Diário![]() 09/03/2010 11h40
DEPOIMENTO DE AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
O texto abaixo, em itálico, que foi enviado pelo poeta Affonso Romano de Sant’Anna, e lido pelo poeta Edson Cruz, durante o lançamento do livro O QUE É POESIA, na Livraria Travessa no Rio, provocou enorme interesse e debates entre os presentes. E tornou, segundo Edson, o ausente Affonso mais onipresente do que ele poderia imaginar."Ele foi, inclusive, chamado “jocosamente” de Santo Romano pelo brilhante e hilário Tavinho Paes"--concluiu Edson. E eu que não estive no lançamento desse livro, interessantíssimo para nós que mexemos com a palavra, recebi permissão do Affonso para republicá-lo aqui. Faço-o na esperança de estar contribuindo com as questões apontadas pelo grande poeta e crítico. E que devem merecer a atenção e a reflexão de todos que estão envolvidos com a literatura, com a escrita e com o poema. Já disse aqui mesmo, fazendo eco a algum poeta da minha predileção, que a poesia é uma viagem ao desconhecido. Mais ainda: ela é passatempo e sacramento. Mas vamos as palavras imperdíveis do poeta Affonso Romano de Sant'Anna. O poeta e publicitário Edson Cruz organizou o livro de depoimentos: O QUE É POESIA. É um livro generoso. Ouviu 46 poetas brasileiros e alguns estrangeiros. O volume foi lançado primeiro na Casa das Rosas (SP) com direito a debates, poemas, música. Foi lançado depois na Livraria Travessa (Rio). Eu deveria estar lá, mas tive que ir a NY. Pedi que lessem apenas um poema meu que trata do tema. Depois pensei: poderia fazer um curto depoimento sobre certas questões que marcam a poesia brasileira hoje. Afinal, há mais de 50 anos que estou na estrada e vi coisas de que nem Deus mais dúvida. No livro, minha definição de poesia é, talvez, a menor de todas: " Poesia é o espanto transverberado". Na Casa das Rosas sugeri que se fizesse outro volume igual/contrário/complementar: O QUE (NÃO) É POESIA. Aprende-se também virando as questões pelo avesso. Então, acrescento agora algumas questões que me parecem atuais. Cada uma delas merecia o capítulo de um livro e horas de discussão. 1.Quando mais a poesia se distanciou do público mais começou a conversar (solipsisticamente) consigo mesma. E o contrário é verdadeiro: mais os poetas se fecharam em seus solilóquios de "autistas", mais se afastaram do público. 2. As vanguardas, em geral, praticaram a "estratégia da exclusão": ou seja, a história da poesia contém eu e três amigos, o resto é lixo. A "estratégia de exclusão" é uma política de poder e com ela a poesia brasileira se empobreceu. É posição dos que acham que eliminando o outro vai sobrar espaço para si. É tão danosa quanto uma estratégia de inclusão indiscriminada. 3. A aproximação entre música popular e poesia erudita é um fenômeno que mereceu teses e livros (meu inclusive). Mas nem toda letra de música é poesia . E acresce que se praticou uma poesia contaminada pela "letra de música" que, sem música, é precária. 4. Considerando uma certa produção em voga observa-se que se perdeu um "métier" do tratamento do verso enquanto unidade rítmica e formal. A indiferenciação entre prosa e poesia é um equívoco. 5. O poema curto, engraçado, tipo jogo de palavras, pode ser uma praga. Mário de Andrade lamentava "o poema piada feito para dar risada". Não é que não se pode/deve fazer poema com humor, mas transformar isto de novo em "moda" é um renovado equívoco. 6. No Brasil criou-se a falácia que o poeta tem que saber várias línguas e ser tradutor de outros poetas. Alguns poetas imigraram para a poesia alheia abandonando a sua possível poesia. 7.Poesia brasileira não é só Drummond e Cabral, que, aliás, se hostilizavam. Cabral dizia que Drummond "desbocou" depois de "Brejo das Almas" . O que é uma tolice. 8.Há que reativar a obra de poetas esquecidos, detonados, na guerra entre os grupos e geracões. É necessário reinventar a critica de poesia no Brasil e prestar mais atenção em poetas fora do eixo Rio/São Paulo. 9. Enfim, somos meia dúzia de gatos pingados. Por que ficar se estraçalhando em praça pública? Avareza (formal) não conduz necessariamente à poesia. Às vezes, ela surge do seu oposto, da generosidade. 10. G. Rosa disse que um dia teve a "fórmula da verdadeira poesia". Dito isto, abandonou a fórmula. Publicado por Rubens Jardim em 09/03/2010 às 11h40
![]() 12/02/2010 02h30
CARTA DA EUROPA AO MEUS PAIS
Tenho, sinto e vivo saudades maravilhosas de vocês. A cada momento --fácil ou difícil, belo ou feio, agradável ou desagradável-- volto à vocês. E esse voltar é muito parecido com este meu voltar às Igrejas antigas --e aos símbolos mais permanentes que permearam a minha vida de criança. Deixando marcas e ressoando preces pela vida afora.
Tenho certeza, e ela vai ficando cada vez mais clara e serena, de que ser filho de quem sou me deu a oportunidade de um exercício de liberdade -- de repudiar ou concordar -- de aprender sempre, de procurar errar menos, de escolher com mais critério e de estar sempre disposto a enfrentar o difícil caminho da beleza, da solidariedade e da verdade. Sou grato, por exemplo, por estar simplesmente vivo, cheio de carências e imperfeições, e pertencer a esse continente e a essa geografia humana. Esses laços, e até os desdobramentos dele, me prendem ao chão da humanidade. E ao mesmo tempo libertam signos e significações muito especiais e específicas. Caso da palavra exuperyana cativar de tantos significados e lembranças. E desta monumental Catedral de Colônia. Vocês não podem imaginar o que foi pra mim estar diante dela e de mim mesmo, recapturado na infância. Acho que essa emoção só poderá ser transmitida diante de um frasco de perfume que eu vi e gravei ainda muito pequeno. Mas isso é indizível e indivisível! Talvez seja partilhável em um plano mais profundo e abrangente --mas só realizável por essas raras pessoas escolhidas e enraizadas no viver e conviver da gente. De certa forma, por conjunturas sempre inexplicáveis, recebi o legado da vida através de vocês. Não para ser do jeito que sou: cheio de precariedades e incompletudes. Mas do jeito que vocês gostariam que eu fosse: invulnerável à dor e cheio de felicidade. Hoje, depois dos meus 48 anos, posso confessar que o sonho e o imaginário de vocês tem muito a ver com aquilo que eu fui, com aquilo que eu sou e, provavelmente, com aquilo que eu serei. Vocês me deram e me doaram as primeiras percepções desse estar aqui. Foi junto de vocês que eu respirei pela primeira vez. Que eu chorei pela primeira vez. O primeiro abraço e o primeiro beijo vieram de vocês. Como vieram de vocês as primeiras palavras e as primeiras alegrias do viver. Depois vieram as primeiras alegrias do conhecer, do viajar, do amar. E é claro, as celebrações do conviver. Hoje, a minha resposta, amorosa, fraterna, é que estou apenas no caminho que vocês abriram para mim nessa longa travessia da vida. Não sei, e acho que nunca saberei, mostrar ou demonstrar a minha gratidão e a minha alegria de ser o prolongamento e a continuação de tudo aquilo que vocês já viveram e nós já vivemos juntos. Tento fazer isso com meus filhos. E não só com meus filhos, de conformidade com aquilo que vocês me ensinaram e fazem, cristocentricamente, até hoje. É certo que tem horas em que isso é muito difícil. Mas em boa parte do tempo isso não é complicado e é até mesmo muito simples e natural. E como é bom sentir isso: esses elos fortes que nos prendem à vida de pessoas amadas e nos enredam no chão único da humanidade. Sou réu confesso de muitos equívocos e erros. Mas cansei disso e hoje procuro, talvez com mais maturidade e fé, aparar as arestas da minha personalidade, arredondar as formas do meu ser, aceitar mais os planos e os espaços reservados às diferenças. Não tenho mais receitas prontas, princípios simplórios, chaves falsas que servem para qualquer porta. Busco e intento compreender as razões e os modos de cada um de meus semelhantes. Ou dessemelhantes. Mas sou frágil e incompetente para tarefa tão árdua. Por isso abdiquei dos meus inconformismos infantis. Mas quero deixar claro que não abandono a minha percepção de criança. Nem a minha inocência. Nem a minha revolta e a minha alegria, sempre viscerais e espontâneas. Confio --e espero continuar confiando-- na vida e no amor. E a demonstração mais clara disso é que estou aqui, de novo na Europa, vendo e vivendo junto da mulher e do filho amados, as mais inusitadas e estimulantes situações. Todas elas emocionantes e convergentes sob a prismática idéia da revelação. São depuramentos experimentais da nossa própria natureza e dos nossos próprios --ou impróprios -- valores, posto à prova em incontáveis situações e momentos. O célebre concerto para Violino do Tchaikovsky, por exemplo, está irremediavelmente ligado à minha infância e ao papai. E vocês não podem imaginar o que eu senti ao ouví-lo por esses caminhos encantatórios da Áustria e da República Tcheca. Compramos uma fita em Praga e a gravação é, realmente, soberba, magnífica. Coisa que não é novidade nenhuma, pois no Leste europeu o time de cordas é sempre de primeira. E nem é preciso dizer como isso me fez voltar no tempo. Lembrei do Ruggero Ricci, da capa do disco e do papai, é claro, entusiasmado e emocionado com as frases melódicas e com aquele discurso sonoro romântico e comovente. E não dá pra deixar de chorar! De contentamento! De felicidade! E de saudade! Que impulsos misteriosos são esses que ecoam em minha alma aberta e encantada? O que o papai sentia ouvindo essa música na sala de casa, na Cristiano Viana, não pode ser muito diferente do que estou sentindo agora, 40 anos depois. Que momentos de comunhão são estes que nos recolocam em nossos verdadeiros lugares, uns diante dos outros, uns ao lado dos outros, unidos por esse laço invisível das origens? Quantas emoções vividas pelo papai não tiveram e não estão tendo continuidade em mim, em espirais cíclicas? Quantos gestos e palavras não ficaram dentro de mim, ecoando e reverberando até nessa música? Pois é. Acho que viver é muito isso: esse reencontro forte e pleno com a paisagem humana de cada um de nós. beijos amorosos do filho Rubens /dezembro/1996 Publicado por Rubens Jardim em 12/02/2010 às 02h30
08/02/2010 10h25
SEM TÍTULO
![]() Sem texto Publicado por Rubens Jardim em 08/02/2010 às 10h25
![]() 05/02/2010 00h00
INFELICIDADE É QUESTÃO DE PREFIXO. VIVER O SENHOR SABE: VIVER É ETCÉTERA. TINHA VERGONHA DE FRENTE --E DE PERFIL. EU SOU
Estes são apenas alguns dos achados verbais do grande mestre Guimarães Rosa. Coloquei muitos outros à disposição de você em www.rubensjardim.com , item Meu Diário, página 9.
E para quem possui, também, a sensação de que a "minha língua é minha pátria", coloquei um e-book: Carta ao Homem do Sertão. É só ir até lá, clicar e locupletar-se com a sabedoria danada de Guimarães Rosa. Venha dar uma espiada. Afinal, não é a toda hora que uma cultura produz um gênio da dimensão de Guimarães Rosa. E esse mito criado em torno de sua obra, ler Guimarães Rosa é difícil, não passa de mais um chavão de quem quer manter a linguagem e a vida presa em camisa de força. As suas inovações expressivas batem diretamente no ponto crucial de toda obra de gênio: a simplicidade. É só dar uma espiada e conferir. Lá em cima reproduzo algumas páginas desse livro-homenagem que foi lançado na minifeira do livro durante a realização da 1 Bienal Internacional da Poesia, em Brasília, em 2008. E aqui embaixo reproduzo um poema que me encantou e que faz parte do livro Magma, publicado em 1936 e premiado pela Academia Brasileira de Letras. Sono das Águas Guimarães Rosa Há uma hora certa, no meio da noite, uma hora morta, em que a água dorme. Todas as águas dormem: no rio, na lagoa, no açude, no brejão, nos olhos d’água, nos grotões fundos. E quem ficar acordado, na barranca, a noite inteira, há de ouvir a cachoeira parar a queda e o choro, que a água foi dormir... Águas claras, barrentas, sonolentas, todas vão cochilar. Dormem gotas, caudais, seivas das plantas, fios brancos, torrentes. O orvalho sonha nas placas da folhagem. E adormece até a água fervida, nos copos de cabeceira dos agonizantes... Mas nem todas dormem, nessa hora de torpor líquido e inocente. Muitos hão de estar vigiando, e chorando, a noite toda, porque a água dos olhos nunca tem sono... Publicado por Rubens Jardim em 05/02/2010 às 00h00
![]() 27/01/2010 18h43
ENCHENTE NÃO É UM PROBLEMA IMPORTANTE. PELO MENOS PARA O GOVERNADOR E O PREFEITO
Ruas e avenidas inteiras cobertas pela água, aeroportos fechados, veículos ilhados, morros desabando, congestionamentos gigantescos, tunéis inundados, casas desmoronando, estradas vindo abaixo, milhares de pessoas desabrigadas, represas chegando ao limite de sua capacidade--e, sessenta e quatro pessoas mortas em todo o estado.
Esse quadro--de uma cidade e um estado sem rumo---onde as mazelas se acumulam, parece estar convergindo para o ponto de ingovernabilidade. Dizer que a culpa é de São Pedro --ou da falta de educação da população-- desculpas preferidas das autoridades e repetidas diariamente pela grande imprensa, não escapam ao bom senso e à análise nem de um repórter iniciante. Mas os jornais e revistas sediados em São Paulo insistem em tratar, com estranha benevolência, o governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab. Fala-se dos índices recordes de intensidade das chuvas, do lixo jogado pela população nas ruas e silencia-se sobre o assoreamento do Tietê, provocado pela falta de limpeza adequada e pela não construção dos 91 piscinões dos 134 projetados pelo DAEE. Segundo Júlio Cerqueira César, professor de Hidráulica e Saneamento da Politécnica-USP, o Tietê sempre teve velocidade baixa, devido à conformação geológica e topográfica. E as duas primeiras enchentes que infernizaram a vida da população paulistana ocorreram nos dias 8 de setembro e 8 de dezembro—época de chuvas moderadas. São palavras do professor Cerqueira César, muito preocupado com o que está por vir no período chuvoso, que vai principalmente de janeiro a março. Claro que neste mês de janeiro está chovendo muito. Isso é inegável. Mas as inundações estão acontecendo porque o Tietê está com mais da metade da sua capacidade obstruída por resíduos depositados no fundo do seu canal e que não foram limpos adequadamente pelo governo do estado. Segundo o prof. Cerqueira César, na cidade de São Paulo, entre a barragem da Penha(Zona Leste) e o Cebolão(Zona Oeste)são depositados por ano cerca de 1,2 milhão de metros cúbicos de terra. E o Departamento de Águas e Energia Elétrica, o DAEE do governo do Estado de São Paulo, faz a limpeza, mas tira só 400 mil metros cúbicos por ano. E há quatro anos, quando foi concluído o bilionário rebaixamento da calha do Tietê, anunciou-se que São Paulo não teria mais enchentes. De fato, como todos estamos vendo, nunca a nossa cidade esteve tão submetida à invasão das águas e nunca viveu períodos tão longos de situação alarmante. Mas a nossa grande mídia procura isentar tanto o prefeito quanto o governador. Qualquer cidadão pode imaginar o carnaval que a imprensa faria se a cidade fosse governada por Marta Suplicy ou Luiza Erundina ---e o estado pelo Maluf. E não é preciso ir muito longe para observar as diferenças. Bastava um incidente menor ou uma frase mal colocada para a imprensa culpar a prefeita ou o governador. E isso mesmo quando o problema era causado por uma obra que prometia melhorar a infraestrutura. Hoje a cidade mergulha no caos e os principais jornais e emissoras de rádio e televisão não cobram medidas dos administradores públicos. E, para finalizar, vejam vocês qual é o tratamento prioritário dado a essa questão. Para 2010, a verba de córregos e galerias para o sistema de drenagem pluvial da cidade foi cortada pela metade. E olha que provavelmente nem o orçamento inicial seria suficiente. Mas não cortaram a verba de publicidade da prefeitura. Com essas atitudes, o recado é inequívoco: enchente não é um problema importante. Publicado por Rubens Jardim em 27/01/2010 às 18h43
|