Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
12/06/2017 23h31
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (93ª POSTAGEM)

ALÍCIA DUARTE PENNA (19   ) poeta mineira, é professora de arquitetura e urbanismo, na PUC mineira, crítica de arte, arquiteta e geógrafa. Em 2005, escreveu sobre a artista Rosângela Rennó, no livro Fotoportátil. Em 2012, publicou o livro de poesia Quarenta Poemas em Dez.

AOS HOMENS DE PÉS BRANCOS

I

Há (talvez) uma escola daqueles homens

que sempre avisto na rua,

os pés firmes nas sandálias havaianas

que os dedos tesos transformam em botas

de passos urgentíssimos e retos,

cobertos por um pó-branco:

prumo-linha-esquadro-nível,

dias-meses-anos,

irredutíveis.

II

Serão necessários:

a data de nascimento,

o número da carteira de identidade,

o número de projéteis cravados na carne,

a hora da morte,

os exatos finitos,

para que:

o médico legista conclua a autópsia,

o juiz autorize o sepultamento,

o cartório libere o atestado de óbito,

a prefeitura conceda o serviço funerário gratuito,

para que uma mulher,

que espera,

uma filha,

que espera,

possam se despedir

daquele homem

há dias atingido quantas, quantas vezes,

na porta da casa que era a sua,

na rua onde é difícil chegar água, luz

e o carro de horrível nome rabecão.

E, enquanto esperam,

ninguém as ouve contar outra história

(a do homem que ensinaria a outros homens

as noções de prumo, alinhamento, esquadro e nível),

nem supõe a fome que sentem,

ali, e sozinhas.

UM QUARTO DE SÉCULO

Sofrer é pouco.

Ser feliz é pouco.

Quero o destino de volta!

O tremendo destino que tinha aos quinze anos,

o imperativo dedo de Deus apontando o absoluto:

sim é Sim, não é Não.

POBRES MOÇAS

Por que se olham – chispas –

como estranhas as moças?

Curiosidade não têm uma pela outra?

Sendo moças, que pouco viram,

por que se desviam, contrariadas,

daquela que é outra, mas si?

Acaso desejariam pertencer a humanidade alguma?

No temor da não-coisa,

o olhar anoitecido,

retêm suas sacolas junto ao peito:

as coisas às coisas salvarão.

Uma certa blusa, este cabelo, o ar

e a invencibilidade, apostam

(no encontro para o qual se preparam não se forma par:

vencedor e vencido saem separados ao final).

Desconhecem – desconhecerão sempre, sempre,

até velhas, até depois de velhas?-

os manuscritos, a revolução, a liberdade?

Em linha marcham:

dessemelhantes, desamorosas, ah, pobres moças.

Mas eis que uma se desvia, oh,

e amanhece!

A UM PASSANTE

Você não é belo ao passar.

Pálido ou indesculpavelmente branco,

cabelos recém-lavados,

óculos espelhados, de corrida como os de um cavalo,

o aro amarelo mal se equilibrando no rosto de ossos,

civil, moderna, heroicamente feio.

Traficante, dono da boca, do pedaço?

Não sei, mas sabe você como haverão de saber outros.

A caminho da favela, seus passos – planos – estão traçados,

como os meus. Em círculos caminho, circunscrita,

ou corro, presa da organização – outra? –

de que preciso, ser-no-mundo vasto e sem solução.

Raimundo poderia ser o seu nome quanto o meu,

em letra somente para poucos decifrável,

assinados em multidão.

MARCELA MARIA AZEVEDO(19   ) poeta pernambucana, já morou no Pará e vive atualmente no Rio de Janeiro , onde faz doutorado na UFRJ e estuda as relações entre Poesia e Psicanálise. É mestre em psicologia, e está finalmente preparando o material para publicação de seu primeiro livro: todas as mães são tiranossauras.

eu parti

como se cada figura minha precisasse de abandono.

saio de casa ao amanhecer

de corpo mudo

deixo minhas tralhas, lençóis, livros

que há anos ardem em meu respirar

e te renuncio

cautelosa, além do horizonte matutino

onde naturalmente as coisas se transformam

e as memórias se desfiguram, ingênuas

em nosso despertar.

eu sinto muito, pai

mas já não conseguia suportar minha outra mulher.

AOS HOMENS QUE USAM ALGUNS GRAMAS DE ANALGÉSICO PARA FINGIR UMA ILUSÃO

que colocam os quadros de família no centro da sala de estar

junto de almofadas importadas e tapetes carregados com a poeira do século

falam com as bocas cheias de nunca peço desculpas

e derramam gordura nas toalhas de mesa de suas mães

a vocês

que nos tiram a presidência

os ministérios

os peitos caídos

as bundas murchas

e o nosso envelhecer

eu ainda uso as mesmas roupas

aqueles farrapos históricos que sobraram dos anos 80

cheios de rostos que são como cemitérios

a sua dor de cabeça vem do centro de sua mãe

e ela dói como dói uma mulher

por sermos diariamente extintas

e tiranossauras

EXPLICAÇÕES SOBRE A BIOLUMINESCÊNCIA

ou um ensaio sobre a saudade

este poema começa com três palitos de fósforo

e um cigarro perto da janela

: fiat lux

comunicação luminosa

você na cadeira ao lado asmática

em mil novecentos e noventa e seis

- eleonora se foi -

depois eu já não sei o que penso

pensando em você todos os dias

há manhãs que somos anne sexton

suicidadas em nossa própria casa

com um pouco de vodka

e sylvia plath

jornais acumulados

isqueiros guardados na segunda gaveta

meu útero podado

há manhãs que tudo são fótons

em ascensão e ascendência

da chama que guardo

inteira acesa

com teu gosto

e adeus.

POR UM CONSENTIMENTO EVOCATIVO DE TERNURAS

eu visitei o quarto de frida kahlo, sister

vi mulheres de batons rubi com a mesma cara amarela da nossa mãe

: a que ela usa nas fotografias dos álbuns de família

e nas caixas deixadas ao avesso de qualquer solidão.

don’t do that, woman

let me get you another drink

intervalo uma mulher

uma qualquer dessas que existem num atlas de imagens invisíveis

sentada num banquinho de 30cm de onde assiste o percurso do sol enquanto faz seu

[crochê

brincando de nostalgia com o toque da agulha que eventualmente perfura os seus dedos

e lugarejando o mundo com um olhar marejado

eu visitei o quarto de frida kahlo, irmã

tinham potes de lágrimas junto à foto de diego

e eu só conseguia dizer à minha mãe

: please don’t do that, my woman

let me get you another drink

LUNA VITROLIRA(19  ) poeta pernambucana, declamadora, atriz e performer. Com seus espetáculos de récita performática, Não Os Queríamos Sagrados e Sala de Estar, Luna tem participado de importantes eventos literários como a Balada Literária/ SP; Festipoa Literária/RS; CLISERTÃO/ PE; Festival Internacional de Poesia do Recife/PE; Jornada Literária Portal do Sertão/PE; Bienal do Livro de Pernambuco/PE e outros. 

MARTELO

O amor bate seu martelo

sempre

no mesmo prego

até acertar

o dedo

HÁ DIAS

Há dias em que necessito silêncio

e não quero me mexer

e não quero falar

e não quero abrir os olhos

nem sair de dentro de mim

Há dias em que sou paz e guerra

tumulto condensado em meu tumulo

alguém que tenta ler o futuro no lodo das horas

procurando sonhos dentro de um  balde

Há dias tenho sono

vivo exausta da ignorância alheia

E sinto saudade do pé de manga da minha rua

onde eu empinava pedras e não pensava na morte

O AMOR

É feito bala perdida

que acerta um desavisado

ao cruzar a rua

Ao dobrar a esquina

Às vezes vem num soco

Às vezes num grito

O amor às vezes é isso

Uma panela de água fervendo

no rosto de alguém querido

às vezes esmola

às vezes migalha

que se devolve com um tiro

ou acaba em facada

o amor tem medo da vida

uma hora eleva

na outra arrasta

desconfia da sorte

tem medo da falta

O amor corresponde à entrega

com uma rasteira e às vezes mata

De tirania

De asfixia

de ciúme

De raiva

Como alguém que se alimenta

e de repente engasga

CREDO

Eu acredito no amor

de porta de banheiro de muro pichado de acento de ônibus

de alto de prédios  de orelhão quebrado

 

No amor que singra as pontes do Recife ao meio dia

que corre pra cruzar a rua

driblando buzina no meio da vida

no amor que xinga e colhe uma flor

corresponde um aceno

 

acredita em destino e acaso

ama e odeia ao mesmo tempo

Eu acredito no amor de Eurídice e Orfeu

no amor que desce ao inferno e volta de mãos vazias

no amor de Medéia, de julieta e no meu

que não ultrapassa o clichê de um sonho de padaria

 

Eu acredito no amor de uma criança

por seu cachorro e seu boneco

sem fazer distinção de afeto, porque em ambos lhes cabe vida

no amor pelo feio, pelo disforme, pelo que é ignorado

no amor que zela e machuca com veneno e cuidado

Eu acredito no amor de Nena por sua bodega

 

no de Deja por seu Jardim no de Seu Castelo por sapos

 

no de Dona Chocha pelas roupas e no de Angela por seus gatos

acredito no amor que corre as ruas da minha infância

no amor que dá bom dia

que ajuda uma velha a segurar sacolas

 

ou no amor que empresta seu ombro como guia

pra atravessar o delírios das horas mortas

acredito no amor da minha mãe por mim e

mais ainda pelo vício de cigarro com coca-cola

no amor que acontece nos becos, as escuras, sobretudo

e todo amor que nasce proibido e permanece clandestino

a espreita pra quem sabe se tornar público

no amor de duas vulvas

no amor entre dois falos

no amor que se embaraça

e serena pra findar grisalho

no amor que não tem número

que geme, rosna e grita

vulnerável, enciumada

 

infiel e homicida

de posse e possessão

 

amor que supera as distâncias

da convivência

que muda de calçada nas brigas

e se mostra mais amor em complacência

e não sucumbe aos apelos da liberdade ou de uma prisão

amor de banco de praça

que desalinha

 

mas depois  entrelaça

amor que se despede

se desespera

se despedaça

 

amor que não cabe num ínfimo segundo em que a morte o assalta

ADÉLIA DANIELLI(19 ) poeta potiguar, cursou letras e ciências sociais na UFRN. Divulga poemas na internet e participou de três publicações coletivas: o livro  Por cada uma (2011) e os zines Entre Seios e Revoada. Seu primeiro livro solo, Bruta, foi lançado em maio de 2016, Numa sexta-feira 13.

Minha anatomia

minha autonomia

à disposição

da sua língua

vadia

..............................................................

No interior

das coxas

uma lambida

e uma mordida

mel e pão

no café da manhã

...............................................................

 

venha me tomar

de corpo e alma

tomar meu ar

meu café

a poesia que paira

sobre esse lugar

que se instaura

em cada coisa da sala

nesse momento

em minhas mãos

em minha mente

em mu coração

venha me tomar

absorer a canção do silêncio

da fumaça saindo da bca

da calmaria real

desacelarada

e presnete no momento

presente

sem lucidez ou utopia

sem metafísica

sem reparar nas horas

sem saber qual é esse dia

apenas venha

me tome

me absorva

.........................................................

 

há uma linha tênue

entre todas as músicas

que mais amo

e seu sorriso

conversas sobre tempo

e espaço não me resgatam

do lugar em que me encontro

apenas eu dançando pra você

e o nada

meu processo criativo

está fascinado pelo jeito

que você fala

tem uma charla no discurso

bem argumentado

e os olhinhos

que hora se apertam

hora estão arregalados

me perco nas ruas

que ando todos os dias

pego os mesmo ônibus

errados

uso pares de sapatos trocados

porque

eu não estou mais em mim

 


Publicado por Rubens Jardim em 12/06/2017 às 23h31
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
20/05/2017 21h19
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (92ª POSTAGEM)

GENI GUIMARÃES (1947) poeta paulista, iniciou a carreira literária publicando poemas em jornais no interior de São Paulo. O primeiro livro, Terceiro filho, foi lançado em 1979. Em 1980, aproximou-se do movimento negro e publicou mais 2 livros de poesia: Da flor o afeto, da pedra o protesto (1981)Balé das emoções (1993). Também publicou livros de contos  e de literatura infantil.

MINHA MÃE

Gosto da inocência dela:

Benze crianças,

Faz simpatias,

Reza sorrindo,

Chora rezando.

 

Gosto da inocência dela:

Apanha rosas,

Poda os espinhos,

Coloca nas mãos,

De meninos branquinhos.

 

Gosto da inocência dela:

Conta histórias longas,

De negros perdidos,

Nas matas cerradas,

Dos chãos do país.

 

Ama a todo o mundo,

Diz que a ida à lua,

É conto de fada.

 

Gosto da inocência dela:

Crê na independência,

E é tanta a inocência,

Que até hoje ela pensa,

Que acabou a escravidão.

… Inocência dela…

 

QUANDO ME VEM...

Quando me vem oferecer uísque

aproveita o dedo que segura a taça

e me indica a porta, disfarçadamente.

Eu consciente

do direito a festas,

(inclusive a comemorada no mês de maio)

bebo. E não saio.

 

BICHO DA SEDA

Nascia

 

Um belo dia,

emoção forte me causou vertigem,

mamei minha mãe na fonte

de leite fiz um verso virgem.

 

Dos rios mastiguei os córregos

dos sóis sorvi dourados bicos

tomei do alfabeto, os símbolos

com eles fiz um verso rico.

 

Mas, da primeira cobra

armada em botes,

aprendi as contorções molengas

tomei da angustia, vida fluída

ri um verso duro, capenga.

 

Sou hoje colheita descoberta

dos amores de auroras nas fazendas,

extração dos capitães de mato

e dos de Areia do Jorge.

 

Explico então:

 

o poeta é um bicho de seda...

que explode

 

INTEGRIDADE

Ser negra

Na intregridade

Calma e morna dos dias

 

Ser negra

De carrapinha,

De dorso brilhante,

De pés soltos nos caminhos
 

Ser negra,

De negras mãos,

De negras mamas

De negra alma

 

Ser negra,

Nos traços,

Nos passos,

Na sensibilidade negra.

 

Ser negra,

Do verso e reverso,

De choro e riso,

De verdades e mentiras,

Como todos os seres que habitam terra.

 

Negra

Puro afro sangue negro,

Saindo nos jorros

Por todos os poros

 

HERCÍLIA FERNANDES (19  ) poeta potiguar, é professora da Universidade Federal de Campina Grande. É pesquisadora ligada aos estudos histórico-culturais e dispõe de artigos publicados em livros, periódicos e anais de congressos. Publicou o livro de poemas Nós em miúdos(2015). Pedagoga e mestra em educação está fazendo doutorado.

E

E quando a manhã chegar,

faço-me Scarlett O’hara...

levanto as sobrancelhas

e convenço-me que é

outro dia

 

E FOI

não pronunciou

nenhuma palavra

 

e foi

como se dissesse

tudo

 

no nada

 

CHEIAS

queria não pensar em você

montar acampamento em seu corpo

 

viveríamos sem terra, sem pressa,

sem adornos

 

À AURORA DO CAMINHO

tudo o que sonhamos,

abandonamos à aurora

do caminho:

 

a flor

o orvalho

o espinho

 

o agasalho fora do ninho.

 

LISA ALVES (1981) poeta mineira, é curadora da revista Mallarmargens e colunista da revista Elenismos. Têm poemas publicados nas revistas Incomunidade (Portugal), Zunai, Flaubert, Parênteses, Germina Literatura, Cronópios e Diversos Afins. Recentemente lançou seu primeiro livro de poemas Arame Farpado(2015). Vive em Brasília onde colabora com o fanzine feminista de Salto Alto.

DECLARAÇÕES MORIBUNDAS

ou como as coisas nunca mudam de fato.

Éramos filhos de gerações – que não geravam ações, apenas a experiência de erros que não deveriam ser repetidos.

Éramos muitos: fardados, naturalistas, modistas e contra tudo que fosse dito proibido.

Éramos luz e trevas ao mesmo tempo – e ainda assim ajoelhávamos nas catedrais espirituais em busca de alguma salvação.

Éramos príncipes, plebeus e as vezes democratas que sacudiam as ruas com placas e faixas reivindicando alguma mudança na consciência coletiva.

Éramos trabalhadores e acreditávamos que a carga horária do dia nos tornaria a futura elite do país.

Éramos bárbaros – matávamos por comida e por um pouco de fogo e sexo

Éramos pré-colombianos, pré-greco-romanos, pré qualquer coisa escrita pela história oficial. – e ainda tiveram a ousadia de nos catequizar, estuprar e classificar nosso chão de Brasil Colônia.

Éramos revolução industrial: fábricas, camponeses em áreas urbanas, favelas crescendo, densidade demográfica, fome, miséria e falta de saneamento básico.

Éramos anarquistas, comunistas, populistas e fazíamos reuniões politico-intelectuais sem ao menos sentirmos no paladar o gosto do feijão requentado. (ou até a falta do mesmo)

Éramos padres e madres – rezávamos antes mesmo do sucumbir do sol e em noites enluaradas éramos insistentemente perseguidos pela voz do Demônio da Luxúria.

Éramos Ladys e gentlemans – freqüentávamos as melhores festas, fumávamos charutos contrabandeados e no final do mês nossos cheques especiais estavam estourados.

Éramos artistas marginais – escultores, pintores, escritores e compositores. Até o dia em que a Industria Cultural levantou uma cerca e transformou as grandes obras em linhas de produção.

Éramos leais militares – direita, esquerda, volver! Nossa marcha era conduzida pelo patriotismo, idiotismo e porquê não dizer: fascismo!?

Éramos a pequena burguesia – cidadãos médios, assalariados, diplomados, comungados e porquê não dizer: conformados!?

Éramos tudo isso – um bando de ações que mataram as gerações.

FILHOS DE MADALENA

Alastra-se um cobertor virótico neste solo.

Quem dorme não terá mais chance de dizer: Bom dia!

Fazemos nossa parte: vendemos nossas vidas.

Hoje nossas genitálias rendem o prato do dia.

 

WOOLFS & STORNIS AQUI DENTRO

Eu sou desordem.

Exterminadora de Eus passados.

Alma em cálice de vida.

Corpo entregue à ruína.

Eu sou canção do exílio – inteligência colonizada.

Segredo para mais de 500 anos.

Império de sem terras, de sem tetos e de sem vergonhas.

Meu sexo é algema, mácula e saia longa.

Meus olhos esperam o não sei o quê.

Curso pontes e pinguelas

desafiando Leis e o Reich da Gravidade.

 

CURTAS DE MEUS LONGAS

II

Sou a mesma figura que caminhou ao lado de ideais que sucumbiram ao tempo: assisti a Revolução Francesa apesar de ter nascido no Brasil de 1981. Fui agente comunista, embora nunca tenha comido criancinhas.

E agora sou um fruto capitalista:

apodrecido dentro do mercado.

 

CLARA BACCARIN(19  ) poeta paulista, formou-se em letras e fez mestrado pela UNESP (Araraquara). É autora do romance Castelos tropicais (2015), do livro de poemas Instruções para lavar a alma (2016) e do livro de crônicas Vibração e descompasso (2017). Escreve para diversos sites e em 2017 teve poemas gravados no CD Lavar a Alma. Morou na Austrália, Chile e Hungria.

entre silêncios e entrelinhas

entre peles e recantos

entre vãos e desvios

entre a coincidência dos olhares

e a refração dos espelhos

entre os escafandros e os nus em pelo

Amar é sempre um tiro no escuro

 

DECEPADO

ele me mandou uma foto do pinto

um close do pinto

um pinto ereto na minha tela

sem pernas, sem corpo, sem mãos

sem homem

 

um pinto sem história

decepado e duro

um falo que não fala

e mesmo que falasse

não me diria nada

 

um pinto solto

que eu não conhecia

e nem tinha imaginado

um dia

as formas, a potencia

a essência

a geometria

 

um pinto que não me excita

antes me desanima

pela falta de empatia

com o universo

feminino

 

ele me mandou a foto do pinto

e eu que pensava no sorriso

eu que pensava nas ruas

que a gente andaria

eu que sentia

as conversas e os vinhos

eu que via a companhia

o abrigo, o carinho

 

vi o pinto

um pinto imponente

dominador

furador de sonhos

protagonizando

a nossa história

interrompida

 

LEGADO

mulheres que faziam café

vestiam os filhos dormindo

colocavam para tomar sol

o tio idoso e as roupas de inverno

acompanhavam os maridos

nas rezas da igreja

e nas passeatas políticas

 

mulheres que tinham ajudantes

desde a casa colonial

que cuidavam das finanças

das aparências

e do destino

de cada membro

desse partido

chamado família

 

mulheres que pariam

com a força

com que empurravam os dias

sorriam para o gato

brincavam com as crias

quebravam o pescoço da galinha

humanas e alienígenas

 

mães de gerações inteiras

leitos de leite e de seiva

humildes em suas redondezas

que não ditavam mas conduziam

 

mulheres que carregavam mundos

com o orgulho de um pavão

sem plumas

 

À FLOR DA PELE

a pele

muito mais que casca,

derme que adere à alma.

a pele

muito mais que veste,

que protege e guarda.

a pele alarga,

a pele estica,

a pele transcreve,

transita,

transcende

as percepções da vida.

 

a pele é ponte

entre as células do céu

e as estrelas do ser.

a pele arrepia,

a pele abre,

a pele dissocia,

a pele extravasa.

 

a pele é passagem livre

de energias.

a pele ensina,

aprende,

se estende e se comprime.

 

a pele

transparência

das vísceras.

 


Publicado por Rubens Jardim em 20/05/2017 às 21h19
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
02/05/2017 14h40
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (91ª POSTAGEM)

CONCEIÇÃO EVARISTO(1946) poeta mineira, fez mestrado e doutorado em literatura. Começou a publicar na década de 1980 poemas, contos, ensaios e romances. Militante do movimento negro, nasceu em uma favela em Belo Horizonte. Poemas da Recordação e Outros Movimentos (2008) é seu último livro de poemas.

RECORDAR É PRECISO

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos.

A memória bravia lança o leme:

Recordar é preciso.

O movimento de vaivém nas águas-lembranças

dos meus marejados olhos transborda-me a vida,

salgando-me o rosto e o gosto. Sou eternamente náufraga.

Mas os fundos oceanos não me amedrontam nem me imobilizam.

Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.

Sei que o mistério subsiste além das águas

DO FOGO QUE EM MIM ARDE
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
não aquele que te apraz.
Ele queima sim,
é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel
incendiando até ás cinzas
O desejo-desenho que fazes de mim.

Sim, eu trago o fogo,
o outro,
aquele que me faz,
e que molda a dura pena
de minha escrita.
é este o fogo,
o meu, o que me arde
e cunha a minha face
na letra desenho
do auto-retrato meu.

DA CALMA E DO SILÊNCIO
Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

FILHOS DA RUA
O banzo renasce em mim.
Do negror de meus oceanos
a dor submerge revisitada
esfolando-me a pele
que se alevanta em sóis
e luas marcantes de um
tempo que aqui está.
O banzo renasce em mim
e a mulher da aldeia
pede e clama na chama negra
que lhe queima entre as pernas
o desejo de retomar
de recolher para
o seu útero-terra
as sementes
que o vento espalhou
pelas ruas...

MARIANA DE ALMEIDA(19  ) poeta paulista, nascida em São Bernardo do Campo, é formada em Letras, e escreve  no blog Diário Balzaquiano denunciando as dores e delícias de uma mulher que vive nos tempos atuais . É redatora e editora da página Casa da Poesia. Vive em Sorocaba.

AS NOITES NA CIDADE

As noites no centro das cidades

São sempre tristes com suas ruas sujas

Poças d’água encardidas de carbono

Lama, cuspe, mijo e burocracias

Do dia que passou.

Não me iludo, as noites daqui

São tão sujas quantos as de Paris,

Nova Iorque, Marrakech e Milão.

Noites que fedem a perfume barato,

Cigarros, bebidas, catarro e sexo.

 

As putas do centro da cidade

São exatamente as mesmas

De qualquer lugar do mundo

A maioria delas é filha de alguém

E a maioria delas é mãe de alguém

E a maioria delas é mulher de alguém

E a maioria delas paga contas ao amanhecer

E a maioria delas toma café e porrada

Num bar miserável da cidade.

É preciso sempre encarar a volta

Algum buraco do mundo deve ser sua casa

Algum buraco do mundo guarda suas histórias

Algum buraco do mundo esconde toda a verdade.

Eu nessa hora de insônia

 

Penso nas putas da General Carneiro

Penso nas putas da Paulista, da Tijuca

De Manhattan e de New Orleans

Gostaria que elas soubessem

Que alguém desse planeta absurdo

Está pensando nelas.... No frio,

No açoite, na coca, no medo, nos caras que chegam.

Jogo minha bituca pela janela

Observo a brasa se despedaçar ao chão

Não sinto culpa, ajudo foder o mundo

Denuncio nossa maldade

Traduzo para você

O que a noite não revelou.

DE TODAS AS MULHERES

De todas as mulheres do mundo

Eu já fui todas

De menina e santa

Casta e puritana

À sacana e insana

Aquela que engana

Em troca de qualquer aliança

Já fui inocente como nova

Já fui coerente como velha

Já fui linda como a lua cheia

Já fui feia como areia seca do sertão

Já disse sim e já disse não

Já entrei em templos e igrejas

Já dancei com as bruxas sob o clarão

Da imensidão da lua sobre o chão

Já entornei o vinho, o lírio, a papoula

Já mastiguei a hóstia, o pão e o sermão

Já vomitei em latrinas de ouro

Já comi em pratos de papelão

Já fui feliz ao pisar na terra com pés descalços

Já amei na beira do mar enquanto a água salgada

Molhava meu vestido de flor

Já chorei sozinha em rodovias desertas

Sem carona, sem carinho, sem deus.

De todas as mulheres do mundo

Carrego cada uma delas no meu olhar.

WILD SIDE
Adoro a selvageria

O rasgar das roupas

Das peles e da moral

Adoro o instinto

As vontades

Que invadem

Obedeço à elas

Como escrava;

 

Desordem total

Na manhã seguinte

Cabelos desvairados

Devagar recolho o que sobrou

Volto para o mundo de óculos escuros

Para as dores do corpo: Dipirona

Para as dores psíquicas: Cafeína

 

Caço um cigarro pela casa

Muitas gavetas cheias de nada

Junto os trocados para ir à padaria

Me perguntam quantos pães vou querer

- Nenhum, obrigada.

Só um expresso mesmo

E um maço de Marlboro , light.

GOSTO
Eu gosto do perigo, eu me arrisco

Um palpite, um poema ou uma taça de vinho

Que pode ser a minha ruína

Ou a minha fortuna;

Ah, eu invisto mesmo para perder

O que se guarda se morre sem nascer

Eu aposto sob a luz da lua

E faço vingar sob a pele

O único sentido dessa vida.

MARIANA BASÍLIO(1989) poeta paulista, é pedagoga e mestre em educação. Autora dos livros Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016), Prepara atualmente os dois próximos livros, Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016) e Megalômana. Possui poemas e entrevistas publicadas em revistas e fanzines de Portugal e Brasil. 

                                      À memória de Allen Ginsberg

O peso do mundo é o peso do sonho.

Sob o fardo do amor,

Sob o feitio da ilusão.

O peso do mundo é um fator irreal.

Sob o feitiço do perverso,

Sob a finura do convexo.

Mas quem de nós poderá negá-lo?

Se a leveza é invenção abstrata.

Se a natureza é limite brutal.

Paraísos movem-se mais adentro.

Peregrinos progressos rarefeitos.

Moléculas de uma frágil história.

Em céus que desabam, petrificados.

Pois nenhuma elucidação, América,

Há de salvar-nos.

Nenhuma religião, Kaddish,

Será poesia.

Nenhuma dor, atemporal.

I

Se me disseres, amor, sou teu sonho.

Dir-te-ei, rema, ardor, entre os olhos.

Pois o canto que cantas é efêmero.

E o que sou é estandarte do sol.

A crescer frágil e rígido.

A rasgar os votos sagrados.

Entre a ruptura dos galhos.

Repara no que te digo.

Se me disseres: voa, sou teu laço.

Fugirei hoje mesmo, desertora.

Pois onde amo, não caibo.

Pois onde vivo, não meço.

Vaga, eu te vago.

Vaso do vazio.

Pureza do perene.

Um adeus inerente.

II

São hemisférios os meus olhos.

Ainda que crepitem os séculos.

Ainda que naufraguem no presente.

E não posso adiar o amor que sinto.

O amor suporta o peso corpóreo.

Atravessa a pobreza, o ódio, o abandono.

Abraça o que se renega.

Conduz o que não se mede.

À sombra de uma árvore, resistimos.

O amor e eu. No coração que é vertigem.

Em vias remotas e poeiras estelares.

Tudo é afinal, indiferente.

Porque não posso adiar a vida.

III

Divino Nada.

Toca-me o espírito.

Como o fugaz sopro da morte.

Como se o tempo fosse vida.

E o futuro, minha sorte.

Apresenta-me: desfecho.

A inacabada via.

Oferenda terrena.

Inevitável meio.

Divino Nada.

Salva-me o corpo

Em linhas versais.

Sela os segredos

Fluindo silêncios,

Abismos minerais.

Preposições são cantares,

No princípio da imagem.

Tu, fascínio em milagre.

Por campos lacunares.

O vasto total.

Amiúde, o haver nos restará.

O haver em branca transparência.

Construções em pás de silício.

Gravuras que se entrelaçam.

O oco fundo, Divino Nada.
 

NANDA PRIETTO(1998). Poeta mineira, é guitarrista da banda “Macacos & Donzelas”.Autora do livro de poemas Princesa mas peçonhenta (ainda inédito). Mora com os pais em Poços de Caldas/MG. É fanática por Rimbaud ("Uma Temporada no Inferno  é minha bíblia") e adora Drummond e Kurt Cobain.

Logo que li num site humanitário

Que crianças cambojanas ganham

Duzentos cents/semana

Trabalhando quinze horas/dia

Em fábricas da Nike,

Arranquei meus tênis e os atirei

Pela janela do meu quarto.

Acertei os fios elétricos

E causei um blackout no bairro.

KAHLO
A nitroglicerina é um bálsamo.

Um trem de ferro que

Me entra pela pélvis.

Mas me distraio das fraturas

Tendo orgasmos.

Pintando frascos de fetos alados

De anjos de asas mutiladas.

Fazendo a autopsia

De minha natureza viva.

 

Diego me queria

Mulherzinha.

Calcinha mínima.

Echarpe.

Pulseiras e colares.

Cinta-liga.

Mas calcei o meu strap-on

E me fui

À caça de seu sono.

Ao acordar, ele:

“Sonhei que Deus me

Queria

Parir menina”.

 

Então o vento que sou

Capaz de exalar

Ondula, belamente, os meus cabelos.

Sou Eva, Lilith e todas

As diabas vira-latas.

Vingativa dos adultérios,

Corto meus cabelos.

Sementes de serpentes.

Ordeno-lhes: “Entrem

Pela uretra de Rivera”.

RITUAL
A minha nudez é isso

Que você está vendo.

Meus cabelos exalam

Gafanhotos e outras pragas.

 

Para a missa, entro nua

De bíblia em punho.

 

Enquanto “eles” bebem,

Em torno do altar do holocausto,

As vísceras do crucificado mais recente,

Recolho, um a um, os sêmens

Dos cordeiros primogênitos.

 

Na rua, minha nudez é

O que você está vendo:

Câncer no coração.

Vermes nos olhos.

Lepra na genitália.

A nudez é o que

Você vê?

Eu, nua

Sob a burka.

Democra$ia!

Simulacros de intestinos que bebemos

Exercitando

Nossa ilusão de livre-arbítrio.

 

masoquista pusilânime

Nunca senti saudade.

Exceto

Quando o céu e o chão fugiram

Quando você

Se foi cantando,

Se metamorfoseando

Em pássaro voando

Para longe, para sempre,

Para fora do alcance

Das minhas unhas,

das minhas pedras,

da minha gaiola para serpentes.

MELANCIA
Teus seios. Pegajosos. Úmidos.

Minha boca, nossas bocas,

Escorrendo. Biquínis.

Umbigos. Tatuagens. Piercings. Vulvas.

 

Comemos o verão todo

Besuntando de água a sede

Uma da outra.

 

Febre úmida. Satélite. Abelha.

O açúcar de teus segredos.

Língua. Gilete. Vulva. Ânus.

Stacy Martin. Lisbeth Salander.

 

Strapon não me expurga.

(Prefiro dedos. Boca. Seios. Ânus. Vulva.)

 

Nós. Duas amantes púberes de Klimt.

Duas de Les Demoiselles d’Avignon.

Santas Teresas cantando baise-moi.

Ombros desnudos propondo travessias.

Risinhos de êxtases vespertinos.

E quem olhasse veria apenas

Duas crianças comendo melancia.

 


Publicado por Rubens Jardim em 02/05/2017 às 14h40
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
10/04/2017 20h26
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (90ª POSTAGEM)

ZULMIRA RIBEIRO TAVARES(1930) poeta paulistana, estreou com o premiado Termos de Comparação(1974) livro onde mistura contos, ensaios e poemas. Publicou vários livros de ficção como O nome do bispo (1985), prêmio Mercedes-Benz de literatura, O mandril (1988) e Joias de família (1990), prêmio Jabuti de romance. Vesúvio(2011) é seu primeiro livro só de poemas.

VIDA: OBJETO DE DESEJO

Nós desejamos pinguins.

Não os de geladeira

com seu peso fixo de massa pintada

sua estatuária de cozinha

sem nenhum sopro de da Vinci.

 

Nós desejamos pinguins.

Não os das geleiras

que nos esfriam os dedos

ao toque de suas penas firmes.

Frios são os caminhos que a morte nos envia.

 

Desejamos os pinguins de nosso assombro

fechados dentro de nós no desejo

como pérolas nas ostras.

Ostras não sabem das pérolas

que engendram e trazem consigo.

E nós que os formamos do escuro,

deles só temos o rastro, pinguins,

com seu brilho

de nácar.

LEITURAS

Minhas leituras memoráveis são aquelas

quando à noite cabeceio na leitura.

 

Diante do livro aberto eu persigo

o friso das palavras que prosseguem

pelo vão das pálpebras.

 

Há sentido,

 

que passa despercebido

mas que me resguarda.

 

Pela manhã quando desperto

desprezo o livro ao lado e observo

no alto o teto liso.

 

O teto narra esplêndidas histórias

na superfície branca de páginas não

impressas.

 

Nelas acredito.

CÉU

Pelo cemitério.

Menino nanico e os pais indo à frente.

Ele — arrastando os passos,

um pé mais o outro.

Os mortos eram deles, pais,

não os havia conhecido, nada lhes devia.

A certo momento parou e pensou

na excursão como plano fechado,

para a hora.

Subiria no túmulo mais baixo.

Em mais um, e mais um acima.

Os mortos seriam de outros,

pisaria suas cabeças prensadas

pela vida que lhes pesava por cima,

fechadas no silêncio

do escuro sob a pedra.

De cada pedra fazer um degrau para o alto.

No último túmulo aspirar fundo e dar o impulso

escorado por algum braço de mármore,

algum ângulo de cruz polida

com arestas de navalha.

Sem raspar o cimento com as pontas do calçado

no impulso passaria em voo sobre o muro,

tombando no terreno vizinho

onde meninos livres e terríveis

brincam sem trégua de tudo que lhes é proibido

chutando bolas murchas e cacos de garrafa,

dando os gritos agudos dos cantores e dos bichos

no meio do terreno baldio

do outro lado do muro.

No centro do céu.

PASSAROCO

                    o nome esquecido da melancolia

Quero me ir devagarinho

como iria um passarinho.

 

Mas como iria um passarinho?

Já vi passarinho morto.

Passando a morto não vi.

 

Mas passarinho e vagarinho

soam parelhos à vida

que vai no compasso igual

dos relógios tiquetaque

que já não são deste mundo

 

e só fazem ruído por dentro

naqueles que hoje morrendo

vieram de tempos passados

dos relógios com alarido.

 

Tenho pena de mim que não tenho

penas de passarinho

 

que se soltam dos ninhos

e com o vento

formam redemoinho

 

erguendo uma ponte aérea

entre a terra

e o céu dos homens

 

onde só nascem árvores

que nunca perdem as folhas.

 

Para elas queria ir chegando

com ares de passarinho

 

levando bagagem pequena

com certo acento de voo

 

e uma tristeza branda

com a qual se forram nos ninhos

 

o travesseiro daqueles

que a chamam melancolia

 

e eu diria passaroco.

CLAUDIA MANZOLILLO(19  ) poeta carioca, escreve contos e ensaios. É mestre em literatura brasileira pela UFRJ e professora de língua e literatura do Colégio Pedro II. Publicou o livro de poemas A dona das palavras(2015).

SINA

Assim o mar se fez em mim

concha, ostra, sereia,

me navego

e me transbordo.

No começo de mim,

era a água.

Mar, córrego ou rio,

é nela que me

recolho

e me refaço

enfim.

Navegar é sina

de imigrantes.

Eu me navego,

imigrante de mim.

...............................................................................

Disperso

entre coisas e casos,

o caos.

Recolhidos os cacos,

pedaços,

refazem-se traços e

passos.

Restaurado o rosto,

compostos sulcos e

linhas,

resgatada a palavra,

anima mea,

conduzo o corpo

ao leito

e dispo

o que me pesa.

Durmo

com os anjos.

AZUL REAL LAVÁVEL

                                       Para meu pai

Como o sangue corria-lhe nas veias

a tinta enchia-lhe as folhas

caligrafia indelével

pingava sobre o branco

perfeita combinação

nenhum traço

nenhum senão.

Me coloria os dias

o conteúdo do pote

nada detinha a letra

no linho, no algodão

floria a pétala azul

nenhum borrão

nenhuma mácula ardia.

A pena corria leve

sem rasuras rumo à folha

coisa viva aquela tinta

que lhe escorria das mãos.

ESTOU DE RETIRO

Estou de retiro

de tudo que não vale a pena.

Estou de retiro

do que me aparta de mim mesma.

Estou de retiro

da inutilidade das coisas

e do excesso de etiquetas.

E eu retiro

todas elas

do meu saco.

Joguei-as fora

pedras

palavras

atos

e atas

inúteis

cangalharias

enfeitando

enfeando

a cara

limpa.

Estou de retiro

e, nesse retiro,

tiro e ponho

coisas e gente

no seu devido lugar.

Eremita,

vou lapidando o dentro.

aprendendo silêncios.

Quem sabe o menos é mais

nessa contagem particular?

MICHELLE FERRET(19  ) poeta potiguar, é jornalista, professora da Universidade Potiguar e professora substituta na UFRN. Tem publicado poemas em diversas coletâneas. Atuou no grupo Poesias e Flores em Caixas e atualmente é componente dos Insurgentes. Seu primeiro livro, Febre ,deve sair em breve.

CASA

vivo pra morrer de saudade

e todas as noites parecem pardas

quase incendiárias

com seus ocres e mel

escorridos pelas paredes das calçadas

 

Adoçam o céu

invertem as incertezas

desnuda vulcões

e trazem as erupções para dentro

do outro lado

 

Quase sempre a mesma calçada

na beira dessa casa em que ninguém se muda
 

PÁSSARO FEITO DE EFÊMERO

Vivo para inventar planos de fuga

E todas as noites

Gaiolas inteiras se abrem por dentro

A matéria prima

Escolhida ao acaso

Une silêncio, dorzinhas, arames cortados e um pouco de solidão

Disso tudo se faz portinhas infinitas

A passagem é o lugar

O vôo consequencia

Asas pequenas ou grandes

Miragens

Feito desertos inteiros dentro da gente

Não se apagam nunca

Vive-se para inventar planos de fuga

E todas as noites as janelas se fecham para a vida

São pequenas as mortes de dentro

Imagens deitadas de inventos

Vivemos para desenhar planos de fuga

E todos os dias

A passagem é o passageiro

Entre o ir e vir de grades

grandes ou pequenas

Ficar é apenas consequência…

...........................................................................................................

A vida não perdoa

Ninguém

Tampouco sua falta

de sorte

e o ritmo acelerado

dos pés em fuga

retornados feitos curupira

sem cabelos

a vida não perdoa

sua falta de coragem

em acordar de novo

num barulho ensurdecido

em ser gente grande

não perdoa o caderno esquecido

com todas as memórias

nem fotografias

nunca reveladas

de antes

nos filmes preto e branco da kodak

tudo extinto

A vida não perdoa

ela não sabe o que é isso

sobreviventes de estratosferas

tsunamis, espermas

essa corrida diária

nos lembra o primeiro passo

o óvulo

já sangrado

a vida não perdoa o sangue

derramado

já seco

coagulado

nas manhãs mornas de setembro

em plena primavera

A vida não perdoa os cacos

nem a superbond já espremida

feito vidas

em trens apertados

lotações esgotadas

validades vencidas

A vida não perdoa

a palavra, o gesto, a saliva

desmedida

e franca

como um tiro certo

ao contrário do peito

aberto

exposto

A vida não perdoa

o instinto

enfraquecido

pelo cheiro do perfume francês

e do lenço umedecido

A vida não quer

perdão

nem tampouco

validade

ela quer

como disse o Rosa

Coragem

E isso também está no fim

do frasco

da garganta

no cantinho do olho vivo.

........................................................................................

Tenho por mania

Distorcer a visão

amanhecida

para ver o outro lado

do que for

Mania de desvirar tapetes, calçados

com medo de morrer cedo

por medo de estar viva

sem o frio na barriga

as sopas feitas

frias

no dia anterior

Mania de roer as unhas

mesmo sabendo das bactérias

das artérias entupidas

e a possibilidade de comer mais

manteiga, óleo diesel e refrigerante

rodas sem amortecimento

esmagando as formigas no asfalto

das esquinas, das estradas

de dentro de mim

mania de salvá-las

desviando a atenção necessária

das coisas que deveriam importar

e nada

importa

importo o sabor da comida

com o sal do himalaia

rosa, endurecido, pedrificado

atravessado de oceano

até chegar na saliva e no sangue

acesos e espirrados

mania de se apegar a coisas mínimas

bolinhas de encher para fazer enfeite

poeiras debaixo do tapete

e o medo de mudar de margem

de marcha

de vida

jogar tudo pro alto

coragem em falta

nesses dias de desligamento

da tv, do celular, do cabo do wi-fi

do vizinho

mania de desejar ilhas

de desordem

como queria Brecht

e acertar outra areia

movediça

deslocada

e amassada

para fazer bonecos

na neve imaginária

em pleno sol a pino

dessa vida interminável.

MARINA RABELO(1981)  poeta cearense, foi criada em Natal e se considera potiguar. É engeneira química e também dramaturga. Publicou três livros de poesia: Por Cada Uma (2011), em parceria com quatro outras poetas potiguares; Livro de Sete Cabeças (2016); e Das Coisas Que Larguei na Calçada (2016).           

NÃO LIMPE OS PÉS ANTES DE ENTRAR

Entre com a lama, a grama, a poeira

e a areia do mar.

 

Entre com o barulho das ruas, do samba

e dos versos do poeta de mesa de bar.

 

Entre com o cheiro do asfalto, do ônibus lotado

e do pastel de carne com suco de maracujá.

 

A porta está aberta,

pode entrar:Eu quero minha alma suja

e feliz.

ORIGAMI

nem sempre somos

o que queremos ser.

 

um dia,

    pássaros.

um dia,

    papel amassado

               no chão.

 

[somos as dobraduras da vida]

A POESIA (MENTE)

A poesia está na sala.

Nos restos em cima da mesa.

Inquieta e sedutoramente viva.

 

A poesia está no quarto.

Na poeira debaixo da cama.

Tranquila e assustadoramente só.

 

A poesia sorri,

Debocha e diz:

— A poesia não está.

 

E assim a poesia descaradamente é.

REVOLTO

preciso do caos

da desordem dos sentimentos

de um soco no estômago

seguido de um beijo

um lamber de feridas

para amaciar a dor

preciso da confusão

de ser o que for

 


Publicado por Rubens Jardim em 10/04/2017 às 20h26
Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
25/03/2017 17h15
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (89ª POSTAGEM)

MARIAJOSÉ DE CARVALHO( 1919-1995) poeta paulistana, foi atriz, diretora, cantora, pianista, professora de dicção e tradutora de clássicos. Deu aulas na Escola de Arte Dramática(EAD), envolveu-se em movimentos de renovação cultural. Alguns livros de sua lavra poética:  Poemas da noite amarga (1950), Aurum et Niger (1966 ), Neomenia (1968), Lunalunarium (1976).

que ânsia imemorial atrai os corpos

de ambarina e amavios impregnados

ossos tendões e carne e sangue nervos?

que impacto os enlouquece tange anula?

que plectro ou lançadeira ou sábia lâmina?

e exangues ao cansaço os abandona?

phallus vulva os seios mãos e boca

e a pele esse tecido permeável

são instrumentos de urdir tecer

e a estrutura imantada aniquilada

é deliquo amplo voo queda a pique

num abismo do fogo gelo e nada

 

VIII

do

sardo mar

por águas

lavrado

em sal

conservado

dentre

jóias

moedas

armas

de submerso

acervo

a mim

vieste

aro de bronze

a mim

viúva

e

nesta herança

de remoto

pacto

em meu dedo

estás

arcaica

aliança

O INICIADO

que nome te dar

 

na faca e no gume

na lima e no lume

na lama dos limos

na lança no laço

na trança no traço

na trama dos limbos

 

que névoa te envolve

                   e densa

turva

teu sacro perfil

se destravando

                        a treva

emerso a iluminaste

e

na dança do templo

que o corpo enlaça

a pupila embaça

o passo trava

e o sangue desata

em salva de prata

contido o lábio

na doce taça

 

que nome te dar

 

que medo te impele

que tolhida asa

o vôo te impede

que secreta chaga

de ferida pluma

te enluta o âmago

 

e que maga imagem

te dispara a seta

que o peito afeta

em bruma

               e arfagem

ó

iniciado

 

que êxtase

nos espera

que ardente

dardo

através da estirpe

         de transe

           e treva

           a dor

              extirpa

           o ir

           é nosso rio

         ao bramir

         do touro

           o ouro

          de teu corpo

                           ao sol

o manso bezerro

o túrgido úbere

a plúmbea ave

o fruto maduro

lança e raiz

o chão e o sal

tua urdidura são

ao sol posto

evocamos

             a chaga

que a taça embaça

e o violáceo laço

de obscura trama

nesta agosto

                 deposto

nos envolve o rosto

                   a palavra

                   o chá

TRILOGIA DAS AMOROSAS

I
Acaso poderias contentar-te com outra paixão menos ardente do que a minha?

                                                                     Sóror Mariana de Alcoforado

que mão ardilosa tece

o rumo das amorosas

ardendo em paixão constante

vorazes em seu anseio

verazes no seu amar

tenazes em sua sina

que frágil tecido o seu

que as torna tão vulneráveis

que sólida trama a sua

que as faz tão impenetráveis

que estranha sua urdidura

que armadilha suas entranhas

e a violenta mordedura

das presas do seu veneno

que rara essência as perfuma

que licor denso ou que vinho

corre em suas veia e artérias

que pátera ou que cratera

as embriaga e afoga

que cimento ou que argamassa

constrói a sua ossatura

que flava flama ou que rio

as consome ou as arrasta

que sede e que fome atroz

alimentam sua busca

que nem torres e muralhas

afugentam seu assédio

e as vias mais tortuosas

as sendas mais pedregosas

não intimidam seus passos

e a noite mais tenebrosa

incita a sua coragem

que misteriosa estrutura

sustenta a sua conduta

o fio do seu novelo

a linha de sua estirpe

que ígneo astro as habita

que negro sol as concita

que maciez pisa fino

em sua pata felina

que aço mais temperado

em sua fala ferina

vem de longe a sua linhagem

em viagem ininterrupta

e mesmo partido o leme

rotos cordoalha e velame

prosseguem em seu caminho

ADELAIDE IVÁNOVA(1982) poeta pernambucana, é jornalista, fotógrafa  e vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha. Lançou os livros Autotomia (fotografia), Polaróides (2014) e O Martelo(2016). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais.

GAIA CIÊNCIA

é proibido

cuspir

no prato

 

é proibido

dormir

no asfalto

 

é proibido

trepar

no mato

 

é permitido

açoitar

as massas

 

é permitido

erigir

as farsas

 

é permitido

morrer

às traças

(paremos, portanto, de fingir que Nietzsche estava errado quando enlouqueceu às portas de explicar esse caralho)

A PORCA

a escrivã é uma pessoa

e está curiosa como são

curiosas as pessoas

pergunta-me por que bebi

tanto não respondi mas sei

que a gente bebe pra morrer

sem ter que morrer muito

pergunta-me por que não

gritei já que não estava

amordaçada não respondi mas sei

que já se nasce com a mordaça

a escrivã de camisa branca

engomada

é excelente funcionária e

datilógrafa me lembra muito

uma música

um animal não lembro qual.

O CAVALO

“I look

at you and I would rather look at you than all the portraits in the world

except possibly for the Polish Rider”

                                                         Frank O’Hara

menino há dias tento desenrolar esse fio esse laço

desatar essa corda do meu pescoço e escrever

essas mal domadas linhas ofertá-las a ti menino e potro

surgido nesta estepe sem ferradura e assilvestrado

tirando os cowboys da sela e do sério: tu

menino poeta cavalo

 

e eu repetitiva nos poemas obcecada na vida

me embaralho feito cego em faroeste

ofereço-te meu açúcar meus torrões mais

pra pangaré ou mula que pra égua e relincho,

amolestada e paleolítica, ao sacudir do teu galope

e ao balanço da tua crina

 

em repouso do topo da tua cabeça à minha

há um côvado de distância já em galope gallardo

é inútil a antropometria pois da tua glande a meu chanfro

de equina não há côvado que nos meça yoctômetros

talvez aquela medida imaginária que nunca foi usada

pois mede lonjuras que não existem de tão mínimas

 

escrever um poema pra ti é domar um mustang

de santuário quando pra mim santo és tu menino

vishnu que me batizas de aminoácidos, precário

e matutino, potro poeta e menino a quem dedico horas

de trabalhos não-forçados: pousar a fuça exausta

em tua soldra, levemente triste

 

de não poder ver tua cara enquanto gozas na minha

para depois admirar tuas quartelas bordo e casco,

tuas estrias no lombo de potro bem alimentado crescido

mais rápido que o previsto. pulaste as cercas do estábulo

para chegar, poeta e cavalo, nestas paragens onde

me encontras pronta de sela, esporas postas

 

para mais uma doma nesta sodoma aos avessos

sem cabresto nem gamarra deito-me devota em teu garrote

de puro-sangue belga e muda diante dos músculos

do teu costado aguardo bridão e tala e entendo

o poema alemão que diz: toda a sorte que há

no mundo vem no lombo de um cavalo.

PARA LAURA

em 1998 quando encontraram

o corpo gay de matthew shepard

sua cara tinha sangue por todo lado

menos duas listras

perpendiculares

que era por onde suas lágrimas

haviam escorrido

naquele dia o ciclista

que o encontrou não

ligou para polícia logo que o viu

porque o corpo de matthew

estava tão deformado

que o ciclista achou ter visto

um espantalho

 

sábado passado em são paulo

a polícia matou laura

não sem antes

torturá-la laura

foi filmada ainda viva

por outro sujeito

que em vez de ajudá-la

postou no youtube o vídeo

d’uma laura desorientada

e quem não estaria

tendo sangue na boca e na parte

de trás do vestido

 

laura tem um corpo

e um nome que lhe pertencem

laura de vermont presente!

foi assassinada pela nossa indiferença

e pela polícia brasileira

tinha 18 anos

sábado passado.

JENYFFER NASCIMENTO (1984) poeta pernambucana, é feminista, produtora e apreciadora de arte, além de frequentadora de saraus da periferia da zona sul de São Paulo. Publicou poemas em duas antologias: Sarau do Binho, e Pretextos de Mulheres Negras. Seu primeiro trabalho autoral foi a obra poética Terra Fértil(2014).

ANTÍTESE

Pediram um corpo escultural

Eu não tinha.

 

Quiseram uma mulher ignorante

eu já tinha lido o suficiente pra me proteger.

 

Sugeriram que não opinasse em assuntos de homem

Eu nunca consenti em calar.

 

Disseram que eu fosse esposa

Eu não quis casar.

 

Discursaram que as mulheres são frágeis

Eu não tive tempo de exercitar fragilidades.

 

Orientaram que não freqüentasse bares

Eu não pude negar as esquinas.

 

Quiseram controlar meu jeito de vestir e falar

Eu não vi sentido em deixar de seguir minhas vontades.

 

Apostaram que eu teria um subemprego

Eu vislumbrei ir mais distante.

 

Transaram comigo e depois fingiram não me conhecer

Eu aprendi a ignorar os imbecis.

 

Disseram que eu não amamentasse para o peito não cair

Eu amamentei até cair.

 

Submeteram meu corpo e meu psicológico à violência

Eu me juntei a outras como eu para superar.

 

Compraram vaidades para que eu me adequasse

Eu envaideci aprendendo palavras de ordem na luta.

 

Exigiram fidelidade e submissão

Eu rompi por amor próprio.

 

Cagaram mil e uma regras de conduta

Eu mandei pra puta que pariu

E sorri, feliz.

DESENSINAMENTOS

Estão a moldar nossos pensamentos,

A roubar nossa autoestima.

 

Nos ensinaram um andar cabisbaixo.

Corpos curvados encaram o chão

Como se olhar o céu ou o front

Não fosse algo permitido para negras

Lavadeiras, cozinheiras, professoras,

Balconistas, cabeleireiras e universitárias

Como nós.

 

Nos ensinaram que somos feias.

As capas de revistas não nos querem.

Os garotos nas escolas não nos querem.

Os cargos executivos não nos querem.

Os maridos não nos querem.

Reparem bem no que dizem.

Está tudo assim desproporcional,

Grande demais ou escuro demais.

Pelo menos ajeitem esses cabelos.

 

Ensinaram a moldar nossos corpos,

A tirar nossa expressividade.

 

Nos ensinaram coreografias pré-moldadas,

Em que o balanço e a espontaneidade não cabem,

E assim, pouco a pouco deixamos de dançar.

Somos corpos reprimidos que pairam

Por medo de errar a coreografia,

De errar a medida, de errar…

Corpos doentes.

Corpos endurecidos.

Corpos infelizes.

 

Estão a moldar nossos sentimentos,

A negligenciar nosso sentir.

 

Nos ensinaram a ser fortes.

Aguentar o sol forte queimando na cara

Ao carregar a lata d´água na cabeça,

A aceitar humilhação da patroa,

A parir sem gritar ou gemer,

A criar os filhos sozinhas.

A esconder o choro de solidão,

A não pedir ajuda a ninguém,

A esquecer de si mesma.

 

Nos ensinaram a calar.

A não dizer o que sentimos, nem o que pensamos.

As coisas são como são e ponto. Tá entendido?!

Na prática ninguém costuma mesmo

Dar ouvidos a uma mulher, a uma negra.

Que diferença faz o que você disser?

Quantas vezes adiantou falar?

Eles sempre dirão

“Você só fica bonitinha assim, calada”

Aprender a calar antes que te calem.

(…)

Então um dia

Outras mulheres negras

Das mesmas fileiras que nós

Nos ensinaram que tudo que tínhamos aprendido

Era uma grande farsa.

 

Foi quando aprendemos a lutar.

DESPEDIDA

É madrugada
Reviro de um lado pro outro
Eu sei bem o que me tira o sono.

Ouço vozes,

Num programa de TV
Gal e Caetano cantam
“Recanto Escuro”.

As evidências denunciam

Esse grampo colorido na penteadeira
Não parece em nada com os meus.

O leite estragado na geladeira

Previa o gosto da despedida.

A inevitável conversa acontece

Com justificativas vãs que toda mulher
Já deve ter ouvido centenas de vezes:
“Eu não queria que fosse desse jeito”
“Desculpa, se eu te magoei”
“Não fica assim, vai ficar tudo bem”
“Uma hora vai passar”.

Eu odeio frases feitas.

Disfarço aquela inevitável vontade de chorar
Por raiva, desprazer e ironia.

Até parece que o amor não deu.

Engraçado, você é cheio de manias.

Parece que é só no fim
Que nos damos conta de algumas coisas.
Senta sempre do mesmo lado do sofá
Só usa camisetas de cor clara e
Nunca esquece de apagar as luzes.

Eu vou sentir saudades

Das conversas filosóficas
Das discussões ideológicas
Das músicas bregas que você ouvia
E até do que eu mais reclamava
De levantar e fazer o café pra você.

Eu já tinha até escolhido

O seu presente de Natal.
Um livro do Galeano
E uma camiseta de Ogum pintada à mão
Que encomendei num ateliê em Olinda.

Eu vou e deixo pra trás

As incertezas das minhas poesias
Que sempre quiseram te devorar.

O começo se parece com o fim.

Quando nos olhamos e
Não nos reconhecemos.

Da porta pra dentro

Da porta pra fora.

...................................................................................................

Quem me fode e me beija a boca às 5 da manhã
Na esquina da Praça Roosevelt?
É a namorada fome
Fiel companheira das horas sem fim
Nunca me abandona
Maldita!

Se tem coisa que odeio é esse bando de gente descolada
Que pensam disfarçar seu pertencimento elitista
Com essas roupas coloridas e cabelo mal cortado
Como riem, como bebem e como fumam
E gesticulam e bebem e riem
Falam da crise...
Que crise?
Sabem porra nenhuma da crise
Toda sexta-feira lotam as calçadas
Enquanto eu continuo sendo a materialização das mazelas
Aquela que fede, mendiga, maltrapilha
A que incomoda

Juro que não queria ser tão mal-agradecida
Nem sentir ódio dessa gente paulistana bem-apessoada
Eles até arranjam uns cigarros 
De vez em quando rola até um gole de cachaça
Mas sempre são migalhas
Migalhas caralho!

Quem me come e me cospe às 6 da manhã
No Largo do Paissandu?
É o frio cortando a espinha
Pelo vão dos prédios o vento me atravessa
Estou de pé, dura, estática
Como um poste de concreto 
Já não tenho alma, nem governo
Sou apenas uma paisagem cinzenta
Que compõe a manhã

Eu tô na merda e não é de hoje
Essa cidade infeliz que alguns chamam de grande mãe
Para mim sempre foi pai
Desses que rejeitam e saem fora mesmo 
Isento de qualquer responsabilidade
Segue o curso como se eu não existisse

Mas eu é que não vou passar invisível
Prefiro ser a pedra no sapato da selva de pedras
Não vou me esconder 
Eu sou estudada fiz até a 4ª série
Se pensam que me enganam, 
Não me enganam não, viu?
Podre é um lugar que tenta esconder 
O que não cabe na vitrine
Eu com o lixo, eles com o luxo

Quem me domina e me chupa às 7 da manhã
Na Rua Helvétia?
É a memória de tudo que quero esquecer
Ando, ando, ando e nunca chego 
Tô pra conhecer quem dá conta da realidade 
De viver em SP
Quem?

Sem um teco, uma raspa, um pico, uma baforada
Essa hora não tem papo de amor não
Quando a fissura bate ela vem estralando
Já não sou mais soberana das minhas vontades
Sucumbir é o caminho natural
Já não estou mais só
Somos uma legião à beira das calçada
Fritando

E os dias continuam a passar
O relógio na Júlio Prestes é o próprio senhor do tempo
Eu vejo a cidade como olhos ultrassônicos
Me assusto com ela e comigo
Há tanto sonho morando nas encruzilhadas

Muito além da Avenida Paulista com a Brigadeiro
Muito além do Monumento às Bandeiras
Muito, muito além da Angélica e da Oscar Freire

São Paulo metrópole arranha céu 
Sempre foi como um pai
Severo e conservador 
Para seus filhos abandonados

De luzes acesas
Me brinda e me saúda
Com um gole amargo
De desprezo

Clandestina
Seguirei sendo
Eu sou a contradição
No fio da navalha

AMANDA VITAL (1995) poeta mineira, cursa letras na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte cidade onde reside desde 2017. Participa do grupo Aedos de declamação, apresentando-se em saraus, lançamentos de livros e outros eventos. “Lux” (2015) é seu livro de estreia, que conta com a apresentação de 3 importantes poetas: Lau Siqueira, Marcelo Adifa e Sérgio de Castro Pinto.

não dá pra notar
que ando sempre 
virada ao avesso 

 

sou sem costura,
sem etiqueta, 
sem fim nem começo.

.................................................

meu trevo

tem três folhas

meu olho grego

está míope

minha figa

tem mão aberta

 

toda sorte

desse mundo

nunca é certa.

......................................................

à noite

todos os homens

são pardos

todos os drinques

são dardos

e todos os bêbados

são bardos.

BRUXA MODERNA

A bruxa moderna

tem um gato preto

entre as pernas

 

e uma estante cheia

de poções literárias

das mais ponderosas

 

pó de Beauvoir

sementes de ruiz

asas de liria porto

 

e magia negra

de elisa Lucinda

 

ninguém a queima

em fogueira alguma

 

ela é o próprio fogo

da revolução

 

cozinhando versos

-seus maiores feitiços-

em um calderião

 


Publicado por Rubens Jardim em 25/03/2017 às 17h15
Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.



Página 1 de 45 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » [próxima»]

Site do Escritor criado por Recanto das Letras