu significado religioso, vem revestidos de linguagem mitológica e simbólica. Para nós crianças tudo isso eram verdades que assumíamos com entusiasmo.

Mesmo antes de se introduzir o décimo terceiro salário, os professores ganhavam um provento extra de Natal. Meu pai gastava todo este dinheiro para comprar presentes aos 11 filhos. E eram presentes que vinham de longe e todos instrutivos: baralho com os nomes dos principais músicos, dos pintores célebres cujos nomes custávamos de pronunciar e riamos de suas barbas ou de seu nariz ou de qualquer outra singularidade. Um presente fez fortuna: uma caixa com materiais para construir uma casa ou um castelo. Nós, os mais velhos, começamos a participar da modernidade: ganhávamos um jipe ou um carrinho que se moviam dando corda, ou uma roda que girando lançava faíscas e outros se
melhantes.

Para não haver brigas de baixo de cada presente vinha o nome do filho e da filha. E depois, começavam as negociações e as trocas. A prova infalível de que o Menino Jesus de fato passou lá em casa era o desaparecimento dos feixes de grama fresca. Corríamos para verificá-lo. E de fato, a musetta havia
comido tudo.

Hoje vivemos os tempos da razão e da desmitologização. Mas isso vale somente para nós adultos. As crianças, mesmo com o Papa Noel e não mais com o Menino Jesus, vivem o mundo encantando do sonho. O bom velhinho traz presentes e dá bons conselhos. Como tenho barba branca, não há criança que passe por mim que não me chame de Papai Noel. Explico-lhes que sou apenas o irmão do Papai Noel que vem para observar se as crianças fazem tudo direitinho. Depois conto tudo ao Papai Noel para ganharem um bom presente. Mesmo assim muitos duvidam. Se aproximam, apalpam minha barba e dizem: de fato o Sr. é o Papa Noel mesmo. Sou uma pessoa como qualquer outra, mas o mito me faz ser Papai No
el de verdade.

Se nós adultos, filhos da crítica e desmitologização, não conseguimos mais nos encantar, permitamos que nossos filhos e filhas se encantem e gozem o reino mágico da fantasia. Sua existência será repleta se sentido e de alegria. O que queremos mais para o Natal senão esses dons preciosos que Jesus quis também traz
er a este mundo?


 


Publicado por Rubens Jardim em 20/12/2011 às 19h52
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25/11/2011 13h01
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (12)

Apesar das grandes dificuldades que cercaram a vida destas duas poetas libertárias, Jacinta Passos e Orides Fontela não cederam um milímetro em suas convicções. Ambas enfrentaram, em circunstâncias e tempos diversos, preconceitos e estigmas. E seus embates foram duríssimos.Só que as duas fizeram poesia de alta voltagem, sem frouxidão e derramamentos emocionais. E mereceram a atenção e o aplauso de nomes como Antonio Cândido, Sergio Milliet, José Mindlin e Maria Helena Chauí. Infelizmente, as duas morreram pobres e incompreendidas --em sanatórios. E só recentemente suas obras voltaram a ser publicadas. Presto aqui uma homenagem a elas, alterando o parâmetro da série de 4 poetas por cada postagem. O talento de Jacinta e Orides merece esta modificação --e este destaque. E eu quero contribuir com o resgate dessa poesia alheia a correntes e modismos.

JACINTA PASSOS(1914-1973) – poeta baiana, professora, jornalista, militante política e feminista, nasceu em família rural abastada da região de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Foi católica fervorosa e se transformou em comunista ardorosa, nas palavras da filha, Janaína Amado. Publicou 4 livros: Nossos Poemas(1941), Canção da partida(1945), Poemas políticos (1951) e A Coluna (1958),longo poema sobre a Coluna Prestes, empreendida na década de 1920,que buscava mudanças políticas para o Brasil.
Todos os livros de Jacinta tiveram edições pequenas, e estão esgotados há muito tempo. Canção de Partida, por exemplo, teve tiragem de apenas 200 exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados por Lasar Segall. E embora tenha despertado interesse e atenção de nomes tão importantes como Mário de Andrade, Antonio Candido,Sérgio Milliet e Roger Bastide, a poesia vigorosa e libertária dessa poeta acabou caindo no esquecimento. Eu mesmo, que circulo nesse universo da poesia há mais de 40 anos, só muito recentemente tive acesso ao seu trabalho --e à sua trajetória marcada por tantos conflitos e dificuldades.
Mulher excepcional, no sentido mais literal da palavra, Jacinta Passos abandonou a formação religiosa, comum na época, e passou a lutar, a partir do início da Segunda Guerra Mundial pela paz mundial, contra o fascismo, a opressão das mulheres e das minorias exploradas--conforme destaca Eliane F.C.Lima, em seu blogue.
Mas bem antes disso, quando tinha uns 18 anos, o catolicismo convencional de Jacinta já começou a migrar para o catolicismo social. Aquele que provocou e ainda provoca polêmicas e dissenções. Exemplar é o caso da Teologia da Libertação, tão influente na América Latina,e que acabou levando um de seus mais renomados integrantes, Frei Leonardo Boff, a ser julgado pelos tribunais do Vaticano.

O viés desse catolicismo social,formulado pela encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, procurou oxigenar e aproximar a igreja católica de uma nova realidade, desenvolvendo noções como a de bem comum (os bens comuns seriam de responsabilidade de toda a sociedade) e a de destinação universal dos bens (os bens deveriam ser divididos com igualdade entre os homens)
Segundo sua filha, Janaína Amado, responsável pela publicação do livro JacintaPassos, Coração Militante (2010) sua mãe vivenciou paixões intensas: por homens que a amaram, pela filha da qual foi afastada e pelo partidão onde permaneceu 30 anos na experiência clandestina. O calvário de Jacinta Passos começou em 1951, quando ela passou a sofrer crises nervosas e delírios persecutórios. Diagnosticada como esquizofrenica , vivenciou a violência extrema de diversos internamentos em sanatórios, tratada a eletrochoques, injeções de insulina e isolamento severo.
Mas jamais deixou de escrever. Em Aracaju, por volta de 1962, foi morar sozinha em um povoado de pescadores. Vivia muito pobremente, em um barraco de madeira, mas possuía uma máquina de escrever, onde, à noite, datilografava poemas e textos políticos, que distribuía pelas ruas durante o dia.”
Janaína conta, ainda, que mesmo após o golpe militar de 1964, Jacinta Passos não abandonou a intensa  militância junto a pescadores, estudantes e trabalhadores.”Em 1965 foi detida quando pichava muros da cidade com palavras de ordem contrárias à ditadura. Foi recolhida ao 28º BC de Aracaju e depois transferida para a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu até morrer, aos 57 anos, no dia 28 de fevereiro de 1973.”

O livro Jacinta Passos, Coração militante, lançamento conjunto das Editoras Corrupio e Edufba em junho de 2010, reúne todo o material encontrado a respeito de Jacinta Passos. Contém ainda poemas esparsos, originalmente publicados em jornais e revistas, jamais reunidos em livro.E uma bela biografia que mostra a trajetória singular da poeta, bem como sua fidelidade às idéias e valores que a levaram a chocar-se contra tudo e contra todos— na contramão do tempo.

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

Cantigas das mães

(para minha mãe)

Fruto quando amadurece
cai das árvores no chão,
e filho depois que cresce
não é mais da gente, não.
Eu tive cinco filhinhos
e hoje sozinha estou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,
como cresceram depressa,
antes ficassem meninos
os filhos do sangue meu,
que meu ventre concebeu,
que meu leite alimentou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.
Os cinco filhos que tive
por cinco multiplicaram
minha dor, minha alegria.
Viver de novo eu queria
pois já hoje mãe não sou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Foram viver seus destinos,
sempre, sempre foi assim.
Filhos juntinhos de mim,
Berço, riso, coisas puras,
briga, estudos, travessuras,
tudo isso já passou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?

Esse gosto.
Donde será que ele vem?

Corpo mortal.
Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas amor, do mar ou de mim?

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.

Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.

Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.

Fruto peco.

Novembro de sangue e de heróis.

Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.

Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.

Eu serei Poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.

 

ORIDES FONTELA (1940-1998) poeta paulista de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. De família muito pobre, seu pai era operário analfabeto, viveu sempre em dificuldades financeiras. Aos 27 anos, depois de cursar a escola normal na terra natal, veio morar em São Paulo e realizar dois sonhos: entrar na USP e publicar um livro.
Fez filosofia, exerceu o magistério e trabalhou como bibliotecária na rede estadual de ensino.
Desde o primeiro livro Transposição(1969) o discurso apurado de Orides Fontela está marcado pela contenção e pela economia verbal. Aliás, essa característica foi destacada por todos os críticos que se ocuparam de seus livros. Alguns apontaram, nessa marca personalíssima, reverberações da poesia descarnada de João Cabral. Outros, falaram da impessoalidade, da busca pela palavra exata e o culto a um silêncio esfíngico.

O certo mesmo é que seus poemas são despidos de tudo o que pode ser considerado acessório e dispensável em poesia. A produção de Orides encontra-se publicada em seis obras, todas de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo (1969-1988, reunião de todas as outras obras) e Teia (1996). A única obra em prosa foi Almirantado, publicada no número 4 do caderno Almanaque de literatura e ensaio (1977).

Segundo o poeta Donizete Galvão “ela reconhecia que era áspera, sem travas na língua e que se indispunha com as pessoas.” E a comprovação desse seu temperamento explosivo são essas palavras pinçadas pela poeta Nydia Bonetti:“Reclamam, porque eu não falo de amor. Mas então não leram Homero... Eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada. Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia. (...) Mas é a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País. Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que não agrada, porque a moda hoje é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia. Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas. (...) Eu sou pequena, pobre mulher que escreve uma poesia boa, mas, coitada, não é do meio. Não tenho família, não tenho bens, não freqüento os lugares chiques. É como se eu estivesse invadindo o Olimpo.”

Tão verdadeira e por isso tão poética, Orides Fontela recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983, com Alba , e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996, com Teia . Sempre com dificuldades financeiras, no final da vida, acabou sendo despejada de seu apartamento no centro da cidade e foi viver com sua amiga Gerda na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João. Era uma pessoa irritadiça e muitas vezes se meteu em encrencas, brigando com seus melhores amigos. Morreu em Campos de Jordão, aos 58 anos, no dia 4 de novembro de 1998, de insuficiência cardiopulmonar, na Fundação Sanatório São Paulo.

Em 2006, parte da obra de Orides --"Transposição", "Helianto, "Alba", "Rosácea" e "Teia"-- foi compilada em um exemplar pela Cosac Naify, POESIA REUNIDA com bibliografia ampla e atualizada.


o espelho dissolve
o tempo

o espelho aprofunda
o enigma

o espelho devora
a face

 

AXIOMA

Sempre é melhor
saber
     que não saber.

     Sempre é melhor
     sofrer
     que não sofrer

     Sempre é melhor
     desfazer
     que tecer

 

FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)

TEIA

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
prenhe:

no
centro
a aranha espera.

 

AS SEREIAS

Atraídas e traídas

atraímos e traímos

 

Nossa tarefa: fecundar

                            atraindo

nossa tarefa: ultrapassar

                            traindo

o acontecer puro

que nos vive

 

Nosso crime: a palavra.

Nossa função: seduzir mundos.

 

Deixando a água original

cantamos

sufocando o espelho

do silêncio

 

DESTRUIÇÃO

A coisa contra a coisa:

a inútil crueldade

da análise. O cruel

saber que despedaça

o ser sabido.

 

A vida contra a coisa:

a violentação

da forma, recriando-a

em sínteses humanas

sábias e inúteis.

 

A vida contra a vida:

a estéril crueldade

da luz que se consome

desintegrando a essência

inutilmente.

 


Publicado por Rubens Jardim em 25/11/2011 às 13h01
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